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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Réveillons

Existe uma maravilhosa mítica lei da natureza que as três coisas que mais desejamos na vida -- felicidade, liberdade e paz de espírito -- são sempre obtidas quando as concedemos a alguém mais. ( Peyton Conway March )


O tempo atravessa o dia, desenhando sulcos silentes de ansiedade no “réveillon” que se aproxima.
Mãos vazias acenam dedos trémulos de despedida aos dias que agora morrem, sem o grito da saudade!
E o sol morre também em cada olhar, sem a dignidade de um crepúsculo com sopros de majestade...
Eis a Morte sem Redenção na Memória gelada da Negação!
...E corre-se a cortina como portas que se fecham, interpondo-se entre a realidade vivida e a incógnita do futuro...
...E uma nova vibração faz ondular os mistérios de mais uma noite na tentativa de nos preencher numa espécie de Imensidade e Intemporalidade onde nos sentimos cada vez mais perdidos, mais sós...
...E como que num assalto, a alegria estoira numa felicidade estranha, estilhaçando cristais embriagados na imensidão desta noite comemorativa, numa histérica máscara de felicidade cinicamente emparedada num ego calado, traiçoeiro...
Acenam-se sorrisos, pisam-se angústias, cala-se a impotência...e tudo se afoga em flutes de alegria fugidia!
O corpo vai mergulhando numa exaustão calada, amordaçando solidões que se instalarão no dia seguinte, no vazio do efémero.
Ainda cambaleando de euforia, pisa-se o chão rua fora, atravessando olhos cheios de vazios inquietantes dos” sem abrigo”, que nos fixam, perguntadores e incrédulos, implorando partilhas de festas não consentidas e que eles amordaçam...
...E enquanto esmagamos a sorrir, os dias que agora se findam, tentando apagá-los, rastejamos à procura da Felicidade Futura, implorando Amor e Paz para o ano que se inicia...

...E eu... eu procurarei novas Altitudes em novas Paisagens, subindo a Montanha donde, na sua amplitude, ecoarei gritos de Esperança que cheguem ao Infinito, abraçando o Universo!
Porque a minha Felicidade está na minha Essência!
Que me preenche!
E a minha Essência é aquilo que Eu Sou!
...Uma Filha do Universo!

Feliz 2012,

Num abraço de Paz a todos os que me visitam e que amo.

Manuela Barroso

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O céu metálico...


Céu metálico- Maia
  O céu metálico sobrevoa, observando, esta floresta de cabelos humanos,
invadidos por rajadas de medos, emparedando-os na angústia do abandono
e desencanto.
Somos berlindes ansiosos, em declives verticais,
em voos  picados e  pesados de encontro ao abismo.
A solidão gela a amargura das horas com sede de vingança...
...E crepita a ânsia de liberdade pela Dignidade e Igualdade Humanas...
...uma estranha prisão com grades frias, intransponíveis,
feita de injustiças, ódios e metal...
A dignidade sufoca esta espuma de solidão, numa angústia asfixiante,
infligida por carrascos impunes que anulam sonhos e gritos de esperança...
A impunidade esmaga a esperança de justiça numa cortina opaca,
provocando arrepios de indignação...
E neste lar terreno, o espetro da loucura humana ganha contornos
de abismo tenebroso, mutilando mocidades ainda por nascer. ..
...E a dor da indignação bate surda no olhar de peitos magoados,
numa amargura incontida, que acordará nas brasas das consciências abandonadas,
feitas vulcões,  cujas crateras vomitarão
lavas incandescentes de libertação.
E das cinzas,
nascerá de novo o Amor...

