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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Andorinhas



Pausa. Férias. Deixo-vos o meu abraço.
Os posts, agendados, saírão normalmente.



   As mãos passeiam de mãos dadas com os meus olhos.
Hoje não é a noite confidente e companheira que procuram.
A tarde desce com uma lentidão aborrecida mas com a alegria do sol que ainda vai alto.
É uma despedida doce num beijo suave e lento, numa carícia preguiçosa. Sinto falta de um chilreio para acordar a tarde que adormece antes do tempo... Enquanto Vénus tarda, pelo menos viajo com  as estrelas negras das asas das andorinhas cortando a monotonia.
A primavera desenhou-se em mim.
Mas voou.
Ela e as andorinhas.
Senti esta orfandade que o bulício da cidade tenta fazer esquecer.
O vento de junho varre as pétalas das flores que se colam ao chão num último adeus.
O calor que ajuda a engravidar as espigas, casa com a aragem fresca e inoportuna deste estio.
Os beirais ficaram vazios, na solidão do crepúsculo.  
A vida vai definhando à medida dos prazeres metálicos humanos.
E a casa das andorinhas não é feita de metal mas de melodias atravessando liberdade e alegrias.
E na liberdade que lhes assiste decidiram outro rumo em busca de felicidade maior em novas paragens.
Olho os beirais e em vez de bicos de andorinhas preencho-os com  
a saudade, no odor das minhas recordações.


manuela barroso
Pintura: G.F. Harris

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Manhãs - Simplicidades


Levantei-me devagarinho como o dia.
A manhã cheira a frescura exalada pelas árvores acabadas de acordar.
Respirei-as numa partilha de fascínio pelo verde incandescente em troca do carinho que lhes dedico tratando dos seus braços no repouso do inverno.
Olho a espuma da relva que me conhece pelos afagos dos meus pés, das minhas mãos nas tarde cálidas de verão.
Olho as flores.
Aproximo-me para as ver de perto, tocar-lhe com os dedos e os lábios num beijo doce de ternura e agradecimento à mais bela criação vegetal.
Tento penetrar no tecido das pétalas, nas veias do seu sangue, procurando entender os pigmentos na seda que as tornam inacessivelmente belas.
Num confronto curioso debruço-me...
...Colho uma flor miosótis e demoro-me no azul humilde e pequeno da sua corola. Quanto mais simples, mais terna na sua enorme pequenez aparentemente frágil, mas igualmente completa, bela!
Neste passeio de ausências temporais ouço sombras que se vão aproximando com os primeiros raios.
Senti-me acompanhada por coloridos de insetos, abelhas e borboletas de várias cores que sobrevoavam este pequeno éden.
Agora focalizava-me nestas asas como pétalas frágeis, numa fabulosa geometria fibonástica.
Era um animal em flor, uma flor animal.
No meu silêncio, as minhas interrogações converteram-se num monólogo onde o meu eu se debatia com a origem do Belo...
-A Natureza – respondi-me.
-E a Natureza? – perguntei-me.
Insatisfeita, rodopiei com a calma...
Nada do que existe, existe por si.. Pensei...
-O bosão de Higgs – conclui – partícula de Deus...
-Mas porquê partícula de Deus...se Ele não existir!?
E como surge uma partícula do Nada?
Filosoficamente falando, não posso negar o que não existe...
Porquê Deus e não outra Coisa?..
A Arquitetura fantástica da Vida e do Universo, pressupõe uma Inteligência que a projeta.
Seja que Inteligência for...
..Seja que Energia for...
Neste debate intenso, imenso...
...deixei para traz borboletas e flores neste bailado da manhã, enquanto o meu Eu dançava com o bosão de Higgs e a partícula de Deus...
E descansei em mim...
...e na Partícula da Paz!

