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quarta-feira, 2 de março de 2011

FOLHAS SECAS

Uma tarde quase primaveril.
Pequenos nadas que se tecem no pensamento, que fazem parte da rotina do tempo, das estações que vêm, que vão...
Os raios de sol caíam luminosos nos braços das árvores, agora desenhados na laje do chão, onde se amontoam folhas secas, mortas, quase desfeitas...
...Era um ritual pachorrento, cuidar da folhagem que ia caindo... caindo a cada sopro de vida no vento...
...E a folha caía, caía...
...mas a folha caiu... caiu e foi apodrecendo num grosso tapete uniforme e quanto mais o tempo corria...o tapete ia reduzindo o seu corpo, entregando-se ao chão, à terra...
...E as folhas secas e hirtas do carvalho, mirravam como os dias pequenos do inverno , não sobrevivendo às chuvas, às geadas...
...Olhei o chão... olhei o céu...olhei a folha...
...Olhei os ramos hirtos numa espécie de clemência à vida...
Fez-se silêncio cá dentro...
...Algo bateu fundo, forte,...uma profunda inquietatação na quietação do meu "eu"...e tudo ficou mais denso, mas mais verosímil com a congruência da Vida...
"Tu és como a folha...És um rebento que cresce, onde pousam as aves, embelezas os jardins e os bosques com o charme da tua cor, com a majestade da tua essência...E vives e és feliz como os pássaros que abrigas...E és útil com a tua sombra...
Mas , oh impermanência do tempo...um dia cais como a folha seca ...mirrarás sem força, sem vida como a folha outrora verde e viçosa !...E o espaço que ocupavas antes...vai crescendo à medida que vais perecendo...até ficares em nada..."
Os olhos ergueram-se numa não aceitação, deste pensamento como se esperasse outro reduto onde me pudesse refugiar...
E senti que numa hipotética semelhança com a folha... enquanto massa aparentemente "inerte"(...) eu era...sou uma não-folha....
...Eu penso que penso...eu não sei se ela pensou...
Eu penso que estive enquanto estou...e penso que um dia não estarei mas deixarei a minha voz no vento em palavras porque deixei a minha voz em símbolos...
E se Além houver folhas também!?
A folha e eu...
A folha e tu...
...Mas a primavera voltará, com novas folhas, novos sorrisos....
...E eu quero o Agora...a primavera do Hoje...
Mas...e a folha que eu sou!?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

SILÊNCIO AINDA

Deixo a luta entre a cor e a música...
...E de novo reina a paz na escuridão. E permaneces lá, aqui, sempre disponível...
...E não ficas cansado por esperar! E esperas sempre tanto!
Deambulo por esta casa interior, procuro-te devagarinho.
Retiro as pedras do meu peito e nelas planto flores.
E fico em mim, agora no prado do coração.Sinto o cheiro das rosas, que vejo espalharem-se na calma que começa a descer em mim.
E a paz começa a florir neste roseiral que quero cultivar!
E sorrio.
Começas a aparecer. Sorris também. Sóbrio e terno como um companheiro. Elegante e sóbrio como um cavalheiro.
E deixo-me cair nos teus braços, cansada de esperar agora por ti!
Eu sim, espero por ti, sabes?
...E fico deliciada coma tua voz!
...Enternecida com o teu amor acolhedor!
Perco-me no tempo que é um dos teus segredos que partilhas comigo.
E ouço-te.
E não me canso de ti. Não me canso contigo!
...porque toda a vida te senti...
Este TU, Silêncio se chama
Ele é a voz de quem ama...
Voz ausente? Presente?
Depende de quem sente...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O INVERNO E EU

