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sábado, 18 de março de 2017

O Cais


 Vladimir Kush
Deste mudo cais donde embarco
solto o silêncio das amarras que me prendem aos grilhões
dos porões de navios naufragados.

Só consinto
as tatuagens das margens
no ventre das mãos ausentes de flores orvalhadas.

Desço
ao coração das águas
e mergulho no bálsamo verde do baile dos limos
numa graciosa contradança.
Troco
 os meus olhares
com a quietude dos peixes e vagueio numa ondulação
combinada  com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.

Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos.

  

domingo, 5 de março de 2017

Vieste



Vieste dentre os filhos das nuvens.
No colapso da luz
transgrediste o sinal que jazia
inerte
no crepúsculo das águas.

E fez-se noite.

No labirinto da aurora
renasciam as flores noturnas.
No compasso do orvalho,
as gotas caindo,
lavavam olhos que aos poucos
se iam abrindo.

De novo o crepúsculo.

Mas hoje, vestido de branco
e  sorrindo.



Manuela Barroso

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sons





Meus ouvidos pousam na paisagem dos meus olhos.
Os sons longínquos, os murmúrios inaudíveis
escrevem memórias esquecidas no tempo.
Desperto com este balbuciar de vozes escritas
no inconsciente
que desenham hoje aguarelas musicais
e ecoam no espaço de mim ,
no leito da minha pauta!

Neste rosário de sons,
ouço a minha paisagem com notas difusas
e que o tempo não apagou.
Continuam numa vibração contínua,
incessante,
numa sonata, só inteiramente
decifrável por mim.

E os olhos percorrem a paisagem
que os ouvidos escreveram,
fixando-se no vazio 
à procura dos sons,
que passeiam pelo espaço,
indefinidamente...


Manuela Barroso, in “Eu PoéticoVll”

                                                                            
                                             LIVRO A FAVOR DAS CRIANÇAS DE ALEPO

                                                                     ATRAVÉS DA UNICEF                 
                                                          ( Colaboração de vários autores)


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a) Valor a transferir €13 (custo do livro €10 + correio €3)
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d) Enviar a morada completa para envio por e-mail ou mensagem.
Obrigado.



sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Cinco Lágrimas por Alepo"




 Todo o produto deste livro é entregue à Dra Madalena Marçal Grilo, Presidente da Unicef  a favor das crianças de Alepo. E SÓ. Quem estiver interessado em obter o livro deixem o pedido nos comentários , por favor


CINCO LÁGRIMAS POR ALEPO


A sombra inclina-se sobre ti, Alepo.
A noite é o teu véu.
O azul que cobria a tua beleza é o fumo do fogo
com que cada dia celebram a tua morte.
O verde e as flores dos teus jardins
sucumbiram há muito amortalhando a tua sorte.
Não te deixes morrer, Alepo.
Segura os escombros que ainda sobram
e esconde entre as frestas as crianças órfãs,
que deambulando, já nem choram.
A poeira secou-lhes os olhos e dentro de cada lágrima
o medo mirrou de tanta crueldade.
Nos umbrais desfigurados das tuas ruínas
afaga as mães que se arrastam com fome de paz e pão,
pregando os olhos moribundos nas sirenes
que se misturam com o assobio dos canhões.
Atravessas o meu silêncio como um sismo enraivecido
transformando o coração num vulcão,
lava tórrida que chora em gritos de indignação.
Choro por ti, mártir Alepo.
O teu coração já não bate porque to arrancam a toda a hora,
em cada filho, na combustão das valas, onde agora mora.
Já não te pertence o teu sol soalheiro.
Anoitecem-te com o fumo ácido dos morteiros.
Gota a gota te mirram as crianças que em ti cresciam
e que agora atravessam a poeira dos escombros
outrora parte do colo onde adormeciam.
No desnorte do teu horizonte se ergue o teu nome,
escrito com teu sangue, algures no monte.
Na Abóbada que te cobre acolhe-se a Alma de que és parte.
Na potência dos fortes, querem-te sumindo.
Resiste, Alepo.
Só a putrefacção serve aos abutres famintos.

Manuela Barroso, 2017




domingo, 15 de janeiro de 2017

Manhã


Acordou a manhã com os recortes distantes
do cinzel dos abetos.
nem um cão vadio mastigava o orvalho,
nem o cheiro do pólen ruminava as sombras escondidas
nas portas da aurora
mas tudo se calava num mutismo vagabundo,
num amarelo corroído pelo tempo.

o vento permanecia enjaulado
em grades sinistras
em ausências indecisas.
os ecos persistentes da manhã 
insistiam acordar a alegria que longa no vale ,

ainda dormia

Manuela Barroso, Eu Poético Vll