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sábado, 8 de dezembro de 2018

Queria



 
Queria despir esta pele e ser outra.
Queria vagabundear de coração em coração e ouvir a música de cada músculo.
Queria subir ao mistério dos neurónios e entender a linguagem simples e tão complexa desse mundo que me faz.
Limito-me a ter um corpo e a ser o que não compreendo.
Limito-me a expandir o meu olhar e contemplar as nuvens rasgadas do sol poente,
a expansão das estrelas que vejo e imaginar as que não vejo.
Limito-me a acordar com a frescura da manhã embalada com o pio dos pássaros.
Limito-me a vaguear pelo dia, cada dia, tragando cada hora, na contemplação das colinas,
com as árvores mansas e pacientes, pregadas ao chão, cada dia.
Perco-me a deambular por um areal pescando búzios na sua tão enigmática simetria.
Deleito-me com as flores do campo, na sua perfeita e inquietante harmonia.
Pouso o meu pensamento, como se fosse uma flor de cristal, plantada no peito da vida.


Manuela Barroso




domingo, 25 de novembro de 2018

Fizeste-me




Fizeste-me cântico em versos de vidro
na imensidão  do cosmos onde fulgura 
toda a exatidão do belo. Tudo parece

imutável na plenitude serena dos astros
e na ausência visível  do turbilhão
efervescente dos magmas. Mas

tudo é um poema em incandescência.
Deixa-me que me transporte para a
serenidade inalterável da luz das memórias

onde me esperará uma sinfonia de estrelas
na imaterialidade dos Tempos.


Manuela Barroso





segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Mesmo que


Mesmo que te rodeiem os cardos
será o rosa a cor do teu olhar.
Mesmo que te perguntes
pelos dardos das amoras
será doce a sua polpa
interminável a sua cor e longo o seu sabor.

Respira a densidade das flores mais esquivas
e o vermelho incisivo das papoilas.
Pergunta à seiva
o porquê da pressa do seu rio
e ao prado
a nudez pura do seu verde e do seu aroma indecifrável.
Perscruta o rumor que te cerca, que sentes, que és.
Nada mais que o diálogo entre os teus olhos
insónia
e a explosão de vida a teus pés.

Manuela Barroso


sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Era assim

Vladimir Kush

Era assim baixinho que queria escutar o vento.
Era assim devagarinho que queria flutuar nas 
asas do pó, na memória do tempo.
Era assim devagarinho que sonharia com um
barco que me levasse nos mastros, sem ouvir 
o cantar doce das águas na quilha.
Seria assim tão devagarinho, que o invólucro 
de uma lágrima de alegria me arrebatasse da 
divagação dos meus sonhos.
Seria mansamente, que ouviria não o sussurro 
das folhas mas a telepatia de uma voz, na ondulação 
do orvalho.
Os ciprestes perdem o equilíbrio das torres e o 
horizonte desfoca a ilha dos meus olhos.
Só o afago da levitação para uma bonança de luz.

Mas na respiração da noite, há unhas negras que 
se cravam na seiva branca dos Homens.

Manuela Barroso


sábado, 7 de julho de 2018

Não te direi



Não te direi nunca das pedras que se cravam no meu peito
Das rosas que nascem com o sangue das velas anoitecendo madrugadas
Nada te direi dos gemidos matando o sono que chamava pelas estrelas
Não te falarei dos cardos da infância da noite, chamando pelo vazio, no sossego das várzeas
Não te falarei da solidão dos braços cheios de ti na impotência do meu corpo
Não te falarei do enigma da tua presença no corpo que te dei, na alma que te sopraram
Dir-te-ei só que vivo sem saber que estou viva que morro cada dia que vou vivendo

E o fruto da minha carne será o cântico onde o meu colo ainda segura a vida.

Manuela Barroso