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domingo, 11 de março de 2018

Invernia






 christine schloe


Chovia a noite na transparência
serena e doce do olhar do orvalho
confidenciando com a melodia  acre
de gotas sonoras.
Na cortina da bruma, ainda mais baça,
bailava o mistério  da invernia sedenta
de fome na procura insaciável da seiva
das palavras.
Nas mãos das árvores desprendem-se 
ocasos nascidos do ventre da terra.

O silêncio nasce no espaço da incerteza
do destino da manhã.
Iluminam-se corpos na caverna da noite
com vazios de ventos, de luzes difusas, 
prolongando-se em nevoeiros inquietos.

E os segredos noturnos dormem nas veias 
agitadas das árvores e no coração das pedras,
abrigadas na glorificação  da beleza
de sombras inquietas.

Manuela Barroso, in “Laços”- Dueto -




domingo, 4 de março de 2018

Quando

 Salvador Dali

Quando eu for um sonho de flores transparentes,
no cais da minha madrugada, arrasta-me na sombra
das tuas águas para um porto florido, no infinito das
minhas noites.
Quero ser o vitral que emoldura os meus tédios,
na verticalidade das suas misteriosas cores,
transportando o seu estranho vulto, numa consciência
ausente onde murcham os jardins, como uma floresta
de silêncios.
E abrir-se-á uma porta por onde entram brisas
que se escondem de mim, perfumando o salão da
minha alma, como grinaldas de primavera, entoando
alegrias orvalhadas, num cortejo de violinos, tecido
pelos teus dedos.
E o teu vulto circunspeto, distante, amorfo e frio,
permanece imóvel, em lábios húmidos que procuram
a sedução no silêncio das horas da tarde, que vão
descendo em cortejo luminoso, em inquietantes
intensidades de entardeceres.
Serei para sempre o pórtico de uma metáfora,
escrita no inconsciente de uma alma sedenta de
sorrisos de estrelas, em cortinados de tédios.
No claustro da minha noite, assoma o nevoeiro
 incógnito, atravessando o cetim das tardes,
com sabor a noite, na saudade do infinito.


Manuela Barroso, “Inquietudes”- Edium Editores, 2014


                                                              
                                                                    














sábado, 10 de fevereiro de 2018

AMA -TE-Video



                                                                                  (Ver em tela cheia)

Não amamos o outro
se não nos amarmos a nós.
Esqueçamos indignações
desfaçamos  nós
e que seja o Amor
a dar lições!

UM BEIJO!

Manuela Barroso

"Ama-te" -reeditado

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Acordo...

Acordo
Recordo
Concordo
Com meu despertar, enfim…
Do cacto a flor
Nascida entre escolhos
Brotando de abrolhos!

Num breve deslumbre
Revejo-me assim:
Mistério
Laço
Eco de vida
Odor de jasmim,
Algures no espaço,
Que pernoita em mim!

Paro
Reparo
Enrolo o pensamento
Deambulando pelas memórias
E reflicto por um momento:
Ah! Sou Terra
Sou Ar
Sou Água
Sou Fogo
Sou Tudo
Sou Mundo
Sou de Tudo feita…
Mas nada no fundo!


Manuela Barroso, in “Inquietudes”, Versbrava, 2012

domingo, 14 de janeiro de 2018

Na Planície



 Na planície verde dos sonhos,
as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos.

É a única voz que perfuma o pão desta fome de silêncio

Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas.
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem
que salta da pele plana
e quieta dos charcos.
Sigo o vaguear inquieto das libélulas
arrastando consigo
o sono dos nenúfares

Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.

Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas.


Manuela Barroso, "Eu Poético"