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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Escrevo-te

 


Christine Ellger




Escrevo-te  no sol desenrolando penachos de 
nuvens na bebedeira dos catos antes que morra 
no outeiro da tarde. Escrevo-te toardas sombrias, 
que correm entre mim e ti,  e  que tento em 
vão decifrar. Perdem-se nos confins, nos labirintos 
das memórias no grau zero da escada, ponto 
onde escuto o nada. Só ouço remansos, volto, 
escolho descansos, aninho-me no canto do 
meu lugar. Acorda-me uma gaivota. Afinal 
a luz existe. Porque não corres com ela? Sei.

És pássaro sem asas. Mas plana com teus braços 
feitos remos neste mar que é a estrada. O sol 
vai alto. Até ao sol- pôr vive cada minuto 
em desmedida cavalgada. Liberta te,solta-te 
já que a vida é só um salto.


Manuela Barroso
 

 



 


segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Tropeçando

 






Ainda arrebatada pela opulência do sol
vou trpeçando nestas folhas de Outono que me dizem adeus.
São folhas demais em mais uma tarde no adeus de outro dia.
Os olhos arrastam-se com as folhas com fome de vida
e rolam com o arrepio cruel do vento, na boca aberta dos túneis,
nos aquedutos sombrios, no esgoto da  noite num redemoinho
cruel e selvagem num silêncio sem retorno.
 
Morrem nos meandros das feridas no desprezo do verde.
A nortada varre este castanho que esvoaça com gaivotas em desalinho.
Percorro a tempestade desvairada que arrasta inércias entregando-se
ao campo branco do mármore.
 
Tento decifrar o segredo da linguagem encarquilhada deste caudal
moribundo mas  oh, insignificância humana, deparo com a limitação da matéria
neste corpo que se transforma lentamente num bosque de musgo onde
começam a nascer líquenes de saudades.


Manuela Barroso
In "Poemas Oblíquos"



segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Caminhar

 E caminhamos já para o Dia de Reis que desejo seja feliz para todos ao som das Janeiras!



 

Caminhar!
Eis o intransitivo de cada dia, de todos os dias, quiçá o dia todo...
Estranha sensação esta que assola o pensamento.
Caminhamos sempre para algum lugar, em alguma direcção, algures no tempo e no espaço!
E sempre pé ante pé, percorremos as horas dos dias muitas vezes à procura de nada ou de alguma coisa do nosso tudo...
E preenchemos os nossos vazios nesta peregrinação contínua como se caminhássemos instintivamente para uma chegada que tarda ou se esconde...
E de porto em porto...tentamos apanhar o barco que nos leva a outra margem...
E atravessamos sentados estas águas, neste barco ,que nos aquieta, porque nos perdemos nas brumas esquecidas do nosso inconsciente...

E aproveitamos para apascentar os nossos olhos nas águas verdes do nosso rio, do nosso mar
E o pensamento pousou no silêncio do Eu...onde o caminhar se interrompeu...
...E o tempo parou...
Mas todas as travessias são um espaço entre margens...
Entre o Aqui e o Além...
Entre o Hoje e o Amanhã...
...E defrontamo-nos com o Agora...
E votamos a caminhar, percorrendo o nosso caminho...
...E a Vida é um contínuo caminhar entre espaços, neste tempo do nosso tempo, no nosso espaço, em direcção a um tempo futuro...
Chamam-lhe trabalho...
...Diria, sim, que é uma peregrinação metafórica colectiva...clandestina...inconsciente..à procura da Consciência Cósmica!
Meditações...


Manuela Barroso




segunda-feira, 23 de outubro de 2023

DÓI

Queridos amigos, a minha ausência deveu-se e deve-se ainda  a problemas de saúde.

Volto com as saudades de uma andorinha mas com a sombra triste do fumo que nos cobre de dor.


  

Enquanto o clamor das sirenes e o atordoar das bombas investem incendiando os céus,
tentas aquietar o pensamento no redemoinho dos devaneios imparáveis
que se fazem no peito amordaçado.
Os teus remansos são agora os relâmpagos cravados na memória cansada
de tantas imagens coladas em incessantes tatuagens numa dolorosa impiedade.
 
