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domingo, 19 de abril de 2015

Partem-se...



Partem-se os corações na seiva das pedras.
Procuras  o silêncio dos bosques  quando o
silêncio mora no silêncio do peito. Procuras a
alegria no tédio da noite, quando a luz te visita
cada dia.
Alonga os teus olhos e derrama o teu olhar nas
bolsas tenras das copas das árvores, no rebentar
das águas com pressa de nascer.
Busca a tua primavera e reparte-a como pão com
a fragilidade com que te mendiga o teu irmão.
Lê no planalto a lonjura dos cometas, deixa-te perder
na vastidão do oceano azul do céu  e dorme acordado
na imagem deslumbrante da paisagem.
E sobe o monte de nuvens nas pegadas da brisa que
te levam ao esplendor do mistério dos buracos que
são negros de luz.
Espraia os sentidos pelo caminho que pisas.
Nas orlas das estrelas, espera-te o tempo que não
tens e a fome de poentes azuis.
Aproveita o tempo que te dá a tua idade.

Maravilha-te na planura da tua liberdade.

Manuela Barroso

Adenda em 21/4- Amanhã dia 22-04, pelas 21H, estarei na Hora da Poesia, nesta rádio: http://www.radiovizela.pt/





domingo, 12 de abril de 2015

Deste mudo




Deste mudo cais donde embarco
só o silêncio das amarras me prendem
aos grilhões dos porões de navios naufragados

Só consinto as tatuagens das margens
no ventre das mãos ausentes de flores orvalhadas

Desço ao coraçáo das águas
e mergulho no bálsamo verde
dos limos numa graciosa contradança
...


Manuela Barroso, in "antologia conVida", Bárbara Editora

domingo, 14 de dezembro de 2014

Num dia de Inverno


 

 
O rosto do sol refletia-se no imenso oceano de luz, liquefeita na espuma das ondas rebeldes.
Tentava pousar o pensamento, aquietando-me nesta varanda donde tudo se expandia: terra e mar, deleite e beleza, serenidade e meditação.
Contudo, algo perturbava esta paz que queria desesperadamente agarrar como se fosse o único momento de deleite da vida, nestes minutos que o sol aquecia.
Queria agarrar todas as palavras que devolvessem a minha incapacidade de comunicar toda a paixão e envolvência. Uma espécie de luta entre o Eu e o pensamento, entre o espírito e a fragilidade humana, de um cérebro pequeno demais para tão grande exacerbação.
Parava e olhava o limite do horizonte, o fulgor deste prateado aquoso e a alegria sorridente do meu sol.
E a cortina longa pendurada no vento, dançava com a música dos meus olhos e o ritmo surdo, ruidoso e atrevido das ondas longas e gigantes do mar da Ericeira
Mais um olhar e perdia-me neste vai-e-vem deliciosamente inquietante, donde me ausentava e perdia por segundos como se fosse uma miragem.
Deixei o sol, a caminho dos subúrbios do poente, enquanto a vidraça aquecia a mão fria do inverno.
Eu, fechei os meus dedos, apertando as palavras, onde também batia o coração.
Nele sentia agora também a repercussão das cintilações e do bailado do Universo.
 
Manuela Barroso
     Dez. 2014

 

domingo, 30 de novembro de 2014

Um adeus



 Imagem da net
  
 HOJE sinto as dores da partida naquelas vidraças
 turvas, engolindo os olhos daquela tarde de outono.
sinto o frio no peito e o negro da laje sombria
onde não te encontras 
escolheste  a pureza do fogo onde não passeiam
larvas no breu da terra
sinto o peso da ausência no fogo, reduzindo a pó
tudo o que tiveste 
a cinza deixará para sempre a imortalidade da tua
essência naquilo que foste. que quiseste

desceste num trago lento, algures no caminho do adeus.
fecha-se a boca do chão. ficou o nada no  vazio da tarde
em redemoinhos de folhas na dispersão da areia 

tudo se apagou

renascerão as memórias
em tudo o que se semeia

hoje sinto.


Manuela Barroso, “Eu PoéticoVI”

  



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Que caminhos...



Que caminhos são estes que se abrem
Dentro de mim sem sentir?
Que forças me arrancam do peito
Esta fome de partir?
Para onde vou?
Donde venho?
E onde pretendo chegar?
E esta luta constante
De procurar e buscar?
Porque não cais, coração,
Dentro de tão pequeno peito?
Porque saltas sem parar?
Não!
Para tal foste eleito!

Abranda a correria
Vais a tempo de chegar
Embora o tempo te fuja
Não corras! Vai devagar!
Olha que a vida é amor
Ternura, contentamento
Dá-me a mão, quero o calor!
Dá-me a paz deste momento!

 Manuela Barroso, In "Inquietudes" Edium Editores