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segunda-feira, 1 de julho de 2024

Vieste

 


Vieste dentre os filhos das nuvens.
No colapso da luz
transgrediste o sinal que jazia
inerte
no crepúsculo das águas.

E fez-se noite.

No labirinto da aurora
renasciam as flores noturnas.
No compasso do orvalho,
as gotas caindo,
lavavam olhos que aos poucos
se iam abrindo.

De novo o crepúsculo.

Mas hoje, vestido de branco
e  sorrindo.

Manuela Barroso



quarta-feira, 19 de junho de 2024

Quando

 


monet




Quando todas as flores despertarem, amado,  
leva-me no pólen e na cor das suas asas.
O sol que me abriga sufoca o meu desejo de renascer.
 
Quero a placidez da penumbra no abrigo dos lírios.
Em uníssono e num cântico cósmico,
faço parte da dança de Shiva,
confluindo na corrente harmónica do Tudo.
 
As margens do rio
abraçam a calma deste lago semeado de nenúfares,
costurando reflexos de paz.
 
É aqui que eu sou o átomo flutuante,
esperando o cais do repouso.


Manuela Barroso


Devido a factores de vária índole se deve a minha ausência.
 Virei na medida do possivel. Obrigada, AMIGOS/as 


terça-feira, 30 de abril de 2024

Maio

christiane schloe 

 



Fecho os olhos e percorre-me a música de maio.
É o êxtase inconfessável nos sons definidos e indefiníveis.
É a cor divisível nas folhas e cambraias de flores,
no indivisível que se afunda na incapacidade cósmica
que cinzela a perfeição.
É o grito impotente de abraçar o abismo
onde enterro a minha impotência.

Uma enorme sensação de paz quase desumana,
troca esta fome de alcançar o indivisível
para morrer na alegria de estar aqui.

 Abro então os olhos e sinto quão grande
é a beleza deste cântico que sepulta a minha alma
num leito verde e florido, num eflúvio  que abarca
todos os sentidos e mata esta sede de abraçar os sons
deste Poema feito Vida e Mundo e Terra e Flores e Pássaros .
...

Manuela Barroso

terça-feira, 16 de abril de 2024

Bocejo de primavera





Se não te ouvisse
os corais não falavam das cores
que migram na tatuagem dos segredos

Se não te ouvisse
o nevoeiro não exalava a voz
no gemido da cegueira
dos rebentos por nascer.

Escutando,
falo com os corais que não vejo
e os segredos que esqueci.
Por entre a neblina
escuto o cheiro das roseiras
grávidas de flores e espinhos.

Agora
deixa-me escutar o cheiro das magnólias
no artificio das flores brancas
no bocejo da primavera.
          
 

            texto-manuela barroso
           arte-christian scholoe

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Era Madrugada em Lisboa


                            Muitos Parabéns, Graça Pires pela forma como abordaste o tema.


 

O livro de Graça Pires é daqueles casos em que não nos contemos a saborear uma só poesia tal é a fome que ele desperta. Daí que o lesse com avidez. E pensei:na verdade, como dizia a Natália Correia , " a poesia também é para comer".

Senti uma enorme dificuldade na escolha mas tive que optar. 



Sem prazo, sem aviso, sem detença,

aconteceu em abril

o mais esperado tempo

e, com ele, o cheiro

da terra que nos pertence.

No contorno deste chão

um grito abraçou o povo comovido

com o assombro e com os cravos.

Reinventaram-se os sonhos

e as palavras fraternas.

Era madrugada em Lisboa.

E o dia captou a dádiva da luz matinal

para que cintilasse no olhar de toda a gente.

No clamor de cada rua,

a palavra liberdade

passou de boca em boca,

até ao enrouquecimento da alegria.



Do Livro

Graça Pires,  "Era madrugada em Lisboa"

Louvor a um dia com tantos dias dentro, Poética, 2024