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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quando

 












Quando te cansares do lago onde  
adormece o eco das sandálias, leva  
água nos bolsos.  rega a almofada  da lua
 
e frui da lentidão  opaca da luz
onde dormem os morcegos. sobrevoa
o cálice sonâmbulo dos narcisos 
 
onde o pólen é o anfiteatro interdito
à sede impaciente das fontes.
 E não te escondas na contraluz peregrina
 
da voz que ressoa nas mãos das árvores
e rios selvagens num incêndio roubado
à ansiosa inquietação do caminho que te resta.
 
Atravessas a orfandade da aragem muda
para deparares com a transparência fluida do etéreo.
 

Manuela Barroso 




sexta-feira, 3 de abril de 2026

Páscoa

 

                                                         Páscoa feliz para todos/as


Se a Tua existência não sensibilizou o coração dos Homens
que a Tua morte os desperte para o mistério da Vida.

Manuela Barroso







O Amor Venceu a Morte




Tempo de Páscoa.
O azul do céu parecia-me mais límpido, transparente e tranquilizador num misto de serenidade e misteriosa inquietude.
A Natureza associa-se ao Tempo, com uma certa inconstância: ora está a acordar duma longa hibernação, numa espécie de preguiça, ora acorda irritadiça alagando as várzeas e fazendo tremer os salgueirais.
Mas também convida, assim, e quem sabe de propósito, ao recolhimento de um passado que Agora ainda se recorda: A morte de Jesus numa cruz.

Mas a saudade vem quando, depois de comemorar a ressurreição, o Compasso visitava a minha casa, acompanhado de um tilintar de uma alegre campainha. E lá vinha uma coroa de flores pequeninas brancas e rosadas, envolvendo a cruz de uma suavidade luminosa, fonte da ternura pascal.
E a saudade voltou ao meu peito.

Hoje…não sinto o mesmo azul, nem o mesmo perfume das flores, nem os rebentos dos salgueiros, nem a chuva mansa.

A rebeldia da Natureza reflete a incongruência da Humanidade.
E Ele, o Jesus das palhinhas?

Ainda e sempre à nossa espera.

 

Manuela Barroso


 Cruz do Compasso






segunda-feira, 30 de março de 2026

No âmago

 



No âmago desta cor
de que minha alma é feita
sobressai este lilás
de violeta campestre
que com o lírio  se faz
o perfume e a cor perfeita.

Eu
Tu
violeta e lírio
a ternura e a natureza.

Longe de ser martírio
é o auge da beleza
escrita nas nossas mãos
conjugada com o delírio.

 Manuela Barroso in “ Luminescências”, 2019

sábado, 21 de março de 2026

Primavera

 

Tudo é POESIA




Ainda ontem te despias para
adormecer no longo inverno que te esperava...
Ainda ontem te deixavas morrer
dando lugar à renovação da vida...
Ainda ontem te deixavas cair,
dando o exemplo de que morrer, não é morrer,
é dar a vez, alternando...

...E a cor morria ou fundia-se na alegria
da essência de nós e das outras coisas!
Mas os dias vão crescendo e com eles
a essência escondida em tudo que é vida!

Voltem timidamente os ramos a intumescer-se
como os primeiros sorrisos de criança!
Voltem a rebentar os bolbos das tulipas
e das frésias do meu jardim!
Volte a surpreender-me o merlo malandro 
que salta prestes dentre a folhagem densa
soltando agressivos desafios

E no ventre da Terra,
a vida entorpecida, desperta,
estalando em movimento,
verdura e cor!
...E fico assim à espera, vendo, olhando, pasmando,
absorta numa quase total ausência de mim…

...Desperto, sorrio...
Vale a pena a vida?
Sim!


Manuela Barroso

domingo, 8 de março de 2026

A Ti, Mulher

 





Vou descendo com o sol ansiando a paz do fim do dia.
Uma espécie de embriaguez entorpece o raciocínio na fuga vertiginosa da tarde,
com os seus olhos  mornos
que se vão pintando no crepúsculo.
Tudo se encerra com a vinda da noite: Lar-Colmeia- Paz!
Não é luz, não é sol nem é a vida que enche o templo de algumas abelhas carregando colmeias de mel.
Não!
São colmeias vazias ou cheias de favos de amargo e falso mel...

E a minha alma vagueia, inquieta, na leitura destes sorrisos azedos, sufocando os olhos de mel no vazio do pólen que
antes se diluiu nos vapores do vento...
E ela sorri, veste a mesa de suor, despe a cama de lágrimas...
Já não é ela...
...É uma coisa de gente, gente que não é coisa, gente que já foi gente...
Hoje é ferida que ninguém vê e em breve ,uma escara ferrada
no corpo que já não dói porque nem sente.
Já não vive...
...É uma anta ambulatória com sorrisos amargos...
O doce sorriso funde-se na chaga que esconde na culpa dessa maldição que abafa e aninha na colmeia podre
com mel suicida.

Mas o sorriso vai rolando pela face, misturando-se com as lágrimas no compasso desta morte lenta.
...E já não é coisa nem é gente.
Já nem sente!
É fantasma de mulher- moribunda na flor desflorida do seu martírio!
...E o sorriso azedo rasgou-lhe as pétalas, sugou-lhe o perfume
para verter o ácido neste mel sádico...na pele macia e quente
de mulher que já não é gente!

Nesta raiva com que fico
Neste amor que te dedico
A ti, mulher, este meu grito!

 Manuela Barroso ( reeditado) 




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Não me apetece

                                Uma mensagem simples reflecindo estados de Alma! 

                                                                     Beijinhos!

monika luniak


 

  

Não me apetece...
Não me apetece…
 
Não me apetece escrever
Não me apetece sair
Não me apetece falar
Não me apetece beijar
Não me apetece sorrir…
 
Não me apetecem os dias
Não me apetecem as noites
Não me apetecem manhãs orvalhadas
Não me apetece o pôr-do-sol
Não me apetecem as gargalhadas…
 
Não me apetece ver gente
Não me apetece mentir
Não me apetece ensinar
Não me apetece fugir…
 
Apetece -me não me apetecer
Apetece-me recordar
Apetece-me olhar o nada
Apetece-me pasmar…
 
Tudo ou nada, tanto faz
Tanto faz Outono, Inverno
Tanto faz viver, morrer…
Mas não! Dá trabalho apetecer!..
 

 

Manuela Barroso   -   “Inquietudes”, 2012

(reeditado)


 

 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Despem- se



 



Despem-se as árvores, veste-se o chão,
vestem-se os rios de madrugadas.
Despe-se o dia de tantas aves,
veste-se a noite de sombras caladas.
 
De alegrias te vestes, sorrisos mansos
olhos de sal, de tantas  gotas
as mãos se abrindo em amor e remanso.
 
Veste-se a boca de tanta ofensa 
monólogos longos em sobressalto
nos gritos que ditam sua sentença.
 
Vestem-se os ouvidos de tanta injúria
palavras loucas, voz sem espaço
no cristal que fere com a maior fúria.
 
Veste-se o sol de alegria,
e as madrugadas de fresco orvalho,
veste-se de penumbras e sombras o dia-a-dia
Assim é a vida: uma manta de retalhos.

Manuela Barroso


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cai Neve

 

Queridos/as  Amigos/as, depois de um tempo de convalescença, voltando à vossa companhia com um abraço!






Cai neve!
não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é  cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

 Manuela Barroso

(reeditado)