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sábado, 4 de maio de 2013

Não me perturbes



 
Não me perturbes.

Quero reclinar o meu peito no regaço da terra
descer num casulo de luz pairar como a bruma
na urze calada e perfumada da serra.

E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.


Na criança adormecida em mim
ficam as pegadas na presença dos silêncios,
nos diálogos e gestos escritos na areia polida
das minhas palavras.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 

Não perturbes estas folhas que rodeiam o meu corpo
povoando esta alma de música que ninguém ouve.
Não quero miscelâneas no meu poente.
Quero nascer os olhos em bocas de alegria.
Deixa ser-me criança, vestir de novo esta fantasia.


E não per tur bes o meu son ho.
Quero adormecer a noite enganar a lua
morrer o passado nesta inquietação
desta
chama
nua

Manuela Barroso, "Eu Poético"
 Tela :Garmash




.
E porque a amizade é também uma jóia que enfeita os meus dias, obrigada querida amiga Gracita por teu carinho na jóia da tua arte maravilhosa.
És uma querida e grande amiga.
Aquele abraço!



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Foi ontem...



Foi  ainda ontem que o tempo não morria
na estrada da minha pele!
Os olhos atravessavam as pedras nas micas
incandescentes de agosto, cheiro a mel
E as rosas...
-ah, as minhas rosas!-
choravam as pingas de sulfato das latadas em flor!
E eu corria menina nos canteiros
com margaridas sorrindo pelo meio!
Que bom saltar à corda ,à macaca e às casinhas
não saber ler a lua nem Vénus à noitinha
correr por entre o centeio que arde
no rubro sol da herdade...
Fazer tudo
fazer nada
somente o lanche da tarde
Ah! morangos pequenos silvestres num creme
de açúcar e Porto na delícia de um recheio
da torta saída do forno e chocolate pelo meio..
E as delícias de amoras colhidas entre os picos
amansados com a língua com as pintas de salpicos?
E o sol ardia na pele e quanto mais ele batia
mais em fogo me fazia na praia do meu jardim
E nos vestidos rosa, de alça, eu mostrava a minha cor
e a graça de andar descalça na relva bordada a flores.
Ah, tardes na minha casa, meu descanso, meus jardins
que eu regava à noitinha com o canto  dos chapins
 
E põe-se o sol lentamente
ontem , hoje e amanhã
já não como antigamente...
Hoje foge a vida  a correr
fugindo de mim também.
Mas antes também fugia
porém, com outra magia.
Agora...
Ai, agora corro tão calmamente
saboreio cada hora
que quando vejo correr
os olhos gritam...
Pára, fica, demora!..

 E dói-me a pressa
da pressa dos outros...
Dói-me ter que parar
na metade do caminho...

 Devagar que tenho pressa!
-digo para mim baixinho!
E...
pouso o rosto entre as mãos
dobrando os dedos na face...
-dói-me o peito ou o coração?
Ah, dói-.me antes a carne
porque a alma...
essa, não!


Manuela Barroso, in "Eu Poético"
Tela:Volegov



sexta-feira, 15 de março de 2013

O Largo.


