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sábado, 3 de outubro de 2015

Deito-me no sol


 Robert Hagan


Deito-me no sol amarelo, já cansado do dia.
A porta da minha casa, faminta de luz,
abre-se com o cintilar das estrelas que nascem
enquanto morro um pouco na noite.

Não me sinto e não me vejo.Vagueio por espaços
interestelares à procura de mim. Do outro eu que 
não encontro. Mesmo na morte do dia que sempre 
espera renascer de novo com a vida da noite.

Neste caminhar contínuo, cansam-me os minutos 
infindos, nesta perene peregrinação. Procuro o colo
da lua e protejo-me das tempestades noturnas onde
os mistérios se adensam na incógnita da escuridão.
E repouso o medo que entretanto me adormece.


Manuela Barroso, in "Inquietudes"- Edium Editores


                       

domingo, 27 de setembro de 2015

Silêncio



 Panov Eduard

Chego à paz da minha casa e procuro-te.
abro a porta devagarinho, espero a tua
sombra. e estás em toda a parte:
nas recordações objetivas e na saudade
das recordações!
o pensamento cai em mim provocando
um rodopio de emoções.
e fujo.
e nego.
corro, sacudindo este turbilhão que não
 quero. que não peço.
quero é a tua presença nem que seja a
 tua sombra.
outros fogem de ti, quando eu procuro
fugir de mim, para te encontrar.
quero que fiques comigo e em mim,
dentro de tudo e de nada. porque me
completas e preenches os vazios das
horas a que chamam" mortas".
ouves-me dentro dos ruídos da vida.

Manuela Barroso, in "Coletânea de Poetas Maiatos"


domingo, 20 de setembro de 2015

Escondes-te





 Panov Eduard

Escondes-te no bico das aves e no lume das águas.
O teu som penetra na sombra dos bosques
onde se difunde a harmonia.
A tua luz côa-se pelo filtro espesso
dos dedos da ramagem.
 
Tudo se esquece neste vale
onde a calma é o prelúdio da tua  música
cujas notas penetram também no seio da terra.

São ondas de êxtase acompanhando esta viagem
no murmúrio do silêncio fresco
que desperta as penas dos pássaros
no terraço da manhã.

A alegria esboroa-se no ar
em poalha de reflexos de luz
e na miragem de imagens ténues
no jade do orvalho.

Cai o pano do olhar
no veludo da erva vestida de vapores matinais.
O aroma cresce por entre campos de amoras.

Silencio o desassossego deste paraíso efêmero
e num sagrado deleite
me distancio
antes que outra sombra se deite.
 
E procuro outros vazios.



 Manuela Barroso , Antologia "Ventos do Norte"

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Troco os meus olhares



Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.
Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos. 

Manuela Barroso, in "Antologia conVida", Barbára Editora- Blumenau, 2013
Org. Anderson Fabiano e Helena Chiarello


Pausa...
...na quietude da sombras dos juncos!

Desejo a todos/as Boas Férias!

sábado, 25 de julho de 2015

Voo



Como num voo assimétrico no sopé
que contorna o declive das escarpas,
vais percorrendo o instinto da maré
que penetra na areia como farpas.  

descalço os pés brancos das ninfas belas
e na catedral da areia do chão
ergo os meus castelos, danço como elas
enquanto namoras a liberdade da ilusão

 na imagem que se pinta na espuma,
nas pegadas escritas na paisagem,
colho os beijos das conchas nas dunas.     

no areal escreves sonhos que não vi
por ser longa a distância da memória
ao querer ainda me lembrar de ti.


Manuela Barroso, Antologia "Mar à Tona"