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terça-feira, 16 de junho de 2026

Tempo

 

imagem- net






Correm em gotas os fios de luz   
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te
e numa resposta tímida mostram-te  
o espelho de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.

Manuela Barroso
 


 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bucolismo

 





Numa cálida tarde de verão, a monotonia do chocalho ecoava sereno, enquanto ia soprando uma brisa atrevida.
Já o sol se sossegava do dia corrido mas ainda a relva resplandecia no véu das sombras.
Despertando dos dias longos e quentes, espraio o olhar pelo verde da erva plana. 
Fiquei presa à paisagem daquele bucólico quadro campestre: Um rebanho, usufruindo da erva macia de um campo de golfe, agora jardim.
Tento aproximar-me desta meia realidade esquecida, que já cria inexistente e dos vultos que a custo distinguia. O sorriso abriu-se demorando me na paz do que a custo via. O pastor, no outono da vida, sossegando à sombra dos arbustos, enquanto os amigos fiéis se debatiam para manter a ordem no rebanho, enquanto o dono dormia.
Plasmei.
Demorei-me usufruindo da paz que aquela paz transmitia.
Esqueci-me do tempo, esquecendo-me de mim.
E sorria.
Haja paz, assim, em cada dia!


Manuela Barroso
Imagem da net

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Maio

 

                                                                

 Imagem -net



Fecho os olhos e percorre-me a música de maio.
É o êxtase inconfessável nos sons definidos e indefiníveis. 

É a cor divisível nas folhas e cambraias de flores,

no indivisível que se afunda na incapacidade cósmica 

que cinzela a perfeição. 

É o grito impotente de abraçar o abismo 

onde enterro a minha impotência. 

 

Uma enorme sensação de paz quase desumana, 

troca esta fome de alcançar o indivisível 

para morrer na alegria de estar aqui.

 

Abro então os olhos e sinto quão grande 

é a beleza deste cântico que sepulta a minha alma 

num leito verde e florido, num eflúvio  que abarca 

todos os sentidos e mata esta sede de abraçar os sons 

deste Poema feito Vida e Mundo, 

Terra e Flores e Pássaros .



Manuela Barroso, "Luminescências", 2019






terça-feira, 28 de abril de 2026

Hoje


 





Hoje, não cantes a primavera que nasce nos outeiros.
Chovem outonos em mim com folhas secas pelo meio.
As rosas perderam a cor, 
os lírios perderam asas,
as aves perderam chuvas de penas, na pena do desamor.
O sol emudeceu a luz, 
as nuvens já não cavalgam no céu.
 
Quero tréguas neste trepidar da calma 
que foge, que me arrasta.
Deixa uma vez, a solidão morar comigo 
na casa que construiu
nos marfins das noite sem estrelas.
 
Quero a paz da luz, a alegria da noite no refúgio 
da solidão.
Quero ninhos no silêncio das alvoradas,
acordar no linho dos lençóis 
despertar com  o sorriso do orvalho 
na frescura das  madrugadas.


Manuela Barroso, in Luminescências


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quando

 












Quando te cansares do lago onde  
adormece o eco das sandálias, leva  
água nos bolsos.  rega a almofada  da lua
 
e frui da lentidão  opaca da luz
onde dormem os morcegos. sobrevoa
o cálice sonâmbulo dos narcisos 
 
onde o pólen é o anfiteatro interdito
à sede impaciente das fontes.
 E não te escondas na contraluz peregrina
 
da voz que ressoa nas mãos das árvores
e rios selvagens num incêndio roubado
à ansiosa inquietação do caminho que te resta.
 
Atravessas a orfandade da aragem muda
para deparares com a transparência fluida do etéreo.
 

Manuela Barroso