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sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Lá fora


 

La fora chove o sol.
A terra pinta-se de Outono. Folhas moribundas
que ainda sorriem para a vida. Tinha esquecido.
Não sabia que os moribundos ainda podiam alegrar
as manhãs que gelam o sangue. A vidraça, uma barreira
donde os olhos contemplam a vida de um sol calmo
penetrando na alma, espalhando-se  pelos sentidos
alargando-se no jardim da minha pele.
Dentro, dádiva de vida longa, tropeçando na renda dos ossos.
A sombra desce. O sol deita-se numa horizontal plácida.
O chão dorme sentindo os beijos das folhas
e a vidraça é a porta que me liga ao mundo que me esqueceu
Eu, penetro as suas sombras nas vozes dos passos,
no tambor ruidoso que me acorda para a vida.
 
 
Manuela Barroso

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Donde nascem

 



 
Donde nascem esses olhos rosa
tatuados de música? De que penhascos
são feitos os instrumentos que atravessam
os desfiladeiros desafiando os voos
 
dessas notas musicais numa sinfonia azul?
De que matéria é feito o som que se 
transporta tão suavemente para esse
abismo donde não quero sair?
 
Junta todas as notas musicais  
na pauta da alma para que toque
a orquestra que os ouvidos se neguem  
esquecer. Que seja perene o arrebatamento
 
que emprenha a alma com esse canto
em uníssono e que fique escrito no teu rosto
os hieróglifos suspensos na sombra da tua
voz segredando baixinho as sombras  no
 
espelho do teu caminho. É que se soltam
notas veladas tão calmamente do peito
e num monólogo tão intenso, que os crisântemos
são o leito onde serenamente me quero silenciar,
deitando-me nas ondas, e nesta sonolência, repousar.
 
 
 
Manuela Barroso
 

 

 


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

À Deriva sem margens

 



 

 
Estou cansada!
Já não sei nem ouso coisa nenhuma
porque cansei de depender
ter que escolher ter que dar
sem ouvir a razão o bater do coração  
de ter que repetir
cansada da publicidade das inverdades
"ratings" inflação desorganização
Banalização do amor da morte da dor da promiscuidade
do poder financeiro do poder político da corrupção
sem solução
e dar… dar… dar sem que eu queira sem perguntar
se quero se posso...
E guerra tanta guerra por tudo por nada
crianças velhinhos almas penadas
sem tudo com nada
 
Cansei!
Uf! Que cansada!  
 
E queria tanto a paz construir paz partilhar paz
Mas o ruído é tanto...que não me ouço mais!
Estou cansada muito cansada!
 
Partilhei o turbilhão
agora a procura de abrigo
para  descansar no silêncio
esta inquietação.
 

 

Manuela Barroso


 

 

 


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Nos dias

 






Nos dias em que os rumores do vento da vida ensurdecem o pensamento, voo.
Preciso de pousar na escarpa mais íngreme da montanha
onde o remanso do azul me aproxima da Fonte.
É aqui que me purifico, sorvendo a frescura das águas límpidas
neste marulhar esvoaçante
que me acalma,
que sinto,
que não vejo:
indefinível aos sentidos.
Impotente, sem penas, choro a pena deste penar.
Limito-me a estender os olhos para que deles se soltem as asas
que limitando-me, as imagino.
E tanto me pesa esta ausência!..
Finjo que voo, que pouso naquela pedra já  lavrada de musgo seco
onde se escreve como num papiro, a minha existência.
Deduzo que mesmo sem penas
é possível forjar umas outras Asas para subir a Vida.
Porque voar, é a forma mais fácil de caminhar!


Manuela Barroso


sábado, 24 de setembro de 2022

O rio secou/ Graça Pires finalista da lista PEN Club

 

Os Amigos estão presentes em todas as horas.

E esta é a hora de aplaudir e me regozijar  com a presença da nossa grande Graça Pires na Lista dos Finalistas do Prémio PEN CLUB 2022.

Muitos Parabéns, querida Amiga!


Imagem da net



O rio secou.
As fontes adormeceram as águas nas fendas obscurecidas dos montes.
Apagaram-se os olhos das cascatas.
Calou-se o ruído das lágrimas no tempo redondo dos seixos.
 
Não chores, rio, as fontes também vertem gotas no estio.
Guarda nas tuas margens os ninhos de libelinhas
e a liberdade das flores selvagens.
No teu leito despido guardas o limo seco, na ausência da tua voz.
Cala a impaciência.
A nascente é já ali na humidade da boca dos fetos e na transpiração calada dos esporos.
Ouve o sorriso da areia, no borbulhar das contas de água escorrendo nos reflexos das veias.
 A terra doa-se neste parto de amor.
A vida vai nascendo. A água salta e num breve ruído,
salpica de musgos moídos o ventre de leitos adormecidos.
E as fontes estalejam de vidas hibernadas,
na solidão e frescura das suas madrugadas.



Manuela Barroso