Manuela Barroso

sábado, 3 de dezembro de 2011

Tempo-Espaço



Atravesso a floresta do Tempo.
E não encontro árvores nem folhas, só Vazio.
O Espaço matou as notas musicais que se despreendiam da alma.
O eco perdeu-se na imensidão do Tempo.
E volto-me para o Espaço e não me encontro...
O Tempo não deu tempo para me encontrar.
Quis sair , deixando este Espaço, fugindo ao Tempo.
E não os acompanhei na sua vertigem.Pensei parar. O Tempo fugia.
Pedi ao Tempo para ficar.
E o espaço tornou-se um vazio onde me perdi...
Esperei pelo tempo, onde as notas musicais se diluiam...
E num mundo abstrato, procurava algo concreto , palpável...Tudo se diluía no Tempo.
A realidade refletia-se agora na imaginação.
E agora o Espaço era  irreal.O Tempo, irreal.
Perdi-me de mim, das referências musicais e folhas das árvores
Perdi-me do que julgava ser o  abstrato e  o concreto...
E o Espaço ficava cada vez mais distante das memórias feitas de imaginação...feitas com imaginação...feitas de abstrações...
E vagueei pelo tempo infinito, percorrendo o espaço vazio que fica para além do tempo...
E com tempo, aprendi a conquistar espaço, espaços...
...que agora ficam cheios de Tudo
...e agora a imensidão do Universo é um Vazio Enorme, imenso de tudo, de tanto!
E de repente, uma espécie de vazio cheio de Tudo prenche o meio vazio de mim.
E encontro-me.
Agora...
Aqui...
Ah! Mistérios do Universo!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amor Incondicional


...E insinuas-te numa conversa contínua, em que não me deixas concentrar...
Bates de súbito na porta do meu peito e interrompes o meu diálogo!
Mas não te impões. Inspiras.
Não aborreces. Pedes.
Não obrigas. Insinuas.
E o meu Eu submete-se à tua força.
Entre o Ego e o Eu, tu és a verdade da vida.
Tua presença é o precipício dos egoístas e o perfume dos amantes.
E não exiges porque tu és redenção.
E não esperas porque não aceitas trocas.
E no silêncio da alma, a tua voz ecoa num murmúrio doce como um cântico de acordes celestiais só possível num Universo desconhecido!
E sinto essa espécie de som invisível, num coração que não sei se é o meu. E nele, semeias uma paz...minha eterna companhia, na companhia das minhas horas.
Se desfaleço, não peço que voltes porque já estás escondido em mim...
E a solidão transforma-se em minha confidente...
Com ela partilhava as desilusões humanas que hoje são livros de meditação e elevação, e que leio nas horas a sós contigo...
Ah! Se pensam que morri, digo que não, que cresci!
Por ti, para ti!
E transformas infortúnios e humilhação em lições de afetos, na dádiva de Amor sem condições, sem obrigação de retribuir o verbo amar.
As horas vão passando, cadenciando o tempo, e a tua presença é o sino que desperta e alegra, anunciando o verdadeiro sentido do delírio do Amor: Amor Sem Condição.
...Mas cai na humana condição, também o teu encanto, no repouso adormecido, entrelaçado com caudais de emoções descontroladas que banham o coração descompassado dos amantes, quando se abandonam em pedaços de céu, numa miragem incandescente do Divino...
E na teia da vida, imprimes caudais de sentimentos, feitos de mel, no fel da injustiça e ingratidão.
E os fardos ficam submersos na espuma da Esperança e elevam-se nas nuvens, numa ascensão meteórica, feita de graça e de paz!
E a vida pára, como que em espasmos, em êxtases de ternura!
É urgente encontrar o Amor para parar o tempo!
É urgente encontrar tempo para viver o Amor!
...Porque este é o segredo da Vida:
Encontrar coisas que façam parar o tempo, ou encontrar tempo para parar as coisas!
...e parei
...para me encontrar!


Manuela Barroso






sábado, 12 de novembro de 2011

Meditando...




Na casa do silêncio deita-se a cambraia da Paz.
E na paz do silêncio ouve-se o que não se quer ouvir.
E o coração fala, o peito aperta-se e o pensamento inquieto esgueira-se, como que empurrado pela voz calada da canção deste sino interior.
É no silêncio que se ama.
É no silêncio que as palavras encontram o eco do ruído do coração.
E no silêncio, a imaginação vagueia, transformando um punhado de terra numa gigantesca montanha. Uma inocente faísca, num clarão ensurdecedor, ou num descontrolado incêndio.
E o Silêncio é a presença que controla o carrossel das danças vibrantes da imaginação.
E ela, sem eco, cai de novo no silêncio e cansada, mergulha no berço da paz.
É no silêncio que se ouve o ruído das águas paradas.
O Silêncio é a voz que dá voz.
O Silêncio sou eu. O Silêncio é a voz que ecoa no peito da noite do meu dia.
É onde me encontro.
É onde me deito.
É onde penso, me reconforto.
É a paz dentro do bulício da minha mente.
O Silêncio é o Nada onde o Tudo pode existir.
É a passagem para o eternamente puro estado de Quietude e Iluminação.
É no silêncio que me leio, me domino, me arrependo, me ilumino.
Onde, ouço a música dos meus segredos errantes que vagabundeiam pelos meus telhados de agonia e onde marco meu encontro com a Alegria faminta da Paz e Harmonia interiores.
É o tempo que se encontra no Templo da aquietação, onde o Sossego se deita no regaço secreto e acolhedor da nossa paz interior.
É onde escuto meus desejos cansados, que se cruzam com as brumas vazias em saudades vagabundas e que dormem incógnitas nos gemidos do inconsciente.
Uma alegria com sentido, tão cara e consentida pela minha Voz!
Só.
Assim.

