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sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade e Poesia de Graça Pires


Graça Pires

Lançamento online agora




Encontrou-o à entrada do deserto,
absorto, como se conhecesse
todas as invocações do silêncio.
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.
Ela saía do deserto. O mesmo deserto.
Trazia um cacto murcho em cada mão
e um rio seco a escamar-lhe a pele.
Olharam-se. E ela contou-lhe.
Contou-lhe das vezes que se afogou no chão
pensando que era água;
como rebentaram seus lábios pela sede interminável.
Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;
que bebeu o próprio sangue para curar a febre e o delírio.
Falou-lhe do medo e do cansaço que venceu
cambaleando, rastejando, dormindo agarrada à noite.
Ele hesitou.
Depois, com uma quietude que só nos prodígios acontece, pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.

Graça Pires- a Solidão é como o Vento
















GRAÇA PIRES, a nossa grande Poeta,  vai lançar mais um livro de histórias- poema de uma beleza fabulosa com o título “ A SOLIDÃO É COMO O VENTO”.
Uma vez que o confinamento em que vivemos actualmente, não permite que seja presencial quer em Lisboa quer no Porto, este lançamento será feito online - Facebook.
O abraço de Parabéns será virtual. Mas os seus POEMAS serão eternos.
O maior sucesso, querida amiga. 
Que o mundo literário reconheça muito mais o teu valor, apesar dos muitos e avalizados Prémios que já possuis.
Terno Abraço.

Manuela Barroso

*
O lançamento do livro “A Solidão é como o Vento” será no dia 1 de Maio no Facebook da Poética Edições.
A  Editora está a fazer uma pré-venda com 20% de desconto até 30 de Abril. É bom para quem tiver gosto em adquirir o livro.
Aqui vão os links do youtube, onde já está o vídeo, e da loja online



https://www.youtube.com/watch?v=2Z20pDs1YMY 




sábado, 4 de abril de 2020

O Céu metálico


O céu metálico sobrevoa, esta floresta de cabelos humanos, invadidos por rajadas de
medos, emparedando-os na angústia do abandono e desencanto, como berlindes ansiosos, em declives verticais, em voos  picados e  pesados de encontro ao abismo.

A solidão gela a amargura das horas com sede de vingança.
E crepita a ânsia de liberdade pela Dignidade e Igualdade Humanas.
Uma estranha prisão com grades frias, intransponíveis, feita de injustiças, ódios e metal.

A dignidade sufoca esta espuma de solidão, numa angústia asfixiante,
infligida por carrascos impunes que anulam sonhos e gritos de esperança...
A impunidade esmaga a esperança de justiça numa cortina opaca, provocando arrepios de indignação.

É neste lar terreno que o espectro da loucura humana
ganha contornos de vórtice tenebroso,
mutilando mocidades ainda por nascer.

E a dor da indignação bate surda no olhar de peitos magoados, numa amargura incontida, que acordará nas brasas das consciências abandonadas, 
feitas vulcões,  
cujas crateras vomitarão
lavas incandescentes de libertação.
E das cinzas, nascerá de novo
uma outra condição.

Manuela Barroso


quinta-feira, 26 de março de 2020

No Âmago de ti


      
 

 No âmago de ti, doem-te as estrelas.
Voas como ave desesperada de encontro
à casa do Infinito.
A noite é o teu refúgio.
Foges de ti para te encontrares. Mas só encontras solidão.
A tua casa enche-se de muros que não deixam penetrar
os teus murmúrios
E quero-te aqui.
Voa como os pássaros e encontra a leveza das penas
na alegria do manto das estrelas.
Caminha e varre o chão com o Amor dos teus pés.
Fixa o horizonte e traz-me candeeiros de purpurina
para celebrar a tua chegada.

