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Todos tinham o sabor da melancolia. Não sei se por a luz filtrada
do sol, se pela envolvência que sempre mantive com a natureza.
Essencialmente, o outono cheirava a livros, papéis, lápis de cor e
a um trabalho extenuante que se aproximava, que não deixava ver e ler as folhas
caídas que dançavam no chão.
...Mas o meu outono é aquele que está escrito no tempo da minha
memória com recordações fechadas como que em gavetas deste móvel que guarda
sinestesicamente as imagens das folhas outonais, as primeiras chuvas frias e os
diospiros coloridos e doces.
Na minha gaveta de hoje, estão guardados os ouriços defensivos com
as castanhas luzidias a nascer!
O castanheiro é um "caminho" longo e difícil! Entre as
folhas, os ouriços com seus picos desafiam para uma subida que eles sabem ser
custosa. Então, o melhor é esperar...
...E lembro aqueles fins de tarde mortiços de outono... descendo
os córregos até ao ribeiro e deparar com os cogumelos que tinham o dom de me irritar!
Lindos e num desafio vaidoso, olhavam-me numa tentação provocante e desmedida:
Nunca sabia o que eles escondiam: se a minha verdade ou a sua mentira...
E carregando esta incógnita, lá os abandonava...olhando para trás,
deixando-os num sorriso solenemente sádico...Que raiva!
Mas nos valados e nos campos, por entre a erva fria, escondiam-se
as castanhas, ora desprendidas do ventre, ora ainda por nascer e cuja técnica
do parto ainda não esqueci...
...E voltava com um friozinho na cara e as castanhas apanhadas de
fresco, tenras e brilhantes numa cesta de verguinha com folhos e laçarotes a
que se juntavam as doces maçãs de S. Miguel.
...Só os cogumelos lá ficavam, num desafio irritante zombando da
minha ignorância...
A palidez do céu tornava-se cada vez mais acentuada...
Tudo estava solenemente calmo...
E o sol rasava as colinas lá ao longe, num horizonte vermelho
purpurino, onde os meus olhos pousavam numa quietude suave...doce...
Manuela Barroso
Reeditado-2010




