SEGUIDORES

sábado, 4 de janeiro de 2014

Ouve, amado



Ouve, amado, não te ouço.
A vidraça que me cerca esconde
a voz cadenciada das ondas desgrenhadas 
penteando-se nos rochedos em cabelos desfiados 
enfeitados de búzios numa sedução feiticeira .
Um fio longínquo define os limites deste espelho inacabado 
sem os traços do teu rosto.
Procuro no sargaço as avencas da praia 
nos gritos de fome do verde. 
No bosque das ondas 
levantam-se árvores de espuma 
nos uivos dos canais de vento. 
O murmúrio longínquo desta agitação tão inquieta 
estremece o canavial do pensamento 
numa confusa maré cheia  
Quero o ciciar das agulhas nas dunas 
e aí fazer o meu ninho 
no silêncio morno da areia.
E florescerão das brancas plantas dos corais 
a sede dos abraços
na lentidão do adeus, 
nos longos beijos, no cais

Manuela Barroso, in "Eu Poético VI"
Imagem-net