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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Noite





Escondes no teu silêncio
o frio da escuridão que se
dispersa numa aragem erguida
nos braços da incerteza.
Trazes a chama da saudade
escrita nos olhos da lua
e unes a Terra e o Mar
numa Fusão eterna de Mistério
escondendo-se na espuma do tempo.
És o espelho da Solidão,
a única música que se ouve
na profundidade da tua memória
e onde eu queria divagar.
Entrego-te a harpa deste
Silêncio que guardo como
um sonho que dorme,
inacabado, cansado em meu peito.
Abandono-me  na tua carícia serena
onde a Paz é o Sono que me acorda.
És a fonte que gorgoleja, 
a sombra que refresca o verão quente
das minhas tardes.

E na floresta das tuas sombras,
vibram as imagens do passado,
escritas na saudade errante
que vagueia dentro de mim.


Manuela Barroso, in “Inquietudes”- Edium Editores 2012







quarta-feira, 10 de maio de 2017

Acende as velas



Acende as velas da rua
o torpor silenciou a grafia do luar
Fantasmas de luzes
rastejam
na insónia das pedras
no abandono húmido do pó

É o deserto que guarda agora
os segredos destas ostras
ocas de solidão.
Dormem indefesas nas micas luzidias
em corais de saudade
são as pérolas do chão.

Manuela Barroso, in” Laços- Dueto” Editora Versbrava, 2014



domingo, 7 de maio de 2017

Mãe!








Já não revolves as tuas fotografias, mãe!
As pernas cansadas dos teus 100 e meio 
são o martírio do teu caminhar.
E perdes-te no tempo de menina que ainda
mora em ti.
Dos teus olhos molhados já não vertem lágri-
mas porque a saudade secou as águas onde
agora navegam as tuas recordações. O tempo
foge-me mãe, mas para ti parou no relógio da
tua juventude.
És rodeada de todo e tanto amor mas o aroma
das tuas rosas chama por ti. E paras recordando
a bênção de pétalas que caiam nas cadeiras de
lona onde combinávamos o jantar!
O paradoxo do amor leva-nos para onde tu estás
mesmo caindo com a neve que nos cobre!
E tu ficas longe, pensando nas cercanias do teu
jardim outrora tão florido.
Ai maio, rosas de maio pingando sulfate caído
das videiras!
Ai centeio dos nossos campos semeado de tocas
de  grilos abandonando-se no bailado dos cantares
de grilos  à tardinha!
Eu sei que tudo isso te acompanha, mãe!
Mas , ouve, mãe vai ser já noite também para mim.
Antes que vá, senta-me ao colo de um sorriso teu e
diz que me amas.
Sem ti é já noite.
E eu só quero ver uma estrela: tu, MÃE!



Manuela Barroso, Maio de 2017






quarta-feira, 26 de abril de 2017

Onde ficas?


Onde ficas com laços desfeitos
do tempo cansado?
Onde ficas nas palavras incertas
que cedo morreram?
Onde ficas nos desejos cumpridos
da curvas da noite?
Onde ficas nos olhos perdidos 
na noite do peito?
Onde ficas quando os lábios secaram
a espuma dos dias?
Onde ficas quando os braços te procuram 
no canto vazio?
Onde ficas quando as palavras se perdem
no desejo que morreu?

Ficarei à tua espera
Num sono meio acordada
És o tronco, sou a hera
Sou filha da madrugada!

Manuela Barroso, "Inquietudes", Edium Editores




segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pátria-25 de Abril


Sonhei com a minha Pátria
beijada pelas águas salgadas
regada com o doce dos rios
decorada com o mel dos montes

Sonhei com a minha Pátria
derradeira planície, único vale
na fartura de trigo e centeio
ausente da fome que vagueia pelo meio

Sonhei com a minha Pátria
recanto de paz e de calma
foz de irmãos, parte da mesma alma

Hoje, divide-se a Pátria
alma da mesma mãe
uns têm tudo, outros nada têm.


Manuela Barroso



25 de Abril