As nuvens carregavam o céu com um fardo cinzento. A claridade metálica penetrava nos olhos como frios cravos de aço. Árvores e folhas ainda com o brilho atrasado no tempo, refletiam a sua insatisfação pela ausência de água. Nem brisa nem sol. Apenas o ar que parecia ter morrido ele também. Os olhos carregavam este torpor numa busca inquietante de movimentos só pulsante em voos furtivos e incertos de pardais. Neste mutismo do tempo, emudeci com ele, esperando que ele falasse. E nascia o diálogo entre o Eu e o tempo, o Eu e a cor, o Eu e as nuvens. E senti que esta espécie de adormecimento do tempo, desperta mais a presença de nós, aquietando-nos nas contínuas viagens da imaginação, trazendo uma espécie de equilíbrio entre os dois mundos. Uma aragem tímida começava a levantar o pólen..... As nuvens faziam clareiras e moldavam-se lentamente em montes de espuma com contornos indefinidos. Olhava, acompanhando a viagem aborrecida destes borrões agora brancos e densos no agora azul penetrante do céu. O sol rareava por entre filtros de papiro numa timidez enternecedora espreitando as palavras que se soltavam dos olhos quietos, pousavam nos dedos, aumentando cada vez mais a minha quietude. Sorri para mim. Olhei para os penachos vaidosos de papiro por onde entrevia o preguiçoso vaguear das nuvens. E perdi-me nesta aguarela azul com pinceladas brancas como caricaturas em movimento, como se cada pedaço que se ia destacando tivesse um destino. Adivinhava em cada um, figuras imprecisas. E revia- me em brincadeiras de criança, adivinhando fantasias. Hoje o inconsciente ao trazer-me de volta as memórias, emprestou-me outros olhos... Este, é um museu vivo itinerante, com quadros que nunca se repetem, enfeitam sorrisos e ainda nos fazem sonhar... ...gratuitamente nesta ante câmara do sonho onde só entra a felicidade dos olhos simples para poderem deslumbrar-se com tão grandes simplicidades. Assim. Só.
O sol, em sopros mornos e ainda sonhando as cores, vai contornando os ramos num murmúrio tranquilo, nas páginas de folhas placentárias. penetro na sombra da tarde que vai ficando adulta e no rosto do jardim que dorme no aconchego dos meus olhos. na clareira das mãos sinto as glicínias escorrendo por entre os muros dos meus dedos. e a luz passeia-se nas artérias luminosas do meu corpo como musas magnéticas banhando-se em constelações de violetas. e neste candelabro profuso e brilhante acendo música de camélias ainda quentes, na toalha azul bordada de nuvens de madrepérola e estrelas ausentes. e a primavera abre lírios de silêncio que me atravessam adolescências numa canção de saudade e de inocências.
no segredo seco das nuvens. Outrora, foi dia onde os sonhos se arrastavam vestidos de veludos e sedas num corpo em oásis de lâmpadas azuis e ninhos de primavera, deitados nas madrugadas. A poeira da tarde sobe o chão em agonias ondulantes, vagabundeando por entre as gargalhadas da brisa, atravessando interstícios de silêncio. Nas nuvens passeiam os aromas quentes das searas maduras, devoradas sem angústia pela faminta luz do sol. Os olhos percorrem este a ora silente ora inquieto, que paira agora no tempo, sacudindo harpas de saudades, num vendaval de cores crepusculares que tocam frementes o horizonte. E uma cascata de música varre a pele silenciosa, oferecendo sorrisos, estilhaçando pontes de solidão, nas flores das horas cansadas. ..........................
As horas caíam silenciosas no tempo. Tempo? Regredi. Vi uma criança feliz, adolescente pacata, dócil. Um Eu que se foi apagando com as primaveras e o verãos. Sobravam traços com linhas indeléveis, testemunhos de uma presença Aqui, no Agora. E este Eu Físico mergulhou no Agora onde navegam as emoções. Ah, que margens verdes e quietas onde o céu se espraia neste espelho calmo, neste porto seguro!.. É aqui onde me encontro me deito e medito... É aqui onde os meus passos se acercam da minha casa... É aqui onde me refugio das indecisões que me ondulam no mar turbulento de marés altas, das menos verdades que me abalam. E escuto-me... ...assim em silêncio, na solidão do meu lago. ...E as águas não falam porque não correm. As palavras ficam prisioneiras nas margens como diques, sustentando a respiração do pensamento... ...E começam a tremer as águas com as incertezas dos ventos que rasam os salgueirais. E como uma casca de noz, este Eu Emocional balança, inseguro, temendo perder o passeio no remanso da água azul... E os ventos comprimem o campo emocional onde o meu Eu se refugia. A insegurança nasce num olhar. A incerteza aperta no peito. A ansiedade incapacita este fluir manso de ideias e ideais. E deixo-me arrastar na corrente dos ventos numa cascata disforme. Nesta incapacidade de luta e fuga, eis que outro Eu vive em mim e me suporta e me protege e me descansa: A Essência de mim! E aqui me repouso! E adormeço. E me teço... Sou tecido feito de prazer, dor e amor Sou o tecido feito de pele, de alegria e partilha Sou o tecido feito de sede de ser, e de amar sem medida Sou o tecido da fome,feito de dádiva e compaixão E sou o tecido do tempo... ...tecido em mim com cheiro a paz e fome de Infinito!
Rasga-se a terra Nascentes pacatas gorgolejam no silêncio incessante da montanha em gestos frenéticos com ímpetos de alegria. Voam gotas verdes na vegetação diamante em reflexos boreais. As mãos palpam cristais líquidos de pedras transparentes caiadas de verde. Na madrugada do sol deslizam silêncios de orvalho em frisos de diamantes redondos. Submergem dos regatos vozes de ervas sorrindo reflexos azuis, numa corrida cristalina e fluida no assombro do sonho, à procura do destino Uma viagem vagabunda selvagem entre virgens florestas e flores numa corrente agora mansa com labaredas de preguiça irrefletida na vertigem e na embriaguez das cores. O caminho perfuma-se de sol e extasia-se em delírios nas asas misteriosas das borboletas. E atravessa o pórtico do assombro num deslumbramento e fascínio na visualização de sedas que vestem pétalas sensuais e sedutoras E nesta incandescência do dia Nasciam nos olhos da nascente Palavras incompletas de poesia.