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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Troco os meus olhares



Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.
Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos. 

Manuela Barroso, in "Antologia conVida", Barbára Editora- Blumenau, 2013
Org. Anderson Fabiano e Helena Chiarello


Pausa...
...na quietude da sombras dos juncos!

Desejo a todos/as Boas Férias!

sábado, 25 de julho de 2015

Voo



Como num voo assimétrico no sopé
que contorna o declive das escarpas,
vais percorrendo o instinto da maré
que penetra na areia como farpas.  

descalço os pés brancos das ninfas belas
e na catedral da areia do chão
ergo os meus castelos, danço como elas
enquanto namoras a liberdade da ilusão

 na imagem que se pinta na espuma,
nas pegadas escritas na paisagem,
colho os beijos das conchas nas dunas.     

no areal escreves sonhos que não vi
por ser longa a distância da memória
ao querer ainda me lembrar de ti.


Manuela Barroso, Antologia "Mar à Tona"

sábado, 20 de junho de 2015

Infância


 Imagem da net
Recebo-te, minha infância na maresia dos pinheiros
com  suas folhas de agulhas, saudando o tempo de esperança
 nos fins de tarde soalheiros 

Ouço-te no estio agreste em silvos de angústia
 nos ouvidos secos dos vales, na música dos caminhos
nos ecos das madrugadas e na brancura dos linhos.

Ainda te vejo no cume da calçada
flores campestres
passeios de joaninhas e frutos silvestres

Os aromas,
ah, os aromas!
eram ausências de perfumes vadios,
presença da limpidez da primavera
recanto das raízes virgens no ventre impoluto da terra

Hoje
sou planeta, clarão sem luz que acoberta os dias que tateio
na fragilidade dos inocentes, pés acorrentados e nus

Manuela Barroso in "Laços"- Dueto, Ed. Versbrava


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Grata, Poetas Livres de Florianópolis

No encontro, flores
Na chegada, um presente
Obrigada, GPLF!

Troféu Garapuvu




Cada dia que nasce renova-se com novas tonalidades.
Assim é com a claridade de hoje!

E não é pelo "escrito" que vem a seguir, nem pelo prémio, nem tão pouco  pela divulgação.
Mil vezs Não!
Mas sim, porque a nossa Eloah do blog http://alemdosfragmentos24x7.blogspot.pt/, querida amiga de há tantos anos e cuja amizade cresceu através dos nossos blogs , vai aterrar no aeroporto Sá Carneiro para nos conhecermos pessolamente, dentro de poucos dias.
É assim, uma forma simples  de lhe prestar a minha homenagem, já que este prémio foi obtido no Grupo Poético a que pertence.

E se , meus amigos/as, por vezes nos debatemos com a solidão, a fome de amizade no mundo, as incógnitas da internet ( e quantas!) , amizade virtual  (fictícia),  eis o testemunho da minha verdade: tenho encontrado amigos/as fabulosos/as.
Sendo eu  transparente  por natureza, tenho recebido os mais puros e cristalinos  reflexos nas amizades, verdadeiros diamantes que aqui tenho encontrado.
Aqui não são os "likes" que nos preenchem.
Aqui, há um desfolhar de alma que nos leva e nos deixamos ser levados pelo mesmo estado e alma.
Pelo coração.
Daí o conhecermo-nos mais , porque mais nos expomos.

Obrigada, minha querida amiga Eloah pela tua visita.
A tua sobriedade espelha-se  na belíssima poesia calma e doce que escreves  e que é o reflexo de ti.
Mas não pensei nunca que os nossos comentários fossem o preâmbulo de uma grande amizade  em que a distância e o espaço,  não têm voz.

Implícita fica a minha gratidão e  amizade a todos/as os que me  presenteiam com a vossa presença e palavras tão amáveis!
A todos muito estimo.

Beijinho!


 Prémio- 2º lugar- do Grupo de Poetas Livres de Florianópolis

Descansa aqui.
Sobrevoa o mistério da vida que percorre os interstícios das pedras.
Não te perguntes pelos ventos e as cores e as flores.
Vive nelas.
O canteiro está dentro de ti.
Não importa de onde venham as flores e as estrelas.
Não te perguntes.
Acalma o frio das perguntas olhando só para elas.

Na exaustão dos porquês, tens as respostas no êxtase do teu olhar.
Revê-te nelas.
E tu não sendo uma estrela és muito maior que elas.
Pousa depois o teu olhar