SEGUIDORES

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Rasgava





Rasgava a planura do oceano
como quem semeia cartas ao vento.
Escondia o gemido no agasalho frio do nevoeiro
que nunca lhe fora tão límpido.
Sorriam os olhos com a corda púrpura do poente
que nunca lhe fora tão cúmplice.  

Plantou-se na terra
e nunca esta lhe fora tão cruel.


Manuela Barroso






sábado, 20 de junho de 2020

Se me disseres



Se me disseres que te apaixonas pelas flores que
cobrem as ruas das tuas mãos ou pelo austero cântico                
que atravessa as frestas na sombra das pedras,
vibrarei com o âmago da tua  adolescência.      

Nada é tão puro e cristalino e tão levianamente azul.
Nada é tão perecível como a sonolenta caligrafia  de
um sinuoso silêncio submerso no misterioso lodo das
águas. Nada é mais belo que o sibilar das folhas,
o saltitar do chapim na lucidez da manhã.

Submersos na imaginação vadia, sorvemos o bulício
que nos suspende à moldura da vida,  como corpos
abandonados  à procura de um poente.



  Manuela Barroso

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Foi ontem


 Rumazov

Porque ainda hoje o meu estado de alma é o mesmo, um texto reeditado, feito de recordações.



 Foi  ainda ontem que o tempo não morria
na estrada da minha pele!
Os olhos atravessavam as pedras nas micas
incandescentes de agosto, cheiro a mel
E as rosas...
-ah, as minhas rosas!-
choravam as pingas de sulfato das latadas em flor!
E eu corria menina nos canteiros
com margaridas sorrindo pelo meio!
Que bom saltar à corda ,à macaca e às casinhas
não saber ler a lua nem Vénus à noitinha
correr por entre o centeio que arde
no rubro sol da herdade...
Fazer tudo
fazer nada
somente o lanche da tarde
Ah! morangos pequenos silvestres num creme
de açúcar e Porto na delícia de um recheio
da torta saída do forno e chocolate pelo meio..
E as delícias de amoras colhidas entre os picos
amansados com a língua com as pintas de salpicos?
E o sol ardia na pele e quanto mais ele batia
mais em fogo me fazia na praia do meu jardim
E nos vestidos rosa, de alça, eu mostrava a minha cor
e a graça de andar descalça na relva bordada a flores.
Ah, tardes na minha casa, meu descanso, meus jardins
que eu regava à noitinha com o canto  dos chapins.
 
E põe-se o sol lentamente
ontem , hoje e amanhã
já não como antigamente...
Hoje foge a vida  a correr
fugindo de mim também.
Mas antes também fugia
porém, com outra magia.
Agora...
Ai, agora corro tão calmamente
saboreio cada hora
que quando vejo correr
os olhos gritam...
Pára, fica, demora!..
 E dói-me a pressa
da pressa dos outros...
Dói-me ter que parar
na metade do caminho...
 Devagar que tenho pressa!


Manuela Barroso (reeditado )


domingo, 17 de maio de 2020

Era

 Jaime Best
Era de Gales o príncipe que entardecia no teu corpo.
A Primavera semeava-se na mesa com o sorriso
e a tatuagem da adolescência.

Migramos como aves clandestinas no abandono
dos  segredos à procura de um abrigo onde pousar o nosso
afago tão urgente, tão impiedoso como platónicas
são as flores onde nunca tocaste.
No tecto do teu mundo, o sol engoliu o perfume da pátria
que te esqueceu.
Que ofereças agora trevos, na intimidade da noite
e que as galáxias hoje te cubram de sossego
na penumbra da tua inquietação.


Manuela Barroso





terça-feira, 5 de maio de 2020

Maio e minhas Rosas!






Explode, mês de Maio
Faz nascer também em mim
Uma flor cada dia
E canteiros de jasmim.
Explode, mês de Maio
Rebenta os nabos das flores
Faz dançar as folhas tenras
Faz nascer também odores
Explode, mês de Maio
Também és mês de Maria
Mesmo aqueles que não crêem
Lembram, no sino, a alegria.

E se palavras tivesse
Para explodir o que sinto
O mundo seria uma flor
Um jardim feito de amor
Neste canto tão faminto.

                   Manuela Barroso




 

 Rosas Minhas