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sábado, 7 de março de 2020

Não me apetece



  
Não me apetece...
Não me apetece…

Não me apetece escrever
Não me apetece sair
Não me apetece falar
Não me apetece beijar
Não me apetece sorrir…

Não me apetecem os dias
Não me apetecem as noites
Não me apetecem manhãs orvalhadas
Não me apetece o pôr-do-sol
Não me apetecem as gargalhadas…

Não me apetece ver gente
Não me apetece mentir
Não me apetece ensinar
Não me apetece fugir…

Apetece -me não me apetecer
Apetece-me recordar
Apetece-me olhar o nada
Apetece-me pasmar…

Tudo ou nada, tanto faz
Tanto faz Outono, inverno
Tanto faz viver, morrer…
Mas não! Dá trabalho apetecer!..


Manuela Barroso   -   “Inquietudes”, 2012



sábado, 22 de fevereiro de 2020

Deusa do Bosque



 As ondas das árvores são o balancear da melodia
onde te encontro, num caudal de chilreios desatinados.
A foz é o oásis onde permaneço numa hipnose
tão lúcida!
Cada folha é a nota musical onde repousam
os meus sentidos.
A morada deste corpo consome-se e funde-se
com a terra cravejada de folhas num soalho
feito mortalha, nesta eterna canção a sós.

Pousa em mim, ó deusa do bosque, e rodeia-me
de labirintos de luz.
Entorpece-me com esse relâmpago, onde procuro
um olhar que se perde nas sombras, afogando-se
num sono esquecido.

Fica comigo, deusa, acendamos um fogo que ajude
a pernoitar sob o manto da tua proteção.
Que as labaredas sejam o cálice de brisa quente
acalentando este cansaço abandonado na viagem
que tarda. Volta a adormecer-me antes que ela arda
na cinza da tarde.
Arrasta as violetas do bosque. Quero deleitar-me
com o perfume roxo do coração vertido na sua imagem.
Inunda o vale de insónias para que respire
a  madrugada até à última gota de orvalho.

Quero voltar a adormecer na incandescência do sol,
subir na vertigem das heras, onde se refugia o rouxinol.



Manuela Barroso



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Sons



 Foto da Net
Das profundezas da terra virão os sons
que não chegam a florir. 
Não são os mastros nos destinos do vento
que levam os cantos das sereias.
São os corais, as pautas onde se guardam
solfejos, bulindo nas águas, capazes de fazer
renascer nos búzios, os sons que guardam na
perfeição das suas sinuosidades a sinfonia das marés,
fazendo rodopiar os peixes
num bailado inacabado.

Os caracóis de sons completam-se em cascatas de harmonia
onde se mergulha num êxtase quase profético, quase celestial.
A limitação humana agride esta ânsia corrosiva de libertar esta
torrente de emoções, tornando agrestes as palavras.

Cai um pingo em cada nota deste vento, deixando 
de ser som, para ser estrela musical, duplicando-se 
na sonoridade que lateja insistente,
nas também cordas do coração. 

Quedo-me absorta numa quietude branca.


Manuela Barroso-" Luminescências"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Não te peço


      
 Não te peço que me escutes. A tua voz está
na música que abriga a simetria do infinito.
Explica-me, amado, o segredo da harmonia
que se adentra no coração destes sons eflúvios 
que levam as penas da alma e abrem o sorriso
das pupilas, num alerta que se rende ao encanto
deste voo onde se reverencia  a ave que se esconde
dentro de cada célula.
Um voo que se eleva para além da física dos sons
e semeia silêncios de lagos de longas horas.

Nada entendo, senão o êxtase de te ouvir
no compasso flutuante das flautas e violinos
que me prendem a um espelho  que me ofusca,
me apaga.

Basta - me o mistério deste grito interior,
num misto de cumplicidade e alegria,
dor e saudade 
que se exaltam neste incêndio de  magia
como se não fora realidade.

Manuela Barroso, “Luminescências”





terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Despem-se as árvores



Despem-se as árvores, veste-se o chão,
vestem-se os rios de madrugadas.
Despe-se o dia de tantas aves,
veste-se a noite de sombras caladas.

De alegrias te vestes, sorrisos mansos,
olhos de sal, de tantas  gotas,
as mãos se abrindo em amor e remanso.

Veste-se a boca de tanta ofensa 
monólogos longos em sobressalto
nos gritos que ditam sua sentença.

Vestem-se os ouvidos de tanta injúria
palavras loucas, voz sem espaço
no cristal que fere com a maior fúria.

Veste-se o sol de alegria,
e as madrugadas de fresco orvalho,
veste-se de penumbras e sombras o dia-a-dia
Assim é a vida: uma manta de retalhos.

Manuela Barroso