          
                                                                                   Manuela Barroso





sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As noites...



As noites que te sonhei,
meu amor,
foram pétalas tecendo rosas em cabelos
na madrugada dos teus dedos.
Eras o contorno na luz
que no teu corpo crescia
e num abraço profundo
 o sorriso renascia.
E a noite,
meu amor,
te escondia!
No desassossego das horas
eras o sonho acordado
em noite de lua nova.
Na inquietação das sombras,
doce serenidade
na maré cheia da tarde!
E o céu doce nascia
na descoberta do amor,
que pelo nosso corpo descia
 nas pétalas brancas da luz.
Tuas mãos eram o calor,
o fogo
de tanto amor!

E o pano vai descendo
trocando as voltas
                        à vida!
E nunca se viu em redor
tanta loucura e ardor
tanta sede
                        desmedida!


                                                             Manuela Barroso

sábado, 29 de outubro de 2011

Sons

Foto Anjo Azul - Abadia

Adormeço entre a folha e o tronco rugoso, numa sonolência confusa,
no rumor de uma sombra absurda e imperceptível,
que se levanta com o pensamento
do vento.
Ouço a lembrança das horas líquidas, longas e suaves,
estendidas no arvoredo da colina densa,
na saudade plangente do sino perdido na Torre imensa.
Ouço o abandono do silêncio
Vazio
na escuridão Surda da Noite,
que cresce com o abandono alheado da lua,
na cegueira das nuvens revoltas
desenhadas na Terra Nua.
Nos sons longínquos que dormem, nos fumos  crescentes
do inconsciente,
ouço Vozes  plangentes de água
que florescem em cataratas luminosas,
na penumbra silenciosa
da saudade. E o sussurro penetra o jardim
com a música das flores
em sonhos de primavera, grávidos de esperança e de Mim.
Os zumbidos das hélices de insetos
entardecem a solidão no sopro impercetível do baile suave
das borboletas.
Estranho som.
Estranha ilusão,
neste silêncio
que desce
que dorme em flores
na minha mão. No horizonte
deita-se o fim do dia,
com a canção da torre em harpas de Avé -Marias.
E as badaladas diluídas
do Sino,
são hoje as badaladas perfumadas da minha Noite.
Sinfonia do Universo tocada na catedral de Mim
como um Hino.

                                            Manuela Barroso
                                                                                                     

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sinto



Sinto a sombra que anoitece
na noite que calma, desce
Sinto o vulto da mão da lua
que sacode a minha noite
na escuridão que me dói
Sinto o canto das fontes ligeiras
invadindo a liberdade
que me entristece,
me constrói
Sinto o vento em voz suave
na ligeireza leve
da luz que anoitece
Sinto a liberdade dos sonhos
nos jardins inconscientes dos segredos
 que se perdem
no sopro lívido da noite sem medos
Sinto os laços ofuscantes e fluidos da harmonia
escritos na boca das flores
em sorridente geometria
E sinto a vida presa
na corda fugaz, fria e estranha
do tempo difuso
numa ansiedade tamanha...
 que as horas que correm paradas
 são momentos que recuso...
Numa solidão de fios
divididos no pensamento,
sobe a ânsia de encontrar-te
num crescendo movimento.
E eu nunca estive aqui.
Fui um simples meteoro.
Atravessei  ares inóspitos
com sentimentos incógnitos.
 Evaporei  com o sol
...Desapareci...  
     
