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sábado, 16 de junho de 2018

Ainda cogito




Ainda cogito no esconderijo desta hibernação.

O som da flauta acorda o meu torpor.
Os galhos já se desprendem bebés em folhas tenras e inocentes,
dos ventos e beijos ardentes da canícula do sol.
É um espreguiçar doce;
os aromas contaminam a pele
e arrepiam todos os sentidos.
Ainda breves flores despontam do musgo
e os girinos passeiam por entre os limos flutuantes.

Que me banhem todas as estrelas na noite que se aproxima.
Que me dispa de tédio as línguas de sol
porque necessito de gritar 
que a alegria é o mastro dos meus dias.
Que me beije a chuva, muita chuva.
Quero navegar nos lagos largos da abundância
onde a vida se incendeia.

Hoje quero ser a rã que se espreguiça livre
por entre as flores orvalhadas da manhã,
colhendo  campestres inocências.
Já não tenho tempo para perder,
nem paciência.

Manuela Barroso, Eu Poético VII


sábado, 9 de junho de 2018

No Aqui


 No Aqui
Procuro-me na subtileza das formas.
Afasto-me de mim
e nada sou, senão um fragmento do espaço.

Numa amálgama interior,
sou o conflito entre Eu e o Conceito.

Procuro a liberdade e desperto para
a Inteligência subjacente a este Eu.
Aquieto-me na ausência de mim e vou
ao encontro da alegria de Ser.

Manuela Barroso,






segunda-feira, 28 de maio de 2018

Maio



Fecho os olhos e percorre-me a música de maio.
É o êxtase inconfessável nos sons definidos e indefiníveis.
É a cor divisível nas folhas e cambraias de flores,
no indivisível que se afunda na incapacidade cósmica
que cinzela a perfeição.
É o grito impotente de abraçar o abismo
onde enterro a minha impotência.

Uma enorme sensação de paz quase desumana,
troca esta fome de alcançar o indivisível
para morrer na alegria de estar aqui.

 Abro então os olhos e sinto quão grande
é a beleza deste cântico que sepulta a minha alma
num leito verde e florido, num eflúvio  que abarca
todos os sentidos e mata esta sede de abraçar os sons
deste Poema feito Vida e Mundo e Terra e Flores e Pássaros .
...

Manuela Barroso

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Dueto




( Um livro em dueto)
...

Gerês                                                                                                              

E  o verão?
Porque fado não o tens no coração?
Não corres a praia salgada com o açúcar na ponta dos dedos?
Acaso me queres dizer que ele não esconde  no âmago,
os teus segredos?

Ah,  agosto marinheiro
dunas sopradas aos ventos
nas tuas curvas  redondas e pálidas
esvoaçam   pensamentos em asas de  areias cálidas.

Mas maio!
Ah, maio florido interior do meu jardim
mudo e quedo
belo  e mudo
fronteira onde procuro
chamas inertes de cor na sombra de cada flor                                                                                         
onde se condensa  o orvalho  ainda mal rompe o dia                                                                                                  
nos dedos de cada teia
pérolas numa colmeia
num colar de fantasia!

E estes vestígios de luz, reflexos matinais
em alvoradas de cor
fazem  de mim a crisálida que vê em tudo o Amor.

Quisera pintar a tela numa vela
vestígios de eternidades
na quietude das malhas com que é feita a saudade
na renda das minhas muralhas.

  
 Maia


O verão?
ah,  o verão!
estação que me escalda o coração com alergias tamanhas
gretando-me a frágil pele
pulsando-me nas entranhas                                                                                    
e, então, os olhos ao rés d’ areias são como gaivotas mortas                                                                                      
levadas pelas ondas revoltas embatendo contras as rochas!

se me fosse dado ter pinceis nas pontas dos dedos
pintaria Maio, sim!
maio da vida, da luz, das flores
maio sem medos
maio das cores
coloria de sorrisos exaltantes de alegria
aquele dia
em que o meu ventre se abriu
por entre o mar dos meus olhos
com a música da vida a amanhecer pura
num sopro divino
para nascer o meu lírio.

 ...
Manuela Barroso( Gerês)  e Teresa Gonçalves ( Maia)-in “Laços-Dueto” – Editora Versbrava

sábado, 5 de maio de 2018

Mãe - Rio de afectos


 Mãe-Rio de afectos


Hoje acordou-me o rio de todos os afectos

Espreguicei-me nos limos suaves,
numa placenta morna protegendo-me dos ímpetos
do bico dos peixes no voo das águas

Toquei a minha pele, nas entranhas, onde
as sensações se disfarçam nos mistérios
da vida
Memórias do inconsciente nas horas brancas
em que te embalava no meu seio
Permaneço ainda deslizando sombras maternais
no regaço que nunca arrefece.

Tenta demolir as pedras do abrigo materno!
Jamais apagarás os alicerces da
cidade que mãe construiu em ti.

Tu, mãe,
fonte de todas as sedes, onde morrem todas
as ânsias e todas as saudades, que vozes te
segredam a ausência de ti?
Que sangue perfuma a transparência da tua alma?
Que pedra constrói o monumento da tua coragem?
Tu, que és mãe,
semeia de branco as constelações que fazes nascer
no perfume das velas, na constância permanente
do teu amor incondicional.
Tudo de ti vem, em ti nasce afinal.

És tudo em todos
numa dimensão desigual

Manuela Barroso, in “Laços”-Dueto- Versbrava Editora