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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Água






Água.
Eis o laço que enlaça este corpo nos atritos da terra.
a densidade –nega-lhe os ímpetos de voar.
basta um sopro.
um murmúrio na nascente,
uma brisa na corrente
e ruma ás nuvens
enraíza-se no ar.

na música branca do dia,
no reducionismo das nuvens
a semântica da vida.

Manuela Barroso 

sábado, 19 de outubro de 2019

Na Música das Pombas



Na música das pombas, notas de folhas amarelas e tintas de outono. 
Debico a alegria de te saber escondido, ainda que entre os ramos desnudados, 
e sorrio à procura de ti. 
Nas folhas bamboleantes num adeus à casa, 
cai a nostalgia da impermanência do tempo. 

As pingas começam a desprender-se da tatuagem das nuvens, 
amansando o reboliço do tapete de ferrugem. 
E a beleza da ainda perfeita folha, aceitando a breve transformação do limbo, 
aquieta-se resignada de pousar em breve no pó lamacento, 
tocada com a suavidade delicada das pegadas das pombas.

Somos a folha caída de outono à mercê deste tempo finito, 
aceitando resignados os sulcos que a vida lavrou. 

Breve, num adeus ao outono e à vida, 
somos outras folhas caídas que o chão mastigará. 
E outra primavera virá.


Manuela Barroso



quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Deixa que o deserto





Deixa que o deserto seja o oásis e a areia seja o mar
desta quietude branca que corre e avança
no seu jeito de abraçar.
E  que cada flor de areia
seja olhos do deserto
tão distante mas tão perto
tão árido mas tão liberto
onde correm as palavras nas pegadas do verso.

Que subam, que desçam nas dunas
em grãos de palavras ao vento
que não penso, nem quero, nem digo
acorrentadas às algemas dos  meus pés nus
de mendigo.
Que se enterrem na areia das minhas mãos, os seus dedos,
que sequem ao sol
na sombra vagabunda do medo.

Hoje sou a liberdade no esqueleto mudo do segredo.


Manuela Barroso, in "Luminescências"



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Que sabes tu?


 Volegov

Que sabes tu do cântico do leito dos rios
e das águas frescas na vertigem do calor ?
As margens são as varandas, onde no verão
poisam as libelinhas nos beirais dos choupos
em flor.
           
Vem, não te percas nos caminhos
colhendo o canto das cotovias
que correm de ramo em ramo,
louvando a luz do dia.

E quando chegares ao açude
compara  a desdita dos desventurados
com o sussurro   das cachoeiras,
rumorejando a alegria das
nascentes distantes,
que mesmo hoje no flagelo da guerra
correm frescas e cantantes como antes.


Manuela Barroso, in "Luminescências"


Livro disponível em:

http://www.sedaeditora.pt/loja/prod/manuela-barroso-manuela-barroso-luminescencias/9789895443246/


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Cavalgando



Nos cabelos das ondas do vento
quando tudo já dorme em redor
abandono, solto o pensamento
cavalgo festas de prados e flores.

O ar seco sacode os meus olhos
do brilho cinza que neles se faz
nasce a alegria, todo o azul em folhos
na infância e inocência que ele me traz

E galopando caminho fora
sorvendo os cheiros que vêm da terra
bebo o orvalho destilado da serra.

Desço com calma deste meu corcel
percorro a babel que a vida encerra
e sinto-me flor neste mundo cruel


Manuela Barroso, in "Luminescências"


Para aquisição de livro:

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