Manuela Barroso
                                                                                                                                                                                                                                                          

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Vindimas II


 A tarde ia descendo nesses Outonos, como descem os Outonos da vida...
A noite ia anoitecendo as gaipas na sombra das parras.
As uvas deixavam-se escorrer, e um odor forte penetrava nas paredes da adega enfeitada de enormes tachos de cobre que em breve seriam o palco dos salpicos da marmelada escaldante, onde fumegava como lava incandescente...
A cozinha fervilhava em grandes panelas de alegria...
Mesa grande, colorida!
E tudo seria normal não fora as recomendações peremtórias de meus pais...
...para... “agora as meninas subirem”...deixando o trabalho seguinte no segredo dos deuses...
Morrida a tarde chegava a hora de começar a nascer o vinho em casa só de parteiros...
Eis o mistério feito de segredo e onde as vozes masculinas, ecoavam por todo o quintal já escurecido.
...e conforme subíamos os degraus da escadaria, subia a curiosidade na incompreensão de tal afastamento...
-Os homens vão sovar as uvas...- Eis o aviso!..
 E... ponto.
Não compreendíamos por que razão, uns pés nus, pisando repetitivamente bagos e ossos de bago... tudo era tão envolto em tanto pudor e afastamento!
...e...oh, Deus... como recordo!...
Olhavámo-nos nos olhos inocentes, mas já malandros de meninas irrequietas, e combinamos descer a curiosidade... escadaria interior abaixo, pé ante pé, até este mundo masculino, feito de braços e pernas musculadas...
...e...”ora espreitas tu...ora espreito eu”...
E como uma dança, em tapetes de bagos, cheiro a mosto ainda por fermentar, os pés pisavam as uvas...as pernas tingiam-se de sangue tinto...em caminhadas circulares passo longo... tempo longo...monótono...só quebrado pelo ritmo das conversas, também elas circulares...e onde a polpa vermelha das uvas, se colava à penugem farta das pernas longamente nuas...
Tudo seria tão banal, não fosse o fato, de termos finalmente entendido que as ordens proibitivas, era porque os nossos heróis pisavam as uvas em trajes menores!...
...e não fora algum “percalço”(...), espreitar (...) a qualidade do vinho desse ano(...)
...Hoje, prendo com um grande encanto essa imagem no meu peito...
...agarro-a à minha infância...
... e emolduro-a com o meu silêncio...
...onde ficará para sempre preso o meu sorriso!

Lembras-te Lili?
Sabes?
...simplicidades nossas...

                                                                                Manuela Barroso

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Vindimas - I


Foto de Rui Pires

O tempo ia caindo como pétalas cansadas de flor vazia ...
Abrem-se caminhos solitários nas encostas, sem o sol da primavera que sempre explode em sorrisos e cascatas de cores, desafiando floresceres.
 Mas agora, a vida começa a amarelecer, adormecendo com ela o sol suave e macio dos crepúsculos morrentes das tardes mornas...
E no pensamento desenham-se parras e cachos pendentes com cheiro a mosto e fim de verão...
As vinhas sobem, deixando sacudir seus vestidos já gastos, que envolvem os bagos carnudos, com seu pudor de menina...
Manhã!
Um cheiro a orvalho enche a alma de terra toda. Nas ramadas altas do Minho, antes, só os homens trepavam as altas escadas com cestas de verga
e cujo gancho prendiam nos degraus espaçados, num assalto feito de conversas e sorrisos masculinos, arrancando os cachos sem mimos...
 ....e os bagos caem no chão como lágrimas pretas e lágrimas brancas...
...e o chão semeado de bolas pretas e brancas, esperava carícias de mãos pequeninas...
E da brincadeira a sério passávamos à brincadeira a brincar...com os adultos a tartamudear que “ o trabalho de criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco...” ...e era assim que entrávamos no baile das vindimas, envolvidos nesta festa de Outono.
E bago a bago, colhíamos as lágrimas que também eram sorrisos...
E juntávamos os bagos aos cestos empanturrados de uvas como se cada bago fosse um cacho onde ia um pouco de nós.
Costa acima, os cestos passeavam nos ombros até ao lagar de granito para uma primeira transformação que se repetia durante o dia.
 E o peso não diminuía o sorriso, porque era o peso da alegria que não pesa. Sabiam que dentro em pouco esse néctar seria imprescindível para celebração de festas que uniria pactos e factos até novo Outono.
E as folhas ficavam mais nuas.
 E eu sentia-me mais só.
O céu já não se enfeitava de estrelas pretas...E como que numa saudade que vai morrendo, eram deixadas gaipas (pequeninos cachos) aqui e além para matar saudades dos bagos que púnhamos no regaço, onde como num lançamento de dardos, feitos de alfinetes, eram saboreados só quando pescados pelo anzol da habilidade ou do destino...
Simplicidades de menina...

