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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Quando a noite

 


Quando a noite madrugava, despertavam os meus sonhos
na harmonia longínqua das paisagens onde te plantei.
Neles vieste na boca das flores que eu beijava, sentindo o teu perfume.
E eras a acácia austera abraçando-me na sombra longa e sonolenta, manto de desejos, dilatando  alvoroços e inquietações.
Via no contorno das árvores o horizonte do teu corpo
num caudal de afagos errantes, de arrebatamento cego e labaredas verdes.
E subia para a cortina dos teus ramos.
Fechava-a com as tuas folhas.
Emoção e silêncio foram cúmplices dos relâmpagos de ternuras
que fizeram acordar a quietação do bosque.
Cortejos de aves planavam este dossel intimista,
celebrando a vibração e alegria do amor.


Fotografia e Texto

de

Manuela Barroso

terça-feira, 29 de junho de 2021

Se me disseres



Se me disseres que te apaixonas pelas flores que 

cobrem as ruas das tuas mãos ou pelo austero cântico                

que atravessa as frestas na sombra das pedras,

vibrarei com o âmago da tua  adolescência.      

 

Nada é tão puro e cristalino e tão levianamente azul.

Nada é tão perecível como a sonolenta caligrafia  de

um sinuoso silêncio submerso no misterioso lodo das

águas. Nada é mais belo que o sibilar das folhas,

o saltitar do chapim na lucidez da manhã.

 

Submersos na imaginação vadia, sorvemos o bulício

que nos suspende à moldura da vida,  como corpos

abandonados  à procura de um poente.



Manuela Barroso

 






quarta-feira, 9 de junho de 2021

Dá-me as Flores

 


Dá- as flores e aves e gorjeios que se desprendem do colo das árvores. 
Dá- me um barco com remos de fogo e mastros de andorinhas.
Leva- me ao alpendre plantado na alegria do vale juncado de choupos
e ninhos de rouxinóis 
Espera - me o regato onde borbulham as madrugadas do estio e onde 
recrudescem os devaneios atropelando-se com os sonhos no resgate inconsciente da alegria.
 
 
Manuela Barroso

 

 


domingo, 23 de maio de 2021

Minhas Rosas

 






Ouve-me
e sente comigo
a obsessão das rosas
no rigor e sedução das pétalas
e no fogo plácido das cores.
 
E vê
vê o reflexo de manchas
híbridas de encanto
cingindo aos teus olhos
a sedução solene do seu manto
 
Na inocência dos botões,
fecho-me com eles.
 
Não quero corromper a alegria
e o fascínio de nascer
cada dia.
 

Texto e Fotografias do jardim
de
Manuela Barroso
 

Rosa Minhas

 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Não substimes

 



Não subestimes as ligeirezas da terra. Tudo se liberta em 
olhos clandestinos sempre à procura de um destino.
Bate à porta do sol, das nuvens, dos olhos, 
terás a resposta na quietude  profunda da paz 
que terás no Cosmos.  
 
Não subestimes a erva seca que já foi menina.
É o prado que se funde com insectos e larvas 
criaturas pequeninas. 
Debruça-te na varanda do teu mar, esquece o pânico
das bombas, enche o peito de rosas e verbo amar. 
Mergulha nas ondas e da alegria não te escondas. 
Espera o encher das marés. 
Transforma-te na leveza da anémona, deixa-te vaguear, 
sê tu próprio aquilo que és. 
 
E não perturbes o teu caminhar. 
Abandona-te na seda da alma que, 
como interrogação sempre em suspenso, é rosa,
lírio, cisne branco, quando no abandono nos traz a calma.

 

Manuela Barroso