Manuela Barroso
Pintura: Rosanne Pomerleau

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Simplicidades de junho


Fecho os olhos e junho faz-se paisagem no sótão das minhas recordações.
Eram manhãs mornas que batiam na vidraça da pele.
Os cachos das uvas, ainda bebés, começavam a ficar suspensos nas latadas altas do Minho por entre as largas parras pintadas de calda bordalesa que pingava no roseiral em gotas de turquesa.
Conforme o sol se erguia, incidiam os reflexos nas ervas tenras e nos olhos dos morangos que salpicavam os valados num desafio silencioso com a explosão de cores das flores silvestres.
A tarde cálida era acordada pelo afago de uma brisa que se espraiava nos campos de centeio, provocando uma ondulação rítmica, num bailado em que cada espiga se balanceava com o seu par.
Ao longe, um som monocórdico, alegre, contínuo, acordava os salgueirais que bordejavam a uniformidade desta seara, convidando à calma...
... E perdia o olhar naquele  longo bailado silencioso numa coreografia bela, uniforme!
O cantar dos grilos despertava o mistério, o encanto das coisas simples da natureza, da vida...
Pé ante pé, atrevi-me a cortar a densidade das finas hastes de centeio, puxava uma espiga aqui e ali, saboreava a seiva adocicada e fazia o meu brinquedo numa mini flauta. E soprando, fazia ecoar o som pela seara deste celeiro verde!
Coisas simples de criança, na era dos brinquedos feitos com  a natureza!
Numa pequena clareira, num mini paul, o cantar tornava-se mais intenso e o sol incidia naquela casa onde a vida se resumia ao cântico das asas tremeluzentes, como o tanger de cordas numa orquestra de violinos,  só com tempo necessário para  saborear a serradela ali mesmo na horta da casa ...
Ajoelhei na relva viçosa e verde.
Bati à porta do nosso barítono.
Apareceu inquieto, irritado...
Afaguei-o, transportando-o na concha das minhas mãos!
E levava agora comigo toda a sinfonia da tarde...
Na boca, enfiados na haste do centeio, um rosário de morangos cujo perfume era um delírio para os sentidos!
Nos olhos, o bailado daquela seara que ainda hoje vejo no palco das minhas saudades!
Nos ouvidos, o som lânguido na distância que não se deixa interromper!
E é junho o mês eleito para ouvir a minha ópera no palco aberto da mãe Natureza!

Manuela Barroso



sexta-feira, 1 de junho de 2012

O cisne



O cisne vestido de branco
De asas soltas
Vagueando pela água fora
Olha de cima, altivo e sereno
Como um navio que na água mora.

E esta presença quase principesca
Namorando as pessoas que o apreciam
Faz-me lembrar que na alvura das penas
Se esconde o orgulho das almas pequenas...

E o cisne de neve
Revolveu-me o pensamento:
De que serve o branco da candura
Quando dentro da alma perdura
O orgulho e altivez segura
Que ao cisne serve de alimento?


Manuela Barroso, in "Inquietudes"
Imagem : Net

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Maio, rosas minhas!














 Para ti
para mim
o meu jardim.
Neste maio
Assim!

Sobe o dia, para num êxtase meditativo, escutar
a voz vibrante da música das rosas de maio,
ressuscitadas em campos floridos e coroados
de saudades.
Sublime perfeição escrita nas pétalas da tua casa
onde emudeço o meu olhar, contornando pirâmides
em voos silenciosos.
Nasço com as manhãs presas ao capricho
do desvelo com que te revelas em cada botão virgem,
que guarda o segredo do deslumbramento,
numa humilde aguarela de revelação divina.
Os olhos emudecem quando o céu limpo
se alia à inefável voz das cores dos teus
vestidos de seda diáfana, desenrolando-se
em caprichosas espirais geométricas.
…..
E no prado do meu silêncio pinto o capricho das
tuas formas, beijando impotente a seda que não
consigo completar na aguarela do rosto dos
meus olhos.
Guardo a memória das metáforas indescritíveis
nas curvas labirínticas deste Eu intranquilo na
incapacidade da dor intransponível de delinear
a perfeição da tua imagem onde leio nevoeiros
de Infinito.
No deserto do mundo, rosa, o Universo escreveu
o Seu nome nas asas das tuas pétalas!

Manuela Barroso
Pintura: Universo na Natureza