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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Não Me Perturbes

 

Foto Minha



Quero reclinar o meu peito no regaço da terra
descer num casulo de luz pairar como a bruma
na urze calada e perfumada da serra.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
Na criança adormecida em mim
ficam as pegadas na presença dos silêncios,
nos diálogos e gestos escritos na areia polida
das minhas palavras.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
Não perturbes estas folhas que rodeiam o meu corpo
povoando esta alma de música que ninguém ouve.
Não quero miscelâneas no meu poente.
Quero nascer os olhos em bocas de alegria.
Deixa ser-me criança, vestir de novo esta fantasia.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
E não per_ tur_ bes o meu son_ ho.
Quero adormecer a noite enganar a lua
morrer o passado nesta inquietação
desta
chama
nua.

 

Manuela Barroso

 

https://vimeo.com/84500122

( Video-"Não me perturbes"- Na maravilhosa Voz de Rui Diniz)

   





sábado, 14 de novembro de 2020

Abre a porta

               Duy-Huynh
Abre a porta.                                 
Ouvi -te nas grutas e em buscas dementes.
Ouvi a corrosão da tua insistência que atormenta o silêncio do meu sono e das noites que me pertencem.
Hoje trago-te a minha leveza invisível na poeira que se faz luto.
Trago-te a vingança de desatinos que o Homem volta a esquecer.
Abre a porta.
Agora é o tempo de acordar toda a Terra, cercá-la de sombras e acordar a afronta e a indignidade de usurpadores e déspotas que acorrentam vidas humanas e toda a criação, na ganância dos seus sonhos devoradores e bárbaros. Não são mais que simples sopros que se desvanecem no algodão negro das suas lucubrações efémeras.
Abre a porta.
Hoje trago a vingança dos morcegos no incêndio de noites moribundas. O meu ninho é o espaço esconso de ninguém. É o caminho deserto das sombras onde as moléculas navegam em desconhecidas constelações. Respeita-os
 
Só fecharás a porta, com a libertação da Terra e de tudo quanto nela habita.
Ela é o receptáculo que te embala, a corola que te sorri, acredita.

 
Manuela Barroso

 


domingo, 1 de novembro de 2020

Hoje

                       Da net
Hoje, não cantes a primavera que nasce nos outeiros.
Chovem outonos em mim com folhas secas pelo meio.
As rosas perderam a cor,
os lírios perderam asas
as aves perderam chuvas de penas, na pena do desamor.
O sol emudeceu a luz,
as nuvens já não cavalgam no céu.

 
Quero tréguas neste trepidar da calma
que foge, que me arrasta.
Deixa uma vez, a solidão morar comigo
na casa que construiu
nos marfins das noite sem estrelas.
 
Quero a paz da luz, a alegria da noite no refúgio
da solidão.
Quero ninhos no silêncio das alvoradas,
acordar no linho dos lençóis
despertar com  o sorriso do orvalho
na frescura das  madrugadas.
 

Manuela Barroso

 

 

 

 

 


domingo, 18 de outubro de 2020

Tarde de Outono

 Eileen  Goodall
 Uma tarde quase primaveril.
Pequenos nadas que se tecem no pensamento, que fazem parte da rotina do tempo, das estações que vêm, que vão.
Os raios de sol caíam luminosos nos braços das árvores, agora desenhados na laje do chão, onde se amontoam folhas secas, mortas, quase desfeitas...
...Era um ritual pachorrento, cuidar da folhagem que ia caindo... caindo a cada sopro de vida no vento.
...E a folha caía, caía...
… caiu... caiu e foi apodrecendo num grosso tapete uniforme e quanto mais o tempo corria...o tapete ia reduzindo o seu corpo, entregando-se ao chão, à terra.
E as folhas secas e hirtas do carvalho e do meu sobreiro, mirravam como os dias pequenos do inverno, não sobrevivendo às chuvas, às intempéries...
Olhei o chão... olhei o céu...olhei a folha...
...Olhei os ramos hirtos numa espécie de clemência à vida...
Fez-se silêncio cá dentro...
Algo bateu fundo, forte...numa profunda inquietação na quietação do meu "eu"...e tudo ficou mais denso, mas mais verosímil com as (in) congruências da Vida.
"Tu és como a folha...
És um rebento que cresce, onde pousam as aves, embelezas os jardins e os bosques com o charme da tua cor, com a majestade da tua essência...
E vives e és feliz como os pássaros que abrigas...e és útil com a tua sombra.
Mas, oh impermanência do tempo...um dia cais como a folha seca...mirrarás sem força, sem vida como a folha, outrora verde e viçosa…e o espaço que ocupavas antes, vai crescendo à medida que vais perecendo, até ficares em nada..."
Os olhos ergueram-se numa não-aceitação deste pensamento como se esperasse outro reduto onde me pudesse refugiar...
E senti que numa hipotética semelhança com a folha, enquanto massa apodrecida e inerte na laje  eu era...sou uma  outra folha…
Eu penso que penso...eu não sei se ela pensou...
Eu penso que estive enquanto estou...e pensando que um dia não estarei mais, mas deixarei a minha voz no vento em palavras porque deixarei a minha voz  algures nos símbolos.
E se Além houver” folhas” também!?
A folha e eu...
A folha e tu...
...Mas a primavera voltará, com novas folhas, novos sorrisos...
...E eu quero o Agora...o outono do Hoje...a primavera que voltará.
Mas...e a folha que eu sou?


Manuela Barroso
(reeditado)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Entre as Malhas

 

Entre as malhas de um vazio cheio de rendas
são incontáveis os pontos frágeis da magnificência
ardente, na intimidade de uma solene solidão.
 
Vagueei e quedei-me exausta, penetrando
nos estilhaços púrpura desta aresta que me atropela
e se funde com os recortes que serpenteiam
os murmúrios das minhas interrogações.
A silhueta do poente adormecia a minha fome.


Manuela Barroso