SEGUIDORES

domingo, 25 de abril de 2021

Ainda Cogito

 



 

Ainda cogito no esconderijo desta hibernação.

O som da flauta acorda o meu torpor.

Os galhos já se desprendem bebés em folhas tenras 

e inocentes, dos ventos e beijos ardentes 

da canícula do sol, num doce  espreguiçar.

Os aromas contaminam a pele

e arrepiam todos os sentidos.

Ainda breves flores despontam do musgo

e os girinos passeiam por entre os limos flutuantes.

 

Que me banhem todas as estrelas na noite que se aproxima.

Que me dispa de tédio as línguas de sol

porque necessito de gritar 

que a alegria é o mastro dos meus dias.

 

Que me beije a chuva, muita chuva.

Quero navegar nos lagos largos da abundância

onde a vida se incendeia.

 

Hoje quero ser a rã que se espreguiça livre

por entre as flores orvalhadas da manhã,

colhendo campestres inocências.

 

Já não tenho tempo para perder,

nem paciência.



Manuela Barroso, "Luminescências"-2019

 

 

domingo, 11 de abril de 2021

Fizeste-me

 



Fizeste-me cântico em versos de vidro
na imensidão  do cosmos onde fulgura 
toda a exatidão do belo.
Tudo parece imutável
na plenitude serena dos astros
e na ausência visível  do turbilhão
efervescente dos magmas.
Mas
tudo é um poema em incandescência.
 
Deixa-me que me transporte para a
serenidade inalterável da luz das memórias
onde me esperará uma sinfonia de estrelas
na imaterialidade dos Tempos.

 

Manuela Barroso


domingo, 21 de março de 2021

Como te ouço

 

 António B. Coelho


E como eu te ouço nas cordas longínquas
das violetas caladas.
Irrompem dos diques da memória,
as recordações que não tenho de ti.
Sinto a saudade esvaindo no céu das madrugadas
mergulhando no belo indizível
das auroras boreais.
 
Como elas, a impermanência deste olhar
que se esfuma com o tempo  em insónias fatais.


Manuela Barroso
 


sexta-feira, 12 de março de 2021

Vale Azul

  

 
Na planície verde dos sonhos,
as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos.
 
É a única voz que perfuma o pão
desta fome de silêncio.
 
Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas.
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem que salta da pele plana
e quieta dos charcos.
Sigo o vaguear inquieto das libélulas
arrastando consigo o sono dos nenúfares.
 
Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos
dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs
quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.
 
Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas
estendidas atrás dos montes.

 

Manuela Barroso

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

A Ti, Mulher, este meu grito

 



Vou descendo com o sol ansiando a paz do fim do dia.
Uma espécie de embriaguez entorpece o raciocínio na fuga vertiginosa da tarde com os seus olhos  mornos que se vão pintando no crepúsculo.
Tudo se encerra com a vinda da noite: Lar-Colmeia- Paz!
 Não é luz, não é sol nem é a vida que enche o templo de algumas "abelhas" carregando colmeias de mel.
Não!
São colmeias vazias ou cheias de favos de amargo e falso mel...
 
E a minha alma vagueia, inquieta, na leitura destes sorrisos azedos, sufocando os olhos de mel no vazio do pólen que agora se diluiu nos vapores do vento.
E ela sorri, veste a mesa de suor, despe a cama de lágrimas...
Já não é ela...
...É uma coisa de gente, gente que não é coisa, gente que já foi gente...
Hoje é ferida que ninguém vê e em breve uma escara ferrada no corpo que já não dói porque nem sente.
Já não vive...
...É uma anta ambulatória com sorrisos amargos...
O doce sorriso esconde-se na chaga que esconde na culpa dessa maldição que se esconde e aninha na colmeia podre com mel suicida.
 
Mas o sorriso vai rolando pela face, misturando-se com as lágrimas no compasso desta morte lenta.
...E já não é coisa nem é gente.
Já nem sente!
É fantasma de mulher- moribunda na flor desflorida do seu martírio.
...E o sorriso azedo rasgou-lhe as pétalas, sugou-lhe o perfume para verter o ácido neste mel sádico,
na pele macia e quente
de mulher que já não é gente!
 
Nesta raiva com que fico.
Neste amor que te dedico.
A ti, mulher, este meu grito.
 
Manuela Barroso