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domingo, 11 de abril de 2021

Fizeste-me

 



Fizeste-me cântico em versos de vidro
na imensidão  do cosmos onde fulgura 
toda a exatidão do belo.
Tudo parece imutável
na plenitude serena dos astros
e na ausência visível  do turbilhão
efervescente dos magmas.
Mas
tudo é um poema em incandescência.
 
Deixa-me que me transporte para a
serenidade inalterável da luz das memórias
onde me esperará uma sinfonia de estrelas
na imaterialidade dos Tempos.

 

Manuela Barroso


domingo, 21 de março de 2021

Como te ouço

 

 António B. Coelho


E como eu te ouço nas cordas longínquas
das violetas caladas.
Irrompem dos diques da memória,
as recordações que não tenho de ti.
Sinto a saudade esvaindo no céu das madrugadas
mergulhando no belo indizível
das auroras boreais.
 
Como elas, a impermanência deste olhar
que se esfuma com o tempo  em insónias fatais.


Manuela Barroso
 


sexta-feira, 12 de março de 2021

Vale Azul

  

 
Na planície verde dos sonhos,
as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos.
 
É a única voz que perfuma o pão
desta fome de silêncio.
 
Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas.
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem que salta da pele plana
e quieta dos charcos.
Sigo o vaguear inquieto das libélulas
arrastando consigo o sono dos nenúfares.
 
Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos
dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs
quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.
 
Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas
estendidas atrás dos montes.

 

Manuela Barroso

 

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Correm em Fios

 


Correm em fios gotas indulgentes 
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
 
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te.

E numa resposta tímida mostram-te  o espelho
de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.
 
 
manuela barroso



sábado, 13 de fevereiro de 2021

Longas Penas

 


    

 
Longas penas atravessam o cálice da tua noite.
Os clarões abrem-se em raios luminosos, indiferentes
a tempestades. Vacilas na fragilidade do teu corpo 
na prisão de devaneios, quimeras. 
 
O teu mundo definha numa poeira constante, 
mas a vida é floresta tua, ardendo em cada instante. 
Intriga-te o baloiço das ideias, não te 
conformas com o barulho das marés.
O silêncio percorre-te as veias 
e a paz está no que pensas que és. 
 
Acomodas-te ao vício do vento que te vende 
o valor do vazio no infinito de ti. 
Mas não ao fogo-fátuo, tragando de uma só vez, 
a vida que carbonizas em vertiginosa rapidez. 
 
És a essência da verdade que se esconde no escuro
e o muro do tempo que se perdeu no futuro. 
 
Te direi que
impávida com o tempo, 
serei a árvore plantada, à tua espera, 
aguardando, paciente, a seiva da alegria 
em cada folha de primavera.
 

 Manuela Barroso, in “Luminescências” , 2019