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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Acordo...

Acordo
Recordo
Concordo
Com meu despertar, enfim…
Do cacto a flor
Nascida entre escolhos
Brotando de abrolhos!

Num breve deslumbre
Revejo-me assim:
Mistério
Laço
Eco de vida
Odor de jasmim,
Algures no espaço,
Que pernoita em mim!

Paro
Reparo
Enrolo o pensamento
Deambulando pelas memórias
E reflicto por um momento:
Ah! Sou Terra
Sou Ar
Sou Água
Sou Fogo
Sou Tudo
Sou Mundo
Sou de Tudo feita…
Mas nada no fundo!


Manuela Barroso, in “Inquietudes”, Versbrava, 2012

domingo, 14 de janeiro de 2018

Na Planície



 Na planície verde dos sonhos,
as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos.

É a única voz que perfuma o pão desta fome de silêncio

Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas.
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem
que salta da pele plana
e quieta dos charcos.
Sigo o vaguear inquieto das libélulas
arrastando consigo
o sono dos nenúfares

Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.

Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas.


Manuela Barroso, "Eu Poético"

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Pingo de chuva



Cada pingo de chuva é uma nota musical que me traz segredos de ti.

deixo que escorra nos sulcos das minhas mãos,
até se solidificarem nos cristais das palavras
que me trazem o teu nome.

deixo que permaneça mudo
como frutos caídos de outono,
despedindo-se da vida,

à espera de um rebanho de larvas.

deixo que flutue na pele silenciosa deste lago
onde as folhas caídas
são penas que contornam seixos noturnos,
no deserto de penedos nus.

e cada pingo de chuva
é um cristal teu, suspenso na noite
mais clara que o breu.

Manuela Barroso, in "Eu Poético"




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Lembrando o Natal


Hoje a saudade bateu à minha porta.
Peguei na criança que fui e embalei-a no pensamento das minhas memórias repletas de recordações.
Eram dias frios e húmidos nas terras do Gerês.
A noite era o breu que cobria a aldeia entre-cortada de pinheiros e eucaliptos.
O peito enchia-se do aroma purificador do pinho ácido.
A manhã crescia com a azáfama do Natal. Os adultos trocavam conversas sérias, feitas de sabores sobre doces e a ceia.
Mas... e o presépio?
Isso era com as crianças...
Então, descia os caminhos toscos, serpenteados por entre os pinhais que levavam ao rio.
As pedras penduravam-se viçosas e verdes de líquenes. E eu colhia as pastas de musgo da face dos rochedos, deitados por entre os pinheirais.
...E nascia um presépio com cheiro a pinho, a musgo, a verdade...
Não tinha luzes psicadélicas mas um único ponto fixo luminoso, recordando a mensagem de Belém.
...Nasceu um Menino que iria inquietar os bem instalados na Terra.
...E a mesa crescia com a alegria da festa, e a festa dos sabores.
Meia-noite.
O sapato mais bonito para que o Menino Jesus, ao descer a chaminé, trouxesse o ambicionado presente! Era uma presença especial, pois claro!..
...E lá ia deitar-me vendo bem a posição do sapato, não fosse Ele esquecer-se...
...Adormecia com o sapato e a ansiedade...
...E mal nascia o dia, corria para a chaminé pendurando a surpresa no coração...
...E o Menino sempre se lembrou de mim...
…E a alegria era do tamanho da felicidade daquele instante!..
...

Hoje também recebo presentes...
...Mas não ponho o sapatinho!..
Hoje também ofereço presentes...
...Mas não são para pôr no sapatinho...
...São para o " pinheirinho" entupido de embrulhos e laços pretensiosos...
...E parece que a festa começa aqui...com as crianças histéricas a abrir presentes...continuando a abrir presentes, agora já entediadas...acabando por lançar neles um olhar absorto, mudo, fundo!
...Digam-me. O que mudou?

...E perco-me em mim. Agora, não na saudade, mas nas perguntas que borbulham na alma como lava num vulcão!..
...E as respostas saem luminosas e quentes...
...Ora me queimam, inquietando-me...
...Ora me inquietam, borbulhando, queimando ainda mais!


...Ah! O meu Natal…                    
...O meu sapatinho…
...O meu Menino Jesus
...alegria sem igual!


Manuela Barroso
( reeditado )




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Outono

 imagem da net
Há vários outonos na minha vida.
Todos tinham o sabor da melancolia. Não sei se por a luz filtrada do sol, se pela envolvência que sempre mantive com a natureza.
Essencialmente, o outono cheirava a livros, papéis, lápis de cor e a um trabalho extenuante que se aproximava, que não deixava ver e ler as folhas caídas que dançavam no chão.
...Mas o meu outono é aquele que está escrito no tempo da minha memória com recordações fechadas como que em gavetas deste móvel que guarda sinestesicamente as imagens das folhas outonais, as primeiras chuvas frias e os diospiros coloridos e doces.
Na minha gaveta de hoje, estão guardados os ouriços defensivos com as castanhas luzidias a nascer!
O castanheiro é um "caminho" longo e difícil! Entre as folhas, os ouriços com seus picos desafiam para uma subida que eles sabem ser custosa. Então, o melhor é esperar...
...E lembro aqueles fins de tarde mortiços de outono... descendo os córregos até ao ribeiro e deparar com os cogumelos que tinham o dom de me irritar! Lindos e num desafio vaidoso, olhavam-me numa tentação provocante e desmedida: Nunca sabia o que eles escondiam: se a minha verdade ou a sua mentira...
E carregando esta incógnita, lá os abandonava...olhando para trás, deixando-os num sorriso solenemente sádico...Que raiva!
Mas nos valados e nos campos, por entre a erva fria, escondiam-se as castanhas, ora desprendidas do ventre, ora ainda por nascer e cuja técnica do parto ainda não esqueci...
...E voltava com um friozinho na cara e as castanhas apanhadas de fresco, tenras e brilhantes numa cesta de verguinha com folhos e laçarotes a que se juntavam as doces maçãs de S. Miguel.
...Só os cogumelos lá ficavam, num desafio irritante zombando da minha ignorância...
A palidez do céu tornava-se cada vez mais acentuada...
Tudo estava solenemente calmo...
E o sol rasava as colinas lá ao longe, num horizonte vermelho purpurino, onde os meus olhos pousavam numa quietude suave...doce...

Manuela Barroso

 Reeditado-2010