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sábado, 29 de outubro de 2011

Sons

Foto Anjo Azul - Abadia

Adormeço entre a folha e o tronco rugoso, numa sonolência confusa,
no rumor de uma sombra absurda e imperceptível,
que se levanta com o pensamento
do vento.
Ouço a lembrança das horas líquidas, longas e suaves,
estendidas no arvoredo da colina densa,
na saudade plangente do sino perdido na Torre imensa.
Ouço o abandono do silêncio
Vazio
na escuridão Surda da Noite,
que cresce com o abandono alheado da lua,
na cegueira das nuvens revoltas
desenhadas na Terra Nua.
Nos sons longínquos que dormem, nos fumos  crescentes
do inconsciente,
ouço Vozes  plangentes de água
que florescem em cataratas luminosas,
na penumbra silenciosa
da saudade. E o sussurro penetra o jardim
com a música das flores
em sonhos de primavera, grávidos de esperança e de Mim.
Os zumbidos das hélices de insetos
entardecem a solidão no sopro impercetível do baile suave
das borboletas.
Estranho som.
Estranha ilusão,
neste silêncio
que desce
que dorme em flores
na minha mão. No horizonte
deita-se o fim do dia,
com a canção da torre em harpas de Avé -Marias.
E as badaladas diluídas
do Sino,
são hoje as badaladas perfumadas da minha Noite.
Sinfonia do Universo tocada na catedral de Mim
como um Hino.

                                            Manuela Barroso
                                                                                                     

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Sinto



Sinto a sombra que anoitece
na noite que calma, desce
Sinto o vulto da mão da lua
que sacode a minha noite
na escuridão que me dói
Sinto o canto das fontes ligeiras
invadindo a liberdade
que me entristece,
me constrói
Sinto o vento em voz suave
na ligeireza leve
da luz que anoitece
Sinto a liberdade dos sonhos
nos jardins inconscientes dos segredos
 que se perdem
no sopro lívido da noite sem medos
Sinto os laços ofuscantes e fluidos da harmonia
escritos na boca das flores
em sorridente geometria
E sinto a vida presa
na corda fugaz, fria e estranha
do tempo difuso
numa ansiedade tamanha...
 que as horas que correm paradas
 são momentos que recuso...
Numa solidão de fios
divididos no pensamento,
sobe a ânsia de encontrar-te
num crescendo movimento.
E eu nunca estive aqui.
Fui um simples meteoro.
Atravessei  ares inóspitos
com sentimentos incógnitos.
 Evaporei  com o sol
...Desapareci...  
     
Manuela Barroso
                                                                                                                                                                                                                                                          

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Vindimas II


 A tarde ia descendo nesses Outonos, como descem os Outonos da vida...
A noite ia anoitecendo as gaipas na sombra das parras.
As uvas deixavam-se escorrer, e um odor forte penetrava nas paredes da adega enfeitada de enormes tachos de cobre que em breve seriam o palco dos salpicos da marmelada escaldante, onde fumegava como lava incandescente...
A cozinha fervilhava em grandes panelas de alegria...
Mesa grande, colorida!
E tudo seria normal não fora as recomendações peremtórias de meus pais...
...para... “agora as meninas subirem”...deixando o trabalho seguinte no segredo dos deuses...
Morrida a tarde chegava a hora de começar a nascer o vinho em casa só de parteiros...
Eis o mistério feito de segredo e onde as vozes masculinas, ecoavam por todo o quintal já escurecido.
...e conforme subíamos os degraus da escadaria, subia a curiosidade na incompreensão de tal afastamento...
-Os homens vão sovar as uvas...- Eis o aviso!..
 E... ponto.
Não compreendíamos por que razão, uns pés nus, pisando repetitivamente bagos e ossos de bago... tudo era tão envolto em tanto pudor e afastamento!
...e...oh, Deus... como recordo!...
Olhavámo-nos nos olhos inocentes, mas já malandros de meninas irrequietas, e combinamos descer a curiosidade... escadaria interior abaixo, pé ante pé, até este mundo masculino, feito de braços e pernas musculadas...
...e...”ora espreitas tu...ora espreito eu”...
E como uma dança, em tapetes de bagos, cheiro a mosto ainda por fermentar, os pés pisavam as uvas...as pernas tingiam-se de sangue tinto...em caminhadas circulares passo longo... tempo longo...monótono...só quebrado pelo ritmo das conversas, também elas circulares...e onde a polpa vermelha das uvas, se colava à penugem farta das pernas longamente nuas...
Tudo seria tão banal, não fosse o fato, de termos finalmente entendido que as ordens proibitivas, era porque os nossos heróis pisavam as uvas em trajes menores!...
...e não fora algum “percalço”(...), espreitar (...) a qualidade do vinho desse ano(...)
...Hoje, prendo com um grande encanto essa imagem no meu peito...
...agarro-a à minha infância...
... e emolduro-a com o meu silêncio...
...onde ficará para sempre preso o meu sorriso!

Lembras-te Lili?
Sabes?
...simplicidades nossas...

                                                                                Manuela Barroso

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Vindimas - I


Foto de Rui Pires

O tempo ia caindo como pétalas cansadas de flor vazia ...
Abrem-se caminhos solitários nas encostas, sem o sol da primavera que sempre explode em sorrisos e cascatas de cores, desafiando floresceres.
 Mas agora, a vida começa a amarelecer, adormecendo com ela o sol suave e macio dos crepúsculos morrentes das tardes mornas...
E no pensamento desenham-se parras e cachos pendentes com cheiro a mosto e fim de verão...
As vinhas sobem, deixando sacudir seus vestidos já gastos, que envolvem os bagos carnudos, com seu pudor de menina...
Manhã!
Um cheiro a orvalho enche a alma de terra toda. Nas ramadas altas do Minho, antes, só os homens trepavam as altas escadas com cestas de verga
e cujo gancho prendiam nos degraus espaçados, num assalto feito de conversas e sorrisos masculinos, arrancando os cachos sem mimos...
 ....e os bagos caem no chão como lágrimas pretas e lágrimas brancas...
...e o chão semeado de bolas pretas e brancas, esperava carícias de mãos pequeninas...
E da brincadeira a sério passávamos à brincadeira a brincar...com os adultos a tartamudear que “ o trabalho de criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco...” ...e era assim que entrávamos no baile das vindimas, envolvidos nesta festa de Outono.
E bago a bago, colhíamos as lágrimas que também eram sorrisos...
E juntávamos os bagos aos cestos empanturrados de uvas como se cada bago fosse um cacho onde ia um pouco de nós.
Costa acima, os cestos passeavam nos ombros até ao lagar de granito para uma primeira transformação que se repetia durante o dia.
 E o peso não diminuía o sorriso, porque era o peso da alegria que não pesa. Sabiam que dentro em pouco esse néctar seria imprescindível para celebração de festas que uniria pactos e factos até novo Outono.
E as folhas ficavam mais nuas.
 E eu sentia-me mais só.
O céu já não se enfeitava de estrelas pretas...E como que numa saudade que vai morrendo, eram deixadas gaipas (pequeninos cachos) aqui e além para matar saudades dos bagos que púnhamos no regaço, onde como num lançamento de dardos, feitos de alfinetes, eram saboreados só quando pescados pelo anzol da habilidade ou do destino...
Simplicidades de menina...

(continua...)