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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Vindimas - I


Foto de Rui Pires

O tempo ia caindo como pétalas cansadas de flor vazia ...
Abrem-se caminhos solitários nas encostas, sem o sol da primavera que sempre explode em sorrisos e cascatas de cores, desafiando floresceres.
 Mas agora, a vida começa a amarelecer, adormecendo com ela o sol suave e macio dos crepúsculos morrentes das tardes mornas...
E no pensamento desenham-se parras e cachos pendentes com cheiro a mosto e fim de verão...
As vinhas sobem, deixando sacudir seus vestidos já gastos, que envolvem os bagos carnudos, com seu pudor de menina...
Manhã!
Um cheiro a orvalho enche a alma de terra toda. Nas ramadas altas do Minho, antes, só os homens trepavam as altas escadas com cestas de verga
e cujo gancho prendiam nos degraus espaçados, num assalto feito de conversas e sorrisos masculinos, arrancando os cachos sem mimos...
 ....e os bagos caem no chão como lágrimas pretas e lágrimas brancas...
...e o chão semeado de bolas pretas e brancas, esperava carícias de mãos pequeninas...
E da brincadeira a sério passávamos à brincadeira a brincar...com os adultos a tartamudear que “ o trabalho de criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco...” ...e era assim que entrávamos no baile das vindimas, envolvidos nesta festa de Outono.
E bago a bago, colhíamos as lágrimas que também eram sorrisos...
E juntávamos os bagos aos cestos empanturrados de uvas como se cada bago fosse um cacho onde ia um pouco de nós.
Costa acima, os cestos passeavam nos ombros até ao lagar de granito para uma primeira transformação que se repetia durante o dia.
 E o peso não diminuía o sorriso, porque era o peso da alegria que não pesa. Sabiam que dentro em pouco esse néctar seria imprescindível para celebração de festas que uniria pactos e factos até novo Outono.
E as folhas ficavam mais nuas.
 E eu sentia-me mais só.
O céu já não se enfeitava de estrelas pretas...E como que numa saudade que vai morrendo, eram deixadas gaipas (pequeninos cachos) aqui e além para matar saudades dos bagos que púnhamos no regaço, onde como num lançamento de dardos, feitos de alfinetes, eram saboreados só quando pescados pelo anzol da habilidade ou do destino...
Simplicidades de menina...

(continua...)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sons...


As estrelas iam caindo como madrugadas nos teus olhos
que eram agora a planície onde passeava os meus segredos.
Abracei a árvore nos teus braços e deixei-me dançar
ao som da tua música liquefeita na espuma das tuas palavras
que escorregam desejos e beijos semeados de ternura.
O silêncio ouvia a tua voz e roubava a quietude das horas em fios
que teciam os meus dias que perpetuo em mim.
Em devaneios, passeio os ventos da imaginação
tão distante de si mesma nesta rua
tão estranhamente nua,
que abraço a solidão!

                                     Manuela Barroso
                                           
                                                                                                                                           

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Repousando

Minho

É uma luz calma que vai espreitando a terra.
Um vento leste, triste e manso, carrega com ele o ar cansado do verão quente.
Tudo estiola.
O orvalho é bebido pela vida que o rodeia...
...e as folhas ficam encarquilhadas, numa contorção angustiante de sede, de sombra.
Solo ressequido e poeirento nas bermas asfaltadas das estradas.
O caminho alonga-se na medida inversa dos raios solares.
Uma pedra lavrada de musgo seco, lembra que já foi palco de vida...
...fim de estrada, fim de pó.
Nasce um córrego que foge deste talco, descendo uma delicada ravina...
...e a sombra arrasta o verde...
Cheira a água e acontece a profusão de cores, nas flores penduradas, nas ribadas.
Os meus pés soletram as lajes uma a uma, escorregadias, como granito macio, roído pelo tempo.
Os ouvidos questionam um sussurro.
A água vai rebentando das rochas num regato maroto, bordado de flores azuis! São miosótis!
Acompanho este correr cantante da água...
...meia poça, meio lago, num aconchego de margens feitas em açude,  árvores inclinadas, numa saudação à Natureza...
...e mais vida acontece com a água plantada no verde das plantas aquáticas subindo...subindo à procura de luz, nas flores, nos ninhos dos rouxinóis presos na sombra do berço de folhas, nas libelinhas e no coaxar das rãs...
E todos os meus sentidos ficaram presos nesta presa  e na quietude onde tudo aconteceu espontâneamente, exceto eu...
E  o arrepio do vento era agora a brisa morna que acalmava ainda mais a pele das águas que tremiam só  com o esvoaçar das libelinhas, neste espelho onde até o céu se mirava...
O tempo morria, porque nele me perdi...numa imensa meditação...
...e permaneci assim presa, nesta encantadora prisão...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Simplicidades


Um vento mensageiro teimava virar a página do meu best-seller.
Parei.
Como uma objetiva de longo alcance, percorri o olhar do alto do declive, donde saboreava o mar completamente prata, completamente Agosto completamente agora...
Pensei nas coisas boas da vida.
Tempo solto. Tempo livre. Tempo indefinido...
 ...até no canto longo, longo das cigarras, disfarçadas nos troncos secos dos pinheirais...
...e plantei-me na relva verde, enfeitada de fagulha seca... agulhas bordando a castanho a monótona mas calma cama do verde que se espraiava até à vegetação rasteira que corre para o mar, perdendo-se no horizonte baixo dos montes...
Enquanto o vento sorria, fechava os olhos ouvindo a orquestra de cigarras que aumentava o “laissez-passer” com este cantar tão monocordicamente embalador...
E a fagulha seca ia enfeitando o meu corpo, confundindo-o com o chão...
Somos realmente folhas! E eu, parte deste todo que teimo interrogar...
E fugimos aos porquês simples com respostas evasivas, contornando respostas com dúvidas escritas no inconsciente...
E neste estado de quietude e deleite, com os ouvidos pousados na música das cigarras, eis que de repente, como uma batuta de quem rege uma grande orquestra...toda a cigarrada emudeceu!
Emudeci também.
Não compreendi tão repentino silêncio...
E mais uma pergunta sem resposta para tão simples fato, mas talvez complicado argumento...
Para elas!
Tudo ficou parado ,ampliando ainda mais a distância das respostas para factos tão irrelevantes.
Voltei ao meu livro...pensando nas cigarras...
Pausa longa...
Ao longe uma outra orquestra iniciava agora a sua atuação...talvez porque  chegava o momento de ceder o palco a outros músicos...
E eu, no meu palco, continuava com a minha música, deixando-me acariciar pela sombra dos pinheiros que adormecia em mim!
Simplicidades...
     

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Invento-te...



 Invento-te nas manhãs claras
que ainda dormem em sonhos liquefeitos.
 Arredondo os braços
 que procuram as noites
 também inventadas à procura de outro tempo.
O manto da minha pele
 cobre os segredos proibidos de uma casa que não é tua!
E o meu peito é agora um planalto
onde as nascentes secaram
matando de sede todas as flores por nascer...
Não nasceram flores, nasceram cactos,
continentes de água,
 que guardam as flores esquecidas do meu jardim.
E invento-te nos lábios das ondas
que pronunciam o teu nome embrulhado
na espuma branca da lua.
Inventar-te-ei ainda
quando o nevoeiro te esconder
 no regaço da noite onde me deito,
neste vapor de água de que é feito
para te sentir
mesmo sem te ver...

                         Manuela Barroso, " Eu PoéticoIII "