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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Sons



 Foto da Net
Das profundezas da terra virão os sons
que não chegam a florir. 
Não são os mastros nos destinos do vento
que levam os cantos das sereias.
São os corais, as pautas onde se guardam
solfejos, bulindo nas águas, capazes de fazer
renascer nos búzios, os sons que guardam na
perfeição das suas sinuosidades a sinfonia das marés,
fazendo rodopiar os peixes
num bailado inacabado.

Os caracóis de sons completam-se em cascatas de harmonia
onde se mergulha num êxtase quase profético, quase celestial.
A limitação humana agride esta ânsia corrosiva de libertar esta
torrente de emoções, tornando agrestes as palavras.

Cai um pingo em cada nota deste vento, deixando 
de ser som, para ser estrela musical, duplicando-se 
na sonoridade que lateja insistente,
nas também cordas do coração. 

Quedo-me absorta numa quietude branca.


Manuela Barroso-" Luminescências"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Não te peço


      
 Não te peço que me escutes. A tua voz está
na música que abriga a simetria do infinito.
Explica-me, amado, o segredo da harmonia
que se adentra no coração destes sons eflúvios 
que levam as penas da alma e abrem o sorriso
das pupilas, num alerta que se rende ao encanto
deste voo onde se reverencia  a ave que se esconde
dentro de cada célula.
Um voo que se eleva para além da física dos sons
e semeia silêncios de lagos de longas horas.

Nada entendo, senão o êxtase de te ouvir
no compasso flutuante das flautas e violinos
que me prendem a um espelho  que me ofusca,
me apaga.

Basta - me o mistério deste grito interior,
num misto de cumplicidade e alegria,
dor e saudade 
que se exaltam neste incêndio de  magia
como se não fora realidade.

Manuela Barroso, “Luminescências”





terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Despem-se as árvores



Despem-se as árvores, veste-se o chão,
vestem-se os rios de madrugadas.
Despe-se o dia de tantas aves,
veste-se a noite de sombras caladas.

De alegrias te vestes, sorrisos mansos,
olhos de sal, de tantas  gotas,
as mãos se abrindo em amor e remanso.

Veste-se a boca de tanta ofensa 
monólogos longos em sobressalto
nos gritos que ditam sua sentença.

Vestem-se os ouvidos de tanta injúria
palavras loucas, voz sem espaço
no cristal que fere com a maior fúria.

Veste-se o sol de alegria,
e as madrugadas de fresco orvalho,
veste-se de penumbras e sombras o dia-a-dia
Assim é a vida: uma manta de retalhos.

Manuela Barroso


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Cai Neve



Cai neve!
não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

Manuela Barroso, in " Inquietudes"  Edium Editores


domingo, 8 de dezembro de 2019

Ouve, não te ouço



Ouve, não te ouço.
A vidraça que me cerca esconde a voz cadenciada
das ondas desgrenhadas, penteando-se nos rochedos
em cabelos desfiados, enfeitados de búzios numa sedução
feiticeira .
Um fio longínquo define os limites deste espelho inacabado,
Sem os traços do teu rosto.
Procuro no sargaço as avencas da praia, nos gritos de fome
do verde.
No bosque das ondas, levantam-se árvores de espuma nos
uivos dos canais de vento. O murmúrio longínquo desta agitação
tão inquieta ,estremece o canavial do pensamento numa confusa
maré cheia. 

Quero o ciciar das agulhas nas dunas e aí fazer o meu ninho
no silêncio morno da areia.
E florescerão das brancas plantas dos corais,
a sede do beijo na lentidão do adeus,
no longo abraço do cais.

Manuela Barroso