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sábado, 16 de julho de 2022

A Luz coa

 





A luz coa a acidez das sombras  no fogo das  resinas,
definhando os nervos da terra que geme no refúgio das grutas
onde cantam os morcegos na felicidade das teias em cortinas.
 
Ninguém escutará a voz
encostada aos olhos das nascentes;
só o rosto do granito erguido
no moinho solitário, dormente.
 
Amanhece. 
Uma chuva de sol
se espalha em delírio no orvalho incandescente da ladeira
e cobre o solo tecendo arabescos na poeira.
 
O pólen desce do campanário.
Mergulhando no chão,
outras flores virão,
fazendo dele um santuário.
 
Manuela Barroso

domingo, 12 de junho de 2022

Não te peço

 





 
Não te peço que me escutes. A tua voz está 
na música que abriga a simetria do infinito. 
Explica-me, amado, o segredo da harmonia 
que se adentra no coração destes sons eflúvios  
que levam as penas da alma e abrem o sorriso 
das pupilas, num alerta que se rende ao encanto 
deste voo onde se reverencia  a ave que se esconde 
dentro de cada célula. 
Um voo que se eleva para além da física dos sons 
e semeia silêncios de lagos de longas horas.
 
Nada entendo, senão o êxtase de te ouvir 
no compasso flutuante das flautas e violinos
que me prendem a um espelho  que me ofusca,
me apaga. 
 
Basta - me o mistério deste grito interior, 
num misto de cumplicidade e alegria, 
dor e saudade  
que se exaltam neste incêndio de  magia 
como se não fora realidade.


Manuela Barroso , in "Luminescências"

 

 

 

 


sábado, 14 de maio de 2022

Deixem

 



Deixem soltar os respiros das flores.

Há vagas de alegria nas sedas que me

fogem das memórias e palavras que

morrem de saudades.

 Há delírios nos sonhos que emudeceram

e torpedeiros que matam a primavera do

meu tempo.

 

Deixem passar o pólen,

deixem que sejam as abelhas

a fazerem a guerra.

Só quero o mel que me resta ,

abraçar o mundo,

sorrir como as crianças.

fazer da vida uma festa.


Manuela Barroso

(Todos os direitos reservados)


terça-feira, 1 de março de 2022

Paz

 


Enquanto o clamor das sirenes e o atordoar das bombas galopam incendeiam os céus, tento aquietar o pensamento dos devaneios imparáveis numa penitência tão, mas tão penosa!

As minhas luminescências são agora os relâmpagos cravados na memória cansada de tantas imagens coladas em incessantes tatuagens numa dolorosa impiedade.

A execrável insaciedade e ganância do materialismo ramifica-se em garras de nuvens negras num injustificado sadismo bélico fratricida onde as imagens de crianças são a mais dura faca que atravessa o coração dos mais fortes.

Incapaz de gerir este doloroso dia a dia, refugio-me na serenidade relaxante da música que me vai acalmando e da oração das Ave- Marias , numa fuga desmedida desta escuridão terrena , plena de  perversidade de actos e desvalorização do plano espiritual, suporte das nossas fragilidades humanas e do qual somos as suas Criaturas.

Refugiando-me na casa da minha Paz interior, a minha imaginação vagueia por  bosques, vales , prados, sol-poente ou a aurora do dia . E  aquieto o meu sono colo da Virgem Maria.

 

Manuela Barroso

 


sábado, 22 de janeiro de 2022

110 Anos , 110 Poetas - Universidade do Porto


Antologia Comemorativa dos 110 Anos da Universidade do Porto


No 110 º Aniversário da Universidade do Porto, tive a honra de ser convidada 
a participar com um poema para assinalar esta data, na Antologia Comemorativa dos 110 anos com a organização da Professora Dra Isabel Morujão, docente neste estabelecimento de ensino.
Perante as pessoas de talento e enorme estatura literária que passaram durante este tempo por esta Universidade, senti uma enorme responsabilidade perante tal  convite. 
Daí o meu obrigada por fazer parte desta Antologia.


Capa



Contra-capa




Excerto

 ...
Paralisa-me o sorriso híbrido,
o sufoco da irrequietude humana
na voragem cega do cinza ácido de cada dia.
É neste caminho opaco
que encontro a voz que me fala dos segredos
que guardo e não ouço.
Aquieta-me a juventude mansa
do borbulhar de tudo o que nasce
no assombro da Criação.
E tudo para nesta prisão de liberdade
que sinto,
que vejo
e escuto
numa harmonia sinestésica de um piano de minutos
escorrendo vagarosamente no tempo.
 
...
  
A memória adormecida
é cometa na comporta do silêncio,
é o suporte da alegria primaveril que não se escoa,
hoje veleiro e utopia,
flutuando nos tentáculos
de tudo o que não é pessoa.


Manuela Barroso
Alumna FLUP ( 1º Curso de FR-1968)
Inédito

Manuela Barroso