SEGUIDORES

domingo, 8 de dezembro de 2019

Ouve, não te ouço



Ouve, não te ouço.
A vidraça que me cerca esconde a voz cadenciada
das ondas desgrenhadas, penteando-se nos rochedos
em cabelos desfiados, enfeitados de búzios numa sedução
feiticeira .
Um fio longínquo define os limites deste espelho inacabado,
Sem os traços do teu rosto.
Procuro no sargaço as avencas da praia, nos gritos de fome
do verde.
No bosque das ondas, levantam-se árvores de espuma nos
uivos dos canais de vento. O murmúrio longínquo desta agitação
tão inquieta ,estremece o canavial do pensamento numa confusa
maré cheia. 

Quero o ciciar das agulhas nas dunas e aí fazer o meu ninho
no silêncio morno da areia.
E florescerão das brancas plantas dos corais,
a sede do beijo na lentidão do adeus,
no longo abraço do cais.

Manuela Barroso



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Desejaste



Desejaste um campo de poemas
na flor da noite.
Acompanham-te sombras de ardósias
e açúcares de lua.
No abismo do sono, colhes rosas negras
na alegria da noite
e na sonolência dos astros dormes
o abandono do teu corpo.

Descobres um veleiro em viagens submersas
e rumas ao sul de todas as poeiras
para encontrares o poema da vida
mesmo nas correntes mais adversas.


Manuela Barroso, "Luminescências"


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Água






Água.
Eis o laço que enlaça este corpo nos atritos da terra.
a densidade –nega-lhe os ímpetos de voar.
basta um sopro.
um murmúrio na nascente,
uma brisa na corrente
e ruma ás nuvens
enraíza-se no ar.

na música branca do dia,
no reducionismo das nuvens
a semântica da vida.

Manuela Barroso 

sábado, 19 de outubro de 2019

Na Música das Pombas



Na música das pombas, notas de folhas amarelas e tintas de outono. 
Debico a alegria de te saber escondido, ainda que entre os ramos desnudados, 
e sorrio à procura de ti. 
Nas folhas bamboleantes num adeus à casa, 
cai a nostalgia da impermanência do tempo. 

As pingas começam a desprender-se da tatuagem das nuvens, 
amansando o reboliço do tapete de ferrugem. 
E a beleza da ainda perfeita folha, aceitando a breve transformação do limbo, 
aquieta-se resignada de pousar em breve no pó lamacento, 
tocada com a suavidade delicada das pegadas das pombas.

Somos a folha caída de outono à mercê deste tempo finito, 
aceitando resignados os sulcos que a vida lavrou. 

Breve, num adeus ao outono e à vida, 
somos outras folhas caídas que o chão mastigará. 
E outra primavera virá.


Manuela Barroso



quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Deixa que o deserto





Deixa que o deserto seja o oásis e a areia seja o mar
desta quietude branca que corre e avança
no seu jeito de abraçar.
E  que cada flor de areia
seja olhos do deserto
tão distante mas tão perto
tão árido mas tão liberto
onde correm as palavras nas pegadas do verso.

Que subam, que desçam nas dunas
em grãos de palavras ao vento
que não penso, nem quero, nem digo
acorrentadas às algemas dos  meus pés nus
de mendigo.
Que se enterrem na areia das minhas mãos, os seus dedos,
que sequem ao sol
na sombra vagabunda do medo.

Hoje sou a liberdade no esqueleto mudo do segredo.


Manuela Barroso, in "Luminescências"