A luz será a tua porta algures na neblina.
A música o teu caminho com revoadas de andorinhas meninas.
Traz-me rosas para colorir os teus olhos
incenso de violetas para perfumar a tua casa.
Nas mãos, o pão de cada dia
E mais flores nas tuas asas, para mim.
Eis tudo.
Só. Assim.

Manuela Barroso -  “Luminescências”



sábado, 14 de março de 2020

Para pensar

            "Acredito que o universo tem a sua própria forma de equilibrar
                        as coisas com as suas leis, quando elas estão perturbadas.”- Eckhart Tolle
 


“O momento que estamos a viver, cheio de anomalias e paradoxos, faça-nos pensar.

Numa época em que as mudanças climáticas causadas pelos desastres ambientais atingiram níveis preocupantes, a China em primeiro lugar, e muitos países depois, são forçados a congelar; a economia entra em colapso, mas a poluição diminui consideravelmente. O ar melhora. Usa-se máscara, mas respira-se.

Num momento histórico em que certas ideologias e políticas discriminatórias, com fortes referências a um passado mesquinho, estão a ser reativadas no mundo inteiro, aparece um vírus que nos faz ver que, num instante, podemos tornar-nos os discriminados, os segregados, os presos na fronteira, os portadores de doenças. Mesmo que, a culpa não seja nossa. Mesmo que, sejamos brancos, ocidentais ou viajemos em classe executiva.

Numa sociedade baseada na produtividade e no consumo, em que todos corremos 14 horas por dia atrás do desconhecido, sem sábados nem domingos, sem mais vermelhos no calendário (feriados), de um momento para o outro, somos parados. Parados em casa, dias e dias para contar com um tempo cujo valor perdemos se não for mensurável em compensação ou em dinheiro. Ainda sabemos o que fazer com o tempo?

Numa fase em que o crescimento dos filhos é por necessidade, muitas vezes delegado a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e obriga-as a encontrar soluções alternativas para voltar a colocar mães e pais junto dos filhos. Obriga-nos começar uma nova família.

Numa dimensão onde as relações, a comunicação, a sociabilidade são lançadas principalmente no "não espaço" das redes sociais dando-nos a ilusão de proximidade, o vírus tira-nos a verdadeira proximidade sem beijar, sem abraçar, á distância do não contacto.
Quando é que tomamos estes gestos e o seu significado como garantidos?

Numa fase social em que pensar no próprio umbigo se tornou a regra, o vírus envia-nos uma mensagem clara: a única saída é a reciprocidade, o sentido de pertença, a comunidade, o sentimento de fazer parte de algo maior que temos de cuidar e que cuida de nós. A responsabilidade partilhada, o sentimento de que o destino não é só o nosso, mas de todos à nossa volta, dependente das ações de todos e de cada um.

Então, se pararmos de fazer à caça às bruxas, a pensar de quem é a culpa ou por que tudo isto aconteceu, mas pensarmos no que podemos aprender com isto, penso que todos temos muito para pensar e com o que nos comprometer. Porque com o universo e com as suas leis, obviamente, temos uma dívida de gratidão. O vírus está a mostrar-nos isso, a grande custo".


Leonardo Morelli




sábado, 7 de março de 2020

Não me apetece



  
Não me apetece...
Não me apetece…

Não me apetece escrever
Não me apetece sair
Não me apetece falar
Não me apetece beijar
Não me apetece sorrir…

Não me apetecem os dias
Não me apetecem as noites
Não me apetecem manhãs orvalhadas
Não me apetece o pôr-do-sol
Não me apetecem as gargalhadas…

Não me apetece ver gente
Não me apetece mentir
Não me apetece ensinar
Não me apetece fugir…

Apetece -me não me apetecer
Apetece-me recordar
Apetece-me olhar o nada
Apetece-me pasmar…

Tudo ou nada, tanto faz
Tanto faz Outono, inverno
Tanto faz viver, morrer…
Mas não! Dá trabalho apetecer!..


Manuela Barroso   -   “Inquietudes”, 2012