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sábado, 24 de setembro de 2022

O rio secou

 

Imagem da net



O rio secou.
As fontes adormeceram as águas nas fendas obscurecidas dos montes.
Apagaram-se os olhos das cascatas.
Calou-se o ruído das lágrimas no tempo redondo dos seixos.
 
Não chores, rio, as fontes também vertem gotas no estio.
Guarda nas tuas margens os ninhos de libelinhas
e a liberdade das flores selvagens.
No teu leito despido guardas o limo seco, na ausência da tua voz.
Cala a impaciência.
A nascente é já ali na humidade da boca dos fetos e na transpiração calada dos esporos.
Ouve o sorriso da areia, no borbulhar das contas de água escorrendo nos reflexos das veias.
 A terra doa-se neste parto de amor.
A vida vai nascendo. A água salta e num breve ruído,
salpica de musgos moídos o ventre de leitos adormecidos.
E as fontes estalejam de vidas hibernadas,
na solidão e frescura das suas madrugadas.



Manuela Barroso

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Construiremos

 Queridos Amigos, depois de uma longa pausa, eis-nos de novo construindo.


 


Construiremos uma casa nas montanhas
do Lhotse com telhado de andorinhas.
Faremos um banco com musgo florido
e debicaremos a alegria na secreta abundância
da primavera
na esquina do nevoeiro 
ainda a neve
suspendendo lágrimas de frio.
 
Somos miosótis
sinfonia de maio.
As nossas asas habitarão
a corola dos narcisos.

Manuela Barroso

 

 


sábado, 16 de julho de 2022

A Luz coa

 





A luz coa a acidez das sombras  no fogo das  resinas,
definhando os nervos da terra que geme no refúgio das grutas
onde cantam os morcegos na felicidade das teias em cortinas.
 
Ninguém escutará a voz
encostada aos olhos das nascentes;
só o rosto do granito erguido
no moinho solitário, dormente.
 
Amanhece. 
Uma chuva de sol
se espalha em delírio no orvalho incandescente da ladeira
e cobre o solo tecendo arabescos na poeira.
 
O pólen desce do campanário.
Mergulhando no chão,
outras flores virão,
fazendo dele um santuário.
 
Manuela Barroso

domingo, 12 de junho de 2022

Não te peço

 





 
Não te peço que me escutes. A tua voz está 
na música que abriga a simetria do infinito. 
Explica-me, amado, o segredo da harmonia 
que se adentra no coração destes sons eflúvios  
que levam as penas da alma e abrem o sorriso 
das pupilas, num alerta que se rende ao encanto 
deste voo onde se reverencia  a ave que se esconde 
dentro de cada célula. 
Um voo que se eleva para além da física dos sons 
e semeia silêncios de lagos de longas horas.
 
Nada entendo, senão o êxtase de te ouvir 
no compasso flutuante das flautas e violinos
que me prendem a um espelho  que me ofusca,
me apaga. 
 
Basta - me o mistério deste grito interior, 
num misto de cumplicidade e alegria, 
dor e saudade  
que se exaltam neste incêndio de  magia 
como se não fora realidade.


Manuela Barroso , in "Luminescências"

 

 

 

 


sábado, 28 de maio de 2022

Despe

 

 

Despe as sandálias de vime e sobe as

veredas verdes no pico das águas de abril.

se os galhos trouxerem rebanhos de corações

nos ramos do meio dia, acompanha as setas

que se acendem nos charcos num dilúvio de rãs.

deixa esvoaçar os teus  laços na  seda  dourada

da aragem e arremessa-te  na seara grávida

de centeio em flor .

 

senta-te na paciência das escadas da infância

onde se bordam os aromas

da flor de laranjeira

num novelo branco de saudades.

 

Manuela Barroso

(Todos os direitos reservados)