As gentes são hoje migalhas de nada jogadas no pó da terra
num vazio sem dor.
Rosas jogadas no deserto na vertigem do estertor da Terra.
 
A execrável carnificina humana ramifica-se em garras de fumo negro
num injustificado sadismo bélico fratricida
onde as imagens de crianças sem nome são a mais dura faca
que atravessa o coração dos mais fortes.
 
Até quando, meu Deus, até quando?
 
 
Manuela Barroso

 

 


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

À Deriva sem margens

 



 

 
Estou cansada!
Já não sei nem ouso coisa nenhuma
porque cansei de depender
ter que escolher ter que dar
sem ouvir a razão o bater do coração  
de ter que repetir
cansada da publicidade das inverdades
"ratings" inflação desorganização
Banalização do amor da morte da dor da promiscuidade
do poder financeiro do poder político da corrupção
sem solução
e dar… dar… dar sem que eu queira sem perguntar
se quero se posso...
E guerra tanta guerra por tudo por nada
crianças velhinhos almas penadas
sem tudo com nada
 
Cansei!
Uf! Que cansada!  
 
E queria tanto a paz construir paz partilhar paz
Mas o ruído é tanto...que não me ouço mais!
Estou cansada muito cansada!
 
Partilhei o turbilhão
agora a procura de abrigo
para  descansar no silêncio
esta inquietação.
 

 

Manuela Barroso


 

 

 


sábado, 24 de setembro de 2022

O rio secou/ Graça Pires finalista da lista PEN Club

 

Os Amigos estão presentes em todas as horas.

E esta é a hora de aplaudir e me regozijar  com a presença da nossa grande Graça Pires na Lista dos Finalistas do Prémio PEN CLUB 2022.

Muitos Parabéns, querida Amiga!


Imagem da net



O rio secou.
As fontes adormeceram as águas nas fendas obscurecidas dos montes.
Apagaram-se os olhos das cascatas.
Calou-se o ruído das lágrimas no tempo redondo dos seixos.
 
Não chores, rio, as fontes também vertem gotas no estio.
Guarda nas tuas margens os ninhos de libelinhas
e a liberdade das flores selvagens.
No teu leito despido guardas o limo seco, na ausência da tua voz.
Cala a impaciência.
A nascente é já ali na humidade da boca dos fetos e na transpiração calada dos esporos.
Ouve o sorriso da areia, no borbulhar das contas de água escorrendo nos reflexos das veias.
 A terra doa-se neste parto de amor.
A vida vai nascendo. A água salta e num breve ruído,
salpica de musgos moídos o ventre de leitos adormecidos.
E as fontes estalejam de vidas hibernadas,
na solidão e frescura das suas madrugadas.



Manuela Barroso

sábado, 14 de novembro de 2020

Abre a porta

               Duy-Huynh
Abre a porta.                                 
Ouvi -te nas grutas e em buscas dementes.
Ouvi a corrosão da tua insistência que atormenta o silêncio do meu sono e das noites que me pertencem.
Hoje trago-te a minha leveza invisível na poeira que se faz luto.
Trago-te a vingança de desatinos que o Homem volta a esquecer.
Abre a porta.
Agora é o tempo de acordar toda a Terra, cercá-la de sombras e acordar a afronta e a indignidade de usurpadores e déspotas que acorrentam vidas humanas e toda a criação, na ganância dos seus sonhos devoradores e bárbaros. Não são mais que simples sopros que se desvanecem no algodão negro das suas lucubrações efémeras.
Abre a porta.
Hoje trago a vingança dos morcegos no incêndio de noites moribundas. O meu ninho é o espaço esconso de ninguém. É o caminho deserto das sombras onde as moléculas navegam em desconhecidas constelações. Respeita-os
 
Só fecharás a porta, com a libertação da Terra e de tudo quanto nela habita.
Ela é o receptáculo que te embala, a corola que te sorri, acredita.

 
Manuela Barroso