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sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Cinco Lágrimas por Alepo"




 Todo o produto deste livro é entregue à Dra Madalena Marçal Grilo, Presidente da Unicef  a favor das crianças de Alepo. E SÓ. Quem estiver interessado em obter o livro deixem o pedido nos comentários , por favor


CINCO LÁGRIMAS POR ALEPO


A sombra inclina-se sobre ti, Alepo.
A noite é o teu véu.
O azul que cobria a tua beleza é o fumo do fogo
com que cada dia celebram a tua morte.
O verde e as flores dos teus jardins
sucumbiram há muito amortalhando a tua sorte.
Não te deixes morrer, Alepo.
Segura os escombros que ainda sobram
e esconde entre as frestas as crianças órfãs,
que deambulando, já nem choram.
A poeira secou-lhes os olhos e dentro de cada lágrima
o medo mirrou de tanta crueldade.
Nos umbrais desfigurados das tuas ruínas
afaga as mães que se arrastam com fome de paz e pão,
pregando os olhos moribundos nas sirenes
que se misturam com o assobio dos canhões.
Atravessas o meu silêncio como um sismo enraivecido
transformando o coração num vulcão,
lava tórrida que chora em gritos de indignação.
Choro por ti, mártir Alepo.
O teu coração já não bate porque to arrancam a toda a hora,
em cada filho, na combustão das valas, onde agora mora.
Já não te pertence o teu sol soalheiro.
Anoitecem-te com o fumo ácido dos morteiros.
Gota a gota te mirram as crianças que em ti cresciam
e que agora atravessam a poeira dos escombros
outrora parte do colo onde adormeciam.
No desnorte do teu horizonte se ergue o teu nome,
escrito com teu sangue, algures no monte.
Na Abóbada que te cobre acolhe-se a Alma de que és parte.
Na potência dos fortes, querem-te sumindo.
Resiste, Alepo.
Só a putrefacção serve aos abutres famintos.

Manuela Barroso, 2017




domingo, 15 de janeiro de 2017

Manhã


Acordou a manhã com os recortes distantes
do cinzel dos abetos.
nem um cão vadio mastigava o orvalho,
nem o cheiro do pólen ruminava as sombras escondidas
nas portas da aurora
mas tudo se calava num mutismo vagabundo,
num amarelo corroído pelo tempo.

o vento permanecia enjaulado
em grades sinistras
em ausências indecisas.
os ecos persistentes da manhã 
insistiam acordar a alegria que longa no vale ,

ainda dormia

Manuela Barroso, Eu Poético Vll


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cai Neve

 imagem da net
Cai neve!
não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é  cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

  Manuela Barroso, in  "Eu Poético III"




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Natal-2016





Hoje a saudade bateu à minha porta.
Peguei na criança que eu fui e embalei-a no pensamento das minhas memórias repletas de recordações...
...Eram dias frios e húmidos nas terras do Gerês.
A noite era o breu que cobria a aldeia entrecortada de pinheiros e eucaliptos.
O peito enchia-se do aroma purificador do pinho ácido enquanto a manhã crescia com a azáfama do Natal. Os adultos trocavam conversas sérias, feitas de doces e da ceia.
Mas... e o presépio?
Isso era com as crianças...
Então, descia os caminhos toscos, serpenteados por entre os pinhais que levavam ao rio.
As pedras penduravam-se verdes e viçosas. E eu colhia as pastas de musgo da face dos rochedos, deitados por entre os pinheirais.
...E nascia um presépio com cheiro a pinho, a musgo, a verdade...
Não tinha piscas de luzes  mas um único ponto fixo luminoso, recordando a mensagem de Belém.
...Nasceu um Menino que iria desinquietar os bem instalados na Terra.
...E a mesa crescia com a alegria da festa, e da festa dos sabores.
Meia noite.
O sapato mais bonito para o Menino Jesus! Era uma presença especial, pois claro!..
...E lá ia deitar-me vendo bem a posição do sapato, não fosse Ele esquecer-se...
Adormecia com o sapato e a ansiedade
...E mal nascia o dia, corria para a chaminé, pendurando a surpresa no coração...
...O Menino lembrara-se de..mim e a alegria era do tamanho da felicidade daquele instante!..



Hoje também recebo presentes...
...Mas não ponho o sapatinho!..
Hoje também ofereço presentes...
...Mas não são para pôr no sapatinho... mas para o " pinheirinho" entupido de embrulhos e laços pretenciosos...
...E parece que a festa começa aqui...com as crianças histéricas a rasgar papéis e laços ...continuando...a abrir presentes agora já entediadas...acabando por lançar neles um olhar absorto, mudo, fundo!

Perco-me em mim. Agora, não na saudade, mas nas perguntas que borbulham na alma como lava num vulcão!..
...E as respostas saem luminosas e quentes...
...Ora me queimam, inquietando-me...
...Ora me inquetam, queimando-me ainda mais!
...Ah! O meu Natal
...O meu sapatinho
...O meu Menino Jesus!
...
(reeditado)

FELIZ NATAL PARA TODOS!

Manuela Barroso



Nasceu um Menino que iria desinquietar os bem instalados na Terra.



sábado, 5 de novembro de 2016

Quase

 Vladimir Kush
Quase dia.

O jardim anoiteceu e com ele as gotas
nas nervuras dos olhos.
Ilhas de bancos numa solidão invisível.

Pousam sombras
nas asas nocturnas de melros amarelos.
Uma seda de magnólia tardia
voa
perde-se
tece-se em arabescos
fenece.

No ventre das tábuas solitárias
sentam-se memórias
no musgo abandonado do silêncio.


Manuela Barroso