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sábado, 29 de setembro de 2018

És um barco

De novo no cais!
Bem-vindos.


És um barco vestido com as cores da tua boca.
Enche-o de cascatas floridas que acompanhem
o teu exílio na renda das margens.
Incendeia a água, calma como a tua infância,
fresca como a nascente do teu corpo,
com os reflexos  dos teus olhos e o fulgor da tua luz.

Esquece os remos que te pesam,
leva a boia na intimidade da tua esperança.
Demora-te na febre da liberdade
e no fascínio desesperante do silêncio.


Manuela Barroso

sábado, 21 de julho de 2018

Sons

.V.Kush
Das profundezas da terra virão os sons que não chegam a florir. 
Não são os mastros nos destinos do vento que levam os cantos
das sereias. São os corais, as pautas onde se guardam solfejos 
bulindo nas águas, capazes de fazer renascer nos búzios os 
sons que guardam na perfeição das suas sinuosidades a 
sinfonia das marés, fazendo rodopiar os peixes num 
bailado inacabado. Os caracóis de sons completam-se 
em cascatas de harmonia onde se mergulha num êxtase 
quase profético, quase celestial. A limitação humana 
agride esta ânsia corrosiva de libertar esta torrente de 
emoções, tornando agrestes as palavras.

Cai um pingo em cada nota deste vento, deixando 
de ser som para ser estrela musical, duplicando-se 
na sonoridade que lateja insistente, nas também 
cordas do coração. 
Quedo-me absorta numa quietude branca.


MBarroso





sábado, 7 de julho de 2018

Não te direi



Não te direi nunca das pedras que se cravam no meu peito
Das rosas que nascem com o sangue das velas anoitecendo madrugadas
Nada te direi dos gemidos matando o sono que chamava pelas estrelas
Não te falarei dos cardos da infância da noite, chamando pelo vazio, no sossego das várzeas
Não te falarei da solidão dos braços cheios de ti na impotência do meu corpo
Não te falarei do enigma da tua presença no corpo que te dei, na alma que te sopraram
Dir-te-ei só que vivo sem saber que estou viva que morro cada dia que vou vivendo

E o fruto da minha carne será o cântico onde o meu colo ainda segura a vida.

Manuela Barroso




sábado, 16 de junho de 2018

Ainda cogito




Ainda cogito no esconderijo desta hibernação.

O som da flauta acorda o meu torpor.
Os galhos já se desprendem bebés em folhas tenras e inocentes,
dos ventos e beijos ardentes da canícula do sol.
É um espreguiçar doce;
os aromas contaminam a pele
e arrepiam todos os sentidos.
Ainda breves flores despontam do musgo
e os girinos passeiam por entre os limos flutuantes.

Que me banhem todas as estrelas na noite que se aproxima.
Que me dispa de tédio as línguas de sol
porque necessito de gritar 
que a alegria é o mastro dos meus dias.
Que me beije a chuva, muita chuva.
Quero navegar nos lagos largos da abundância
onde a vida se incendeia.

Hoje quero ser a rã que se espreguiça livre
por entre as flores orvalhadas da manhã,
colhendo  campestres inocências.
Já não tenho tempo para perder,
nem paciência.

Manuela Barroso, Eu Poético VII


sábado, 9 de junho de 2018

No Aqui


 No Aqui
Procuro-me na subtileza das formas.
Afasto-me de mim
e nada sou, senão um fragmento do espaço.

Numa amálgama interior,
sou o conflito entre Eu e o Conceito.

Procuro a liberdade e desperto para
a Inteligência subjacente a este Eu.
Aquieto-me na ausência de mim e vou
ao encontro da alegria de Ser.

Manuela Barroso,