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quarta-feira, 12 de março de 2014

Não repouses





Não repouses no meu leito de outono
As folhas ainda não teceram o colchão,
o orvalho não pintou as almofadas
com as cores das alvoradas

Deixa  a lua viajar
com o tempo que me anoitece
entre fios leitosos de luar
A vida é já aqui
Quero vivê-la com os sonhos que teci,
passear os olhos pelos vincos do tempo
ausente das orquídeas formosas
e esquecer o murmúrio na pele lavada de rosas
Quero afagar o bordado no linho
que cresce nos campos com cores de menino,
nos baloiços de água em searas azuis.
Aqui entrego este corpo que guarda e envolve
este eu que sou e não sou.

Quero o murmúrio do colo do rio
Fala-me das cantigas que ouvia no Estio
Quero acompanhar o pólen das flores
em  laranjeiras acesas
com a dança das abelhas
Deixa que o fado cante a alegria deste exílio
que o tempo traçou na falésia da vida
Só há fado se o destino o marcou

Eu quero o sonho na flauta de um silêncio
quero o silêncio no esplendor das marés
quero as marés na galáxia da vida
nas nuvens em montanhas coloridas
quero o fluido silencioso do mel
nesta viagem

Deixo a amargura e o fel
numa outra carruagem


Manuela Barroso, in "Eu Poético VI"
Imagem :An -He
                                                        

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ainda permanece ali



Ainda permanece ali aquele corpo desnudado
no abandono do frio
a seiva foi morrer nas entranhas da terra e deixou-te
numa aparente inércia
sem portas
para me acolher quando eu regressar
não choras porque as nuvens choram por ti
nas lágrimas doces da chuva
não danças com o vento
que te despiu
despojando-te dos brincos da tua graça
mas
deixas tecer-te de bordados de musgo e líquenes
que te abraçam
nos anoiteceres solitários
não soluças
porque é desmedida a aceitação do teu destino
pregada ao chão
és a estátua viva
onde nada interrompe o sorriso
que cinzela a tua escultura
e não perdes a memória dos teus anéis
que se escrevem
no teu corpo
mais belo e assombroso
em cada relâmpago de tempo
és o desafio
na demolição da idade
quanto mais te abandonas
e moldas
aos caprichos da Natureza
mais confundes a noção de eternidade

Manuela Barroso
Imagens: Net



 pregada ao chão
 és a estátua viva
 onde nada interrompe o sorriso
 que cinzela a tua escultura
a seiva foi morrer nas entranhas da terra e deixou-te
numa aparente inércia
sem portas
para me acolher quando eu regressar
                                                                  

quanto mais te abandonas
e moldas
aos caprichos da Natureza
mais confundes a noção de eternidade

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Silêncio...



O silêncio escorre pelos ramos nostálgicos da bruma
Bebo este nevoeiro, perfuro-o com os meus olhos e
não te vejo nas cordas da luz, só no painel do meu
pensamento
Foges do sol das minhas mãos procurando a sombra
dos dedos
Hoje não tenho pressa
Apetece-me a tontura da luz ao bolores húmidos do
rosto das árvores
Deixa que os meus olhos pasmem no repouso cin-
zento da hibernação
Deixa que as palavras sejam voz muda de gestos
que sufocam de resignação
Hoje não quero o lume dos corpos incandescentes
perturbando frutos da memória
Deixa-me abandonar o deserto da saudade e viver
o sonho que ainda lateja neste arco-íris  morno, lento
Hoje não tenho pressa
Apetece-me caminhar na pele húmida das lajes
e pisar o vendaval verde da espuma do musgo
Apetece-me ser longa e longe
Apetece-me viajar na pele do meu eu porque ainda
não sei se me conheço
Não fujo de ti. Espero, porque não tenho pressa.
Ainda quero ver o teu rosto na pele da água e
penetrar no insondável do teu sorriso 
Deixa que eu  mergulhe no poente da tua fonte
Hoje
apetece-me interromper o voo e pousar de novo
nas asas dos teus braços
Apetece-me
Hoje

Manuela Barroso, in " Eu Poético VI"
Imagem: net

                                                                               
          

sábado, 12 de outubro de 2013

Não sei




Não sei onde te escondes, amado!
Os caminhos são íngremes
Em cada escarpa vejo esculpido o teu rosto
cada pedra é a imagem da tua presença

 O musgo é a flor calada que se esconde
no coração da terra e fala aos olhos
que te querem escutar
O aroma dos bosques são as mãos
que  se enlaçam com os ramos da bruma
passeando  na música das ondas
zumbindo na folhagem

 Aqui  será o berço onde o mosto
será  também seiva
com que escrevo
os traços do teu rosto

(excerto)

Manuela Barroso in "Eu Poético VI"
Imagem: net


sábado, 28 de setembro de 2013

Bouquet

                                                          O orvalho vai caindo
                                                                      na solidão da flor
                                                                               que olha para mim sorrindo:
                                                                                       "não me cortes por favor"!
 
 
   

 ..."Nem tudo o que o convida
a satisfazer seus desejos
é conforme
à Natureza!"

 
São rosas de fim de maio
decepadas
do jardim
órfãs da terra viúva
num sussurro permanente
olhos ausentes
de mim.

Devolvo com outro olhar
longínquo, perscrutador
o porquê daqueles
olhos lisos, longos
que caem daquela flor

O egoísmo do Homem
-respondem elas em silêncio-
retiram o meu sossego
satisfazendo seus olhos
deixando os meus
quase cegos

Quando o Homem acreditar
que no auge
da sua beleza
as rosas também são vida
ficará a meditar:
Nem tudo o que o convida
a satisfazer seus desejos
é conforme
à Natureza!


Manuela Barroso, in V Antologia de Poetas Lusófonos,2013
Meu Jardim.2013