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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Sombras

 

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Não demoraria a encontrar-te.
No bosque da vida as clareiras são esparsas cantando a elegia do resto dos dias.
Ao longe, tudo sombras roubando a nitidez dos meus olhos.
 
Sou a árvore paciente acolhendo os frios das manhãs com a alegria do acordar dos tentilhões, único acorde que desperta o vazio longo.
Som cavado no peito.
Não fora o eco do chilreio inquieto dos pardais e adormeceria no pasmo das folhas quietas.
Mas a cogitação para.
Detenho-me na aceitação do orvalho, do sol, na monotonia aparente destes limbos, olhando-me insistentemente. Enquanto o outono não chega também eles vivem cada dia.
E penetram no meu inconsciente, agora num balancear breve de um ligeiro sopro matinal.
Num interrogatório inquietante.
De infinda incompreensão. Inquisitória.
 
Uma sintonia nos aproxima: Somos parte destes Seres Viventes completando o Todo da Terra.
Olho o vazio.
Regresso ao vazio de mim, agora preenchido com a serenidade ainda inquieta na certeza do Tudo.
O Mundo que penso ser, reduz-se à Partícula incandescente, imensa, de um pulsar.
É aqui que devo estar.
 

Manuela Barroso

 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Porque não sorris?

 













A luminosidade vagueia plana no coração da Terra
anunciando a alegria
de estrelas azuis.
Nos ninhos aquecidos de peitos maternos,
dormem ondas de amor
nas marés do coração.
 
Porque não sorris com a translúcida cor dos olhos dos lírios?
Arruma as angústias,
sacode a poeira que embacia o teu Agora.
 
Há muito tempo que o sorriso é a muralha
que guarda a fortaleza no poema da tua alma.

 

 

Manuela Barroso

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sons

 




O teu som penetra na sombra dos bosques onde se 

difunde a harmonia. 

A tua luz côa-se pelo filtro espesso dos dedos da 

ramagem. 

Tudo se esquece neste vale onde a calma é o 

prelúdio da tua  música cujas notas penetram 

também no seio da terra. 

São ondas de êxtase acompanhando esta viagem 

no murmúrio do silêncio fresco que desperta as penas 

dos pássaros no terraço da manhã. 

A alegria esboroa-se no ar em poalha de reflexos de luz, 

na miragem de imagens ténues no jade do orvalho.

 

Cai o pano do olhar no veludo da erva vestida de vapores matinais. 

O aroma cresce por entre campos de amoras. 

 

Silencio o desassossego deste paraíso efêmero

e num sagrado deleite 

me distancio 

antes que outra sombra se deite.

E procuro outros vazios.



Manuela Barroso

 

 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Tempo

 

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Correm em gotas os fios de luz   
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te
e numa resposta tímida mostram-te  
o espelho de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.

Manuela Barroso
 


 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bucolismo

 





Numa cálida tarde de verão, a monotonia do chocalho ecoava sereno, enquanto ia soprando uma brisa atrevida.
Já o sol se sossegava do dia corrido mas ainda a relva resplandecia no véu das sombras.
Despertando dos dias longos e quentes, espraio o olhar pelo verde da erva plana. 
Fiquei presa à paisagem daquele bucólico quadro campestre: Um rebanho, usufruindo da erva macia de um campo de golfe, agora jardim.
Tento aproximar-me desta meia realidade esquecida, que já cria inexistente e dos vultos que a custo distinguia. O sorriso abriu-se demorando me na paz do que a custo via. O pastor, no outono da vida, sossegando à sombra dos arbustos, enquanto os amigos fiéis se debatiam para manter a ordem no rebanho, enquanto o dono dormia.
Plasmei.
Demorei-me usufruindo da paz que aquela paz transmitia.
Esqueci-me do tempo, esquecendo-me de mim.
E sorria.
Haja paz, assim, em cada dia!


Manuela Barroso
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