Agora é tempo de esquecer flores e amores!
É tempo de hibernar!
Toda a Natureza que nos acaricia e potencializa os nossos sentidos, começa a diluir-se numa cadência calma acompanhando o ritmo do dia e da noite. Vai-se apagando aos poucos, vai adormecendo, entrando numa letargia... fazendo parar a vida!
Tudo pára , tudo se aquieta, se acalma, excepto a força da chuva e dos ventos que tentam sacudir este sono letárgico.
Mas tudo permanece fiel ao ciclo do tempo.
Excepto eu, excepto tu!
Não respeitamos a dolência do estio.
Não apreciamos a melancolia suave e terna do outono.
Não "hibernamos" com a fustiga do inverno inclemente...
Ele está aí, batendo na vidraça, anunciando o seu mau humor. Mas para ti, para mim, tudo funciona como se fosse primavera, uma falsa primavera.
E enfrentamos o tempo com a chuva a chorar em nós e o frio e a neve a encolher-nos o corpo ressequido pelo vento agreste.
E sonhamos.
Enquanto lá fora tudo espera pelo despertar da vida, aqui espero também pelo despertar em mim!..
E espreito a vidraça onde escrevo o meu nome, o teu nome, enquanto os campos, os jardins foram peneirados com flocos de neve!..
Aqui, junto às chamas, as labaredas crepitam com estalidos como foguetes, em sintonia com o meu conforto acompanhado de um chá e scones mornos com compotas do meu quintal...
E o mundo pára. E eu parei!
...E vem a noite. A eterna e terna noite.
Tempo de quietação. Tempo de mim. Tempo de sono e de sonhos!
Desperto.
A mente vagueia e fico atenta às suas viagens deslumbrantes...
...E deixo-me levar nas pálpebras da noite, nas fantasias da noite. É como se neste inverno noctívago me fosse permitido ter asas...
E deixo-me embalar pelos filmes que a imaginação constrói. Observo...
...E enquanto o vento corre, o seu silvo acorda-me deste tipo de pensamento hipnótico...
...E volto ao aqui e ao agora.
A revolta mistura-se com a indignaçaõ. O sonho não passou disso mesmo: pesadelos!
Volta o dia.E não quero mais sonhar. Quero enfrentar o tempo que endureça a minha alma porque a imaginaçaõ é o espaço onde se divertem os pensamentos, criando fantasias...
Resolvi calar o ego...
Dar eco ao que eu sou...
...Ou quero ser...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A NATUREZA TAMBÉM CHORA (Cont.)

As folhas...deixam a descoberto, um corpo agora esguio...

...Cai chuva na Natureza e cai no meu coração...

Lá longe o horizonte fica cada vez mais sombrio.
É a hibernação do sol...
A luz torna-sa cada vez mas mole, cada vez mais difusa com este abat-jour cinzento-prateado.
E o mar arrasta a chuva que se mistura na espuma das ondas que correm para a praia como que a fugir de si próprias...
...E embatem contra as rochas borrifando salpicos desmedidos...
E a chuva cai aos solavancos, ao sabor da fúria do vento.
Observo e tento interpretar o som desta linguagem...
Perco-me em mim...
E a imaginação vagueia e solidifica-se na vidraça.
A chuva começa a pingar no meu pensamento ao ritmo das recordações...
E do céu dos meus olhos caem gotas salgadas como as do mar revolto...
E como num bailado, escorrem do peito da vidraça, as gotas doces da chuva numa harmonia enternecedora...
Por momentos tudo parou em mim.
Naquele instante, o microcosmos que eu sou, sentiu-se fundido com os mistérios insondáveis do Universo!
...E enquanto a vidraça chorava, acordei do meu torpor, aconcheguei-me em mim, saboreando o aconchego do meu mundo.
Na impotência de acalmar a Natureza, deu-me o Universo a capacidade de contornar os ventos da alma, transformando-os em brisa morna em noites tropicais!
E volto a encontrar-me!













quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CHORA A NATUREZA...

...E a espuma deita-se no colo do mar!
O céu carregava um fardo imenso de nuvens cinzentas formadas por castelos de algodão arrastados pelo ar revolto.
O vento assobiava num silvo contínuo chamando pelas forças que alimentavam também as marés.
As árvores sacudidas pela ventania, ficavam cada vez mais nuas, descarnadas.
As folhas que antes as enfeitavam, deixavam a descoberto um corpo agora esguio.
A roupagem de outrora, dava agora lugar a camadas sucessivas de chuva que escorria contínua nos esqueletos arbóreos. E elas sempre lá, sempre firmes, sem hostilidades.
Acatam o tempo e os tempos! Lições de vida...
...E as folhas despedem-se num último adeus ao laço que as prendia...
...E rolam pelo chão e voam pelos ares à mercê da vontade do vento. O chão já não é tapete de folhas. Agora é tapete de lama.
...Enquanto na terra tudo se transforma, no oceano tudo se agita, numa espécie de revolta...pelos fios da chuva!
...E o vento vai-se encarregando de trazer nas asas, as nuvens cinzentas, pesadas, que vão de encontro à terra, precipitando-se em pingas cada vez mais grossas, cada vez mais atrevidas, cada vez mais azedas...
...E magoam as poucas flores outonais acostumadas aos beijos mansos do outono leve, calmo...
...E ficam amuadas por tão pouca delicadeza, tombando sobre si mesmas...(continua)
...