SEGUIDORES

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sons

 




O teu som penetra na sombra dos bosques onde se 

difunde a harmonia. 

A tua luz côa-se pelo filtro espesso dos dedos da 

ramagem. 

Tudo se esquece neste vale onde a calma é o 

prelúdio da tua  música cujas notas penetram 

também no seio da terra. 

São ondas de êxtase acompanhando esta viagem 

no murmúrio do silêncio fresco que desperta as penas 

dos pássaros no terraço da manhã. 

A alegria esboroa-se no ar em poalha de reflexos de luz, 

na miragem de imagens ténues no jade do orvalho.

 

Cai o pano do olhar no veludo da erva vestida de vapores matinais. 

O aroma cresce por entre campos de amoras. 

 

Silencio o desassossego deste paraíso efêmero

e num sagrado deleite 

me distancio 

antes que outra sombra se deite.

E procuro outros vazios.



Manuela Barroso

 

 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Tempo

 

imagem- net






Correm em gotas os fios de luz   
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te
e numa resposta tímida mostram-te  
o espelho de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.

Manuela Barroso
 


 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bucolismo

 





Numa cálida tarde de verão, a monotonia do chocalho ecoava sereno, enquanto ia soprando uma brisa atrevida.
Já o sol se sossegava do dia corrido mas ainda a relva resplandecia no véu das sombras.
Despertando dos dias longos e quentes, espraio o olhar pelo verde da erva plana. 
Fiquei presa à paisagem daquele bucólico quadro campestre: Um rebanho, usufruindo da erva macia de um campo de golfe, agora jardim.
Tento aproximar-me desta meia realidade esquecida, que já cria inexistente e dos vultos que a custo distinguia. O sorriso abriu-se demorando me na paz do que a custo via. O pastor, no outono da vida, sossegando à sombra dos arbustos, enquanto os amigos fiéis se debatiam para manter a ordem no rebanho, enquanto o dono dormia.
Plasmei.
Demorei-me usufruindo da paz que aquela paz transmitia.
Esqueci-me do tempo, esquecendo-me de mim.
E sorria.
Haja paz, assim, em cada dia!


Manuela Barroso
Imagem da net

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Maio

 

                                                                

 Imagem -net



Fecho os olhos e percorre-me a música de maio.
É o êxtase inconfessável nos sons definidos e indefiníveis. 

É a cor divisível nas folhas e cambraias de flores,

no indivisível que se afunda na incapacidade cósmica 

que cinzela a perfeição. 

É o grito impotente de abraçar o abismo 

onde enterro a minha impotência. 

 

Uma enorme sensação de paz quase desumana, 

troca esta fome de alcançar o indivisível 

para morrer na alegria de estar aqui.

 

Abro então os olhos e sinto quão grande 

é a beleza deste cântico que sepulta a minha alma 

num leito verde e florido, num eflúvio  que abarca 

todos os sentidos e mata esta sede de abraçar os sons 

deste Poema feito Vida e Mundo, 

Terra e Flores e Pássaros .



Manuela Barroso, "Luminescências", 2019






terça-feira, 28 de abril de 2026

Hoje


 





Hoje, não cantes a primavera que nasce nos outeiros.
Chovem outonos em mim com folhas secas pelo meio.
As rosas perderam a cor, 
os lírios perderam asas,
as aves perderam chuvas de penas, na pena do desamor.
O sol emudeceu a luz, 
as nuvens já não cavalgam no céu.
 
Quero tréguas neste trepidar da calma 
que foge, que me arrasta.
Deixa uma vez, a solidão morar comigo 
na casa que construiu
nos marfins das noite sem estrelas.
 
Quero a paz da luz, a alegria da noite no refúgio 
da solidão.
Quero ninhos no silêncio das alvoradas,
acordar no linho dos lençóis 
despertar com  o sorriso do orvalho 
na frescura das  madrugadas.


Manuela Barroso, in Luminescências