(continua...)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sons...


As estrelas iam caindo como madrugadas nos teus olhos
que eram agora a planície onde passeava os meus segredos.
Abracei a árvore nos teus braços e deixei-me dançar
ao som da tua música liquefeita na espuma das tuas palavras
que escorregam desejos e beijos semeados de ternura.
O silêncio ouvia a tua voz e roubava a quietude das horas em fios
que teciam os meus dias que perpetuo em mim.
Em devaneios, passeio os ventos da imaginação
tão distante de si mesma nesta rua
tão estranhamente nua,
que abraço a solidão!

                                     Manuela Barroso
                                           
                                                                                                                                           

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Escuta


Escuta!
Ouve-te, mergulha em ti!
Esquece  agora o lá fora...
Aquieta-te...
Permanece aqui!

Pára!
E ouve o teu coração...
Ele fala tão baixinho
Segreda tão de mansinho
Que não lhe dás atenção!

Vê!
Olha como as aves são ternas!
São o teu espelho agora
Na vida que te devora
Sem tempo para a vida eterna...

Sente!
Como é bom sentir a luz
Deixar-se embalar no Agora
Sem destino, vida fora
Que mais aqui te seduz?
                                      Manuela Barroso, "Eu Poético III"


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Repousando

Minho

É uma luz calma que vai espreitando a terra.
Um vento leste, triste e manso, carrega com ele o ar cansado do verão quente.
Tudo estiola.
O orvalho é bebido pela vida que o rodeia...
...e as folhas ficam encarquilhadas, numa contorção angustiante de sede, de sombra.
Solo ressequido e poeirento nas bermas asfaltadas das estradas.
O caminho alonga-se na medida inversa dos raios solares.
Uma pedra lavrada de musgo seco, lembra que já foi palco de vida...
...fim de estrada, fim de pó.
Nasce um córrego que foge deste talco, descendo uma delicada ravina...
...e a sombra arrasta o verde...
Cheira a água e acontece a profusão de cores, nas flores penduradas, nas ribadas.
Os meus pés soletram as lajes uma a uma, escorregadias, como granito macio, roído pelo tempo.
Os ouvidos questionam um sussurro.
A água vai rebentando das rochas num regato maroto, bordado de flores azuis! São miosótis!
Acompanho este correr cantante da água...
...meia poça, meio lago, num aconchego de margens feitas em açude,  árvores inclinadas, numa saudação à Natureza...
...e mais vida acontece com a água plantada no verde das plantas aquáticas subindo...subindo à procura de luz, nas flores, nos ninhos dos rouxinóis presos na sombra do berço de folhas, nas libelinhas e no coaxar das rãs...
E todos os meus sentidos ficaram presos nesta presa  e na quietude onde tudo aconteceu espontâneamente, exceto eu...
E  o arrepio do vento era agora a brisa morna que acalmava ainda mais a pele das águas que tremiam só  com o esvoaçar das libelinhas, neste espelho onde até o céu se mirava...
O tempo morria, porque nele me perdi...numa imensa meditação...
...e permaneci assim presa, nesta encantadora prisão...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Simplicidades