Seria um prazer ter a vossa companhia


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 Imagem da net

...Chão pelado de alegrias nas areias movediças nos passos das crianças.
Costas vergadas, doridas pelos campos pingando o verde semeado com
as nascentes de maio.
Os lábios abriam-se ao sol e ao sorriso das violetas e dos mantrastes ferti-
lizando infâncias na felicidade do bulício das vozes cristalinas no largo re-
dondo da curva da estrada.
Não imaginas a música distante das baladas inacabadas das crianças que
ainda ecoa no adro do tempo interrompendo memórias na saudade desta in-
fância distante!
Não ouço o ruído dos ponteiros do relógio do dia e da noite. Apenas a ausên-
cia do cristal nos olhos das águas que se perdiam nos regatos em movimento.
No terreno pelado nascem agora saudades nas ervas rasteiras com medo de
nascer.
Passeia agora um esquecimento vagabundo no vento que cobre os líquenes nos
muros desertos e solitários da curva mais larga.
Em que parte do espaço se guardam estes lábios verdes de alegria e mel?
Onde está o tempo anunciando novos anoiteceres e lamparinas que alumi-
am as noites?
Agora na curva da estrada abandonada fica a areia seca, infértil dormindo
na solidão do pó esperando novas sementes .
Da minha vidraça  mais baça, demoro a nostalgia que faz ninho nos galhos
do peito donde pendem os cachos pretos caindo dos olhos em lágrimas de uvas
no cálice verde de Baco.
Fotografo a saudade nos montes longos deitando-se preguiçosos no vale e no
fumo da tarde.
A janela fecha-se guardando retinas no baú do coração.
Eu voltei.
O tempo, não!

Manuela Barroso

  

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cardos




 ...E era azul
Dos cardos sorriram rosas com fios de alvoradas
E no ventre dos montes nasceram fontes de primavera
Correram urzes e tojo e mimosas nas encostas escrevendo gotas
na terra orvalhada
Pelas gretas nuas da serra corria o pólen misturado com a imagem
das flores por gerar
Não quero o frio que corta a corrente deste sangue que alimenta
este eco vagabundo.
Não quero a foice que corta a nuvem onde planto meus devaneios
Não quero o ruído que destrua a voz deste meu silêncio que canta
e grita e sorri e olha enlevada aqui
Não quero olhares  ausentes  frios, distantes misantropos nos gestos
e palavras do meu corpo.
Deixa abrir os olhos e abraçar o sol, o mundo e o belo que a Natureza
tem no vulcão mais profundo
Quero explodir como a lava, quente, luminosa, na incandescência das brasas.
E aquietar-me
Fechar as asas
Deixa pasmar o meu silêncio e saborear a torrente de labaredas gigantescas
nas cores que explodem, subindo desta cratera profunda
Quero repousar os meus sentidos no colo da serra, aquecer o chão
do meu peito onde germinarão sementes de sonhos no coração da terra  
Deixa que se abram os dedos dos olhos e das mãos
Há tanto por fazer nascer.
Há tanta solidão
Quero voltar aos cardos agrestes na verdade da sua  despida inocência
Quero o odor dos perfumes silvestres percorrendo preguiçosamente o ar
numa calma sonolência.
Em deliciosas demoras quero flor de rosmaninhos  e amoras.
Tudo muda.
Tudo vai embora e seja como for, eu ficarei aqui plantada com os cardos
no azul da serra em flor.
Deixa que adormeça no sossego que entra na canção do vento
onde as sombras são as bailarinas neste palco mudo,
num eterno encantamento

 
Manuela Barroso, in "Poemas Oblíquos"
Tela - Waterhouse
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sinto



 
Sinto percorrer-me a pele, os olhos cansados das folhas caídas.
A canção das árvores acorrenta esta fome de Te encontrar.
Invade-me o tédio deste ar taciturno  que morre aos poucos
 nos escombros do dia.
Apresso-me a colher os últimos frutos nesta sede de nada,
feito chá da tarde.
Arrasto o olhar nos esconsos inertes, tão frios, cheios de vazios.
Fixo o silêncio na monotonia vaga que me procura e anestesia,
nesta luz que dorme que nem é noite nem dia.
Prolongo o meu êxtase na vastidão de ausências que já não sinto.
Apenas desejo a saudade que já não tenho.
Mas este penoso bem-estar eleva-me para os penhascos altivos
e solenes de fim de mundo num calmante sossego de solidão
na quietude dos vazios.
A urze já se foi com o tojo da minha serra.
Mas a semente penetra na terra para voltar a sorrir
a minha alegria na nova primavera.
As flores não são as mesmas? Deixá-lo!
Eu também não serei mais quem era
sou também outra Primavera.

Manuela Barroso
Imagem-Net