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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Longas Penas

 


    

 
Longas penas atravessam o cálice da tua noite.
Os clarões abrem-se em raios luminosos, indiferentes
a tempestades. Vacilas na fragilidade do teu corpo 
na prisão de devaneios, quimeras. 
 
O teu mundo definha numa poeira constante, 
mas a vida é floresta tua, ardendo em cada instante. 
Intriga-te o baloiço das ideias, não te 
conformas com o barulho das marés.
O silêncio percorre-te as veias 
e a paz está no que pensas que és. 
 
Acomodas-te ao vício do vento que te vende 
o valor do vazio no infinito de ti. 
Mas não ao fogo-fátuo, tragando de uma só vez, 
a vida que carbonizas em vertiginosa rapidez. 
 
És a essência da verdade que se esconde no escuro
e o muro do tempo que se perdeu no futuro. 
 
Te direi que
impávida com o tempo, 
serei a árvore plantada, à tua espera, 
aguardando, paciente, a seiva da alegria 
em cada folha de primavera.
 

 Manuela Barroso, in “Luminescências” , 2019

 

 

 

 

 


sábado, 30 de janeiro de 2021

Com as janelas...

Josef Sudek

 









 




























Com as janelas do teu rosto que atravessa a ponte
dos dias, acordas flores e insectos nas suas metamorfoses.
Jamais entenderás os segredos do sangue que viaja
na pele coberta de tempo. Nem os beijos das abelhas
arrancam murmúrios das pálpebras onde passeiam.
 
O silêncio cobre de contemplação estes olhos coloridos
que se abandonam no céu e as palavras fecham-se no
mutismo contemplativo eternizando a perfeição geométrica
da Criação.
 
Não falam. Gritam no colorido arrepiante das cores.
Ateiam fogo sagrado nos olhos dos insetos sem um
gesto, apenas balouçando-se com a brisa que leva
consigo a chuva de pólen. É este bailado, a comunicação
que se ouve numa imagem inquietante de alegria, uma
 labareda doce na planície da vida.
 
Onde se esconde o mistério que o rosto procura?
Em cada corpo de erva no calor telúrico que arranca a convulsão
de beleza que dorme  nas raízes de cada manhã .
E os olhos fulminam de ansiedade no desalento da ausência
de palavras, presas na retina do pensamento. Soltam-se.
E num voo veloz pelo firmamento, planam este atlântico de
cores escrevendo nas asas este momento.
 

 

      Manuela Barroso, 2014

 



domingo, 17 de janeiro de 2021

Morre-me...


Morre-me cada dia uma flor.
Não sei se a embale nos braços para voltar a adormecer
Ou se a cristalize na alma para não morrer.
Tomo-a na sua delicadeza de vidro
e atravessa-me a fragilidade do corpo que já foi dia.
Só silhuetas apagadas na contraluz.
Tudo anoitece nesta onda aquática
como penumbras à procura de outra  claridade.


Manuela Barroso

 





quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Cai Neve





Cai neve!

não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é  cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

 Manuela Barroso,  "Eu Poético III
"


sábado, 12 de dezembro de 2020

Ainda Ouço

 

 foto minha

 
Quando o sonho se torna um pesadelo, quando as poucas  résteas que sobram, ensombram ainda mais os nossos dias, embarco na imaginação e faço o percurso do"faz de conta"no filme  das minhas recordações.

E...

...ainda ouço os rumores vazios das noites quentes de verão.

Queria volatilizar a saudade das vozes frescas das crianças, na poeira da estrada.

Queria poder esquecer o chiar dos carros de bois naqueles estios dolentes, arrecadando urze, tojo e flores silvestres que se deixavam arrastar pelo suor demolidor de corpos cansados.

Queria voltar à sombra da minha tangerineira com persianas de flores escorrendo pólen, suavizando a alma de perfume, enchendo os olhos de perguntas  que eu guardava na concha das mãos.

Sobram as paredes sujas do tempo, as fontes secas de águas desviadas, o jardim solitário de uma multidão de pétalas, a geometria desfeita dos canteiros que contornavam as minhas rosas.

A sombra persegue-me num espelho de recordações que me vão morrendo, abafando os alicerces da infância.

Já não ouço as poupas, as rolas e o cuco, música que me embalava nestas tardes mornas subindo pelos troncos das glicínias.

Não lhes dão tempo de migrarem. Com as  sementeiras de pesticidas, tiram-lhes o voo e a voz. 

Com eles os grilos e as cigarras. 

Mas...

...afinal onde vai o meu devaneio ? No ponto de partida...porque a alma está ferida.

Hoje, abandono-me num canto que me acolha.

E espero, paciente que alguma alegria  me recorde, volte e me recolha.

 

Manuela Barroso