Um vento mensageiro teimava virar a página do meu best-seller.
Parei.
Como uma objetiva de longo alcance, percorri o olhar do alto do declive, donde saboreava o mar completamente prata, completamente Agosto completamente agora...
Pensei nas coisas boas da vida.
Tempo solto. Tempo livre. Tempo indefinido...
 ...até no canto longo, longo das cigarras, disfarçadas nos troncos secos dos pinheirais...
...e plantei-me na relva verde, enfeitada de fagulha seca... agulhas bordando a castanho a monótona mas calma cama do verde que se espraiava até à vegetação rasteira que corre para o mar, perdendo-se no horizonte baixo dos montes...
Enquanto o vento sorria, fechava os olhos ouvindo a orquestra de cigarras que aumentava o “laissez-passer” com este cantar tão monocordicamente embalador...
E a fagulha seca ia enfeitando o meu corpo, confundindo-o com o chão...
Somos realmente folhas! E eu, parte deste todo que teimo interrogar...
E fugimos aos porquês simples com respostas evasivas, contornando respostas com dúvidas escritas no inconsciente...
E neste estado de quietude e deleite, com os ouvidos pousados na música das cigarras, eis que de repente, como uma batuta de quem rege uma grande orquestra...toda a cigarrada emudeceu!
Emudeci também.
Não compreendi tão repentino silêncio...
E mais uma pergunta sem resposta para tão simples fato, mas talvez complicado argumento...
Para elas!
Tudo ficou parado ,ampliando ainda mais a distância das respostas para factos tão irrelevantes.
Voltei ao meu livro...pensando nas cigarras...
Pausa longa...
Ao longe uma outra orquestra iniciava agora a sua atuação...talvez porque  chegava o momento de ceder o palco a outros músicos...
E eu, no meu palco, continuava com a minha música, deixando-me acariciar pela sombra dos pinheiros que adormecia em mim!
Simplicidades...
     

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Invento-te...



 Invento-te nas manhãs claras
que ainda dormem em sonhos liquefeitos.
 Arredondo os braços
 que procuram as noites
 também inventadas à procura de outro tempo.
O manto da minha pele
 cobre os segredos proibidos de uma casa que não é tua!
E o meu peito é agora um planalto
onde as nascentes secaram
matando de sede todas as flores por nascer...
Não nasceram flores, nasceram cactos,
continentes de água,
 que guardam as flores esquecidas do meu jardim.
E invento-te nos lábios das ondas
que pronunciam o teu nome embrulhado
na espuma branca da lua.
Inventar-te-ei ainda
quando o nevoeiro te esconder
 no regaço da noite onde me deito,
neste vapor de água de que é feito
para te sentir
mesmo sem te ver...

                         Manuela Barroso, " Eu PoéticoIII "

                                                                                  

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sons



  Meus ouvidos pousam na paisagem dos meus olhos.
Os sons longínquos, os murmúrios inaudíveis escrevem memórias
esquecidas no tempo.
 Desperto com este balbuciar de vozes escritas
no inconsciente que desenham hoje aguarelas musicais
e que ecoam no espaço de mim , no leito da minha pauta!
Neste rosário de sons, ouço a minha paisagem com notas difusas e que
 o tempo não apagou...
Continuam numa vibração contínua, incessante, numa sonata só inteiramente
decifrável por mim.
E os olhos percorrem a paisagem que os ouvidos escreveram,
fixando-se no vazio
 à procura dos sons,
que passeiam pelo espaço,
 indefinidamente...
                                                                            
                                                                                Manuela Barroso
                                                                                                                                               

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mãos


Bates na sombra azul do meu peito.
Acordas as madrugadas
Que dormem sorrindo,
E as estrelas
Como as flores em Maio
Se abrindo...
Escreves na aurora
Em nuvens adormecidas
Os beijos que tardam!

As mãos em flor
São pétalas adormecidas
Numa canção de amor!

                                                                Manuela Barroso,  In "Eu PoéticoII"




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Fusão...

Rio Tâmega

Quero fundir-me
com a estrada branca do barco
que passeia dentro de mim!
Quero fundir-me
com o som das ondas mudas
que vêm em silêncio visitar a praia da minha pele.
Quero fundir-me
com os novelos brancos no azul
que envolve o meu espírito  nesta inquieta ausência ...
Quero fundir-me
com a  carícia da água 
que banha os meus pensamentos  em espuma, sem mágoa
Quero fundir-me
com os risos do sol
como beijos quentes de um amor de verão.
Quero fundir-me
com o verde dos meus pés nus
no deleite da erva molhada, cheirando a madrugadas!
E quero fundir-me com as flores dos catos
em pétalas de seda
desafiando incongruências!
E,
Quero a fusão do infinito visível
No invisível que mora em mim!
                   Manuela Barroso, "Eu Poético III"