SEGUIDORES

domingo, 8 de novembro de 2015

Acende as velas




 Casas de Xisto- Lousã

Acende as velas da rua
o torpor silenciou a grafia do luar
Fantasmas de luzes rastejam
na insónia das pedras
no abandono húmido do pó
É o deserto que guarda agora
os segredos destas ostras
ocas de solidão.
Dormem indefesas nas micas luzidias
em corais de saudade
 
São as pérolas do chão.
 
Manuela Barroso,  in “Laços- Dueto”- Editora Versbrava
  

domingo, 18 de outubro de 2015

Outrora






Desfez-se a geometria
Que percorria
O meu jardim.
As pétalas uma a uma
foram caindo
dentro de mim.

Minha casa, meu palácio
onde nasci
agora sombra
granito apenas
onde vivi

O meu baloiço que dançava
 rosas brancas
ficou sozinho.
Dança agora o pó branco
Do caminho!

Agora danço no baloiço do meu tempo
As miosótis azuis
No passo compassado, lento
Do pensamento...


Manuela Barroso, "Inquietudes", Edium Editores

                                               


sábado, 3 de outubro de 2015

Deito-me no sol


 Robert Hagan


Deito-me no sol amarelo, já cansado do dia.
A porta da minha casa, faminta de luz,
abre-se com o cintilar das estrelas que nascem
enquanto morro um pouco na noite.

Não me sinto e não me vejo.Vagueio por espaços
interestelares à procura de mim. Do outro eu que 
não encontro. Mesmo na morte do dia que sempre 
espera renascer de novo com a vida da noite.

Neste caminhar contínuo, cansam-me os minutos 
infindos, nesta perene peregrinação. Procuro o colo
da lua e protejo-me das tempestades noturnas onde
os mistérios se adensam na incógnita da escuridão.
E repouso o medo que entretanto me adormece.


Manuela Barroso, in "Inquietudes"- Edium Editores


                       

domingo, 27 de setembro de 2015

Silêncio



 Panov Eduard

Chego à paz da minha casa e procuro-te.
abro a porta devagarinho, espero a tua
sombra. e estás em toda a parte:
nas recordações objetivas e na saudade
das recordações!
o pensamento cai em mim provocando
um rodopio de emoções.
e fujo.
e nego.
corro, sacudindo este turbilhão que não
 quero. que não peço.
quero é a tua presença nem que seja a
 tua sombra.
outros fogem de ti, quando eu procuro
fugir de mim, para te encontrar.
quero que fiques comigo e em mim,
dentro de tudo e de nada. porque me
completas e preenches os vazios das
horas a que chamam" mortas".
ouves-me dentro dos ruídos da vida.

Manuela Barroso, in "Coletânea de Poetas Maiatos"


domingo, 20 de setembro de 2015

Escondes-te





 Panov Eduard

Escondes-te no bico das aves e no lume das águas.
O teu som penetra na sombra dos bosques
onde se difunde a harmonia.
A tua luz côa-se pelo filtro espesso
dos dedos da ramagem.
 
Tudo se esquece neste vale
onde a calma é o prelúdio da tua  música
cujas notas penetram também no seio da terra.

São ondas de êxtase acompanhando esta viagem
no murmúrio do silêncio fresco
que desperta as penas dos pássaros
no terraço da manhã.

A alegria esboroa-se no ar
em poalha de reflexos de luz
e na miragem de imagens ténues
no jade do orvalho.

Cai o pano do olhar
no veludo da erva vestida de vapores matinais.
O aroma cresce por entre campos de amoras.

Silencio o desassossego deste paraíso efêmero
e num sagrado deleite
me distancio
antes que outra sombra se deite.
 
E procuro outros vazios.



 Manuela Barroso , Antologia "Ventos do Norte"

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Troco os meus olhares



Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.
Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos. 

Manuela Barroso, in "Antologia conVida", Barbára Editora- Blumenau, 2013
Org. Anderson Fabiano e Helena Chiarello


Pausa...
...na quietude da sombras dos juncos!

Desejo a todos/as Boas Férias!

sábado, 25 de julho de 2015

Voo



Como num voo assimétrico no sopé
que contorna o declive das escarpas,
vais percorrendo o instinto da maré
que penetra na areia como farpas.  

descalço os pés brancos das ninfas belas
e na catedral da areia do chão
ergo os meus castelos, danço como elas
enquanto namoras a liberdade da ilusão

 na imagem que se pinta na espuma,
nas pegadas escritas na paisagem,
colho os beijos das conchas nas dunas.     

no areal escreves sonhos que não vi
por ser longa a distância da memória
ao querer ainda me lembrar de ti.


Manuela Barroso, Antologia "Mar à Tona"

sábado, 20 de junho de 2015

Infância


 Imagem da net
Recebo-te, minha infância na maresia dos pinheiros
com  suas folhas de agulhas, saudando o tempo de esperança
 nos fins de tarde soalheiros 

Ouço-te no estio agreste em silvos de angústia
 nos ouvidos secos dos vales, na música dos caminhos
nos ecos das madrugadas e na brancura dos linhos.

Ainda te vejo no cume da calçada
flores campestres
passeios de joaninhas e frutos silvestres

Os aromas,
ah, os aromas!
eram ausências de perfumes vadios,
presença da limpidez da primavera
recanto das raízes virgens no ventre impoluto da terra

Hoje
sou planeta, clarão sem luz que acoberta os dias que tateio
na fragilidade dos inocentes, pés acorrentados e nus

Manuela Barroso in "Laços"- Dueto, Ed. Versbrava


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Grata, Poetas Livres de Florianópolis

No encontro, flores
Na chegada, um presente
Obrigada, GPLF!

Troféu Garapuvu




Cada dia que nasce renova-se com novas tonalidades.
Assim é com a claridade de hoje!

E não é pelo "escrito" que vem a seguir, nem pelo prémio, nem tão pouco  pela divulgação.
Mil vezs Não!
Mas sim, porque a nossa Eloah do blog http://alemdosfragmentos24x7.blogspot.pt/, querida amiga de há tantos anos e cuja amizade cresceu através dos nossos blogs , vai aterrar no aeroporto Sá Carneiro para nos conhecermos pessolamente, dentro de poucos dias.
É assim, uma forma simples  de lhe prestar a minha homenagem, já que este prémio foi obtido no Grupo Poético a que pertence.

E se , meus amigos/as, por vezes nos debatemos com a solidão, a fome de amizade no mundo, as incógnitas da internet ( e quantas!) , amizade virtual  (fictícia),  eis o testemunho da minha verdade: tenho encontrado amigos/as fabulosos/as.
Sendo eu  transparente  por natureza, tenho recebido os mais puros e cristalinos  reflexos nas amizades, verdadeiros diamantes que aqui tenho encontrado.
Aqui não são os "likes" que nos preenchem.
Aqui, há um desfolhar de alma que nos leva e nos deixamos ser levados pelo mesmo estado e alma.
Pelo coração.
Daí o conhecermo-nos mais , porque mais nos expomos.

Obrigada, minha querida amiga Eloah pela tua visita.
A tua sobriedade espelha-se  na belíssima poesia calma e doce que escreves  e que é o reflexo de ti.
Mas não pensei nunca que os nossos comentários fossem o preâmbulo de uma grande amizade  em que a distância e o espaço,  não têm voz.

Implícita fica a minha gratidão e  amizade a todos/as os que me  presenteiam com a vossa presença e palavras tão amáveis!
A todos muito estimo.

Beijinho!


 Prémio- 2º lugar- do Grupo de Poetas Livres de Florianópolis

Descansa aqui.
Sobrevoa o mistério da vida que percorre os interstícios das pedras.
Não te perguntes pelos ventos e as cores e as flores.
Vive nelas.
O canteiro está dentro de ti.
Não importa de onde venham as flores e as estrelas.
Não te perguntes.
Acalma o frio das perguntas olhando só para elas.

Na exaustão dos porquês, tens as respostas no êxtase do teu olhar.
Revê-te nelas.
E tu não sendo uma estrela és muito maior que elas.
Pousa depois o teu olhar no regaço do Universo
e tens toda a poesia num só verso.

E enche-te da paz que desce até ao umbral da tua porta
e deixa entrar
ela
e o luar.
Convida-a se quiseres para ficar.

Eis o belo da vida num só olhar:
a companhia das estrelas que sentadas na tua escada
vêm descendo calmamente de luz em luz,
iluminando os teus olhos
para depois tu e elas, contemplar.
E há tanto para amar!

                                             Manuela Barroso

 Grupo de Poetas Livres de Florianópolis
 2º Lugar  no 10º Concurso On-line “Alzemiro Vieira “, 2014

 Em 4 de Dezembro 2014





Para ti, Eloah, um canto de paz na alegria dos montes.
Aqui, a giesta e a urze crescem, mesmo longe da água das fontes...


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ontem



Ontem vi o teu coração nos olhos das pedras.
Pesavam no meu peito.
Ouvi sílabas de silêncios em buracos cravados
no chão, bocas abertas na noite em tentáculos
de estrelas navegando solidão.

Eras a luz escura
em tetos de alvorada
nos braços da lua.
  
Caminhei com o vento
nas ondas do teu corpo,
tão vagarosas e longas,
tão lentas e tão noturnas.

Desci as madrugadas que dormiam
no meu rosto, lençóis de bruma fria
renda orvalhada, reflexos de sol posto
nesta tarde ainda molhada.

Bebi cheiros de espuma que nasciam 
do teu corpo em impertinências famintas .

Veio o vento.

Levou o aroma
já morto.

Manuela Barroso, in Antologia Poetas Lusófonos

  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Não esqueças




(Gerês)

Não esqueças nunca
ao debruçar-te no mar que és parte do sargaço
abandonado na areia
um fragmento do Espaço

E quando vagueares pelas searas
das estrelas que o céu tem
também elas são de ti, fazes parte do Infinito
são um cristal também

Não esqueças  nunca
que és cristal em harmonia
em eterno movimento
em contínua  mutação
composta no teu silêncio.

Neste ritmo em consonância com a música do Universo
somos cristais tão perfeitos neste declive de sombras
sendo todos um só verso

MBarroso  e TGonçalves
in” Laços”- Dueto, Edições Versbrava

domingo, 19 de abril de 2015

Partem-se...



Partem-se os corações na seiva das pedras.
Procuras  o silêncio dos bosques  quando o
silêncio mora no silêncio do peito. Procuras a
alegria no tédio da noite, quando a luz te visita
cada dia.
Alonga os teus olhos e derrama o teu olhar nas
bolsas tenras das copas das árvores, no rebentar
das águas com pressa de nascer.
Busca a tua primavera e reparte-a como pão com
a fragilidade com que te mendiga o teu irmão.
Lê no planalto a lonjura dos cometas, deixa-te perder
na vastidão do oceano azul do céu  e dorme acordado
na imagem deslumbrante da paisagem.
E sobe o monte de nuvens nas pegadas da brisa que
te levam ao esplendor do mistério dos buracos que
são negros de luz.
Espraia os sentidos pelo caminho que pisas.
Nas orlas das estrelas, espera-te o tempo que não
tens e a fome de poentes azuis.
Aproveita o tempo que te dá a tua idade.

Maravilha-te na planura da tua liberdade.

Manuela Barroso

Adenda em 21/4- Amanhã dia 22-04, pelas 21H, estarei na Hora da Poesia, nesta rádio: http://www.radiovizela.pt/





domingo, 12 de abril de 2015

Deste mudo




Deste mudo cais donde embarco
só o silêncio das amarras me prendem
aos grilhões dos porões de navios naufragados

Só consinto as tatuagens das margens
no ventre das mãos ausentes de flores orvalhadas

Desço ao coraçáo das águas
e mergulho no bálsamo verde
dos limos numa graciosa contradança
...


Manuela Barroso, in "antologia conVida", Bárbara Editora

segunda-feira, 23 de março de 2015

Na planície...



 Na planície verde dos sonhos, as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos
É a única voz que perfuma o pão desta fome de silêncio

Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem que salta da pele plana
e quieta dos charcos
Sigo o vaguear inquieto das libélulas arrastando consigo
o sono dos nenúfares

Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.

Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas.

Manuela Barroso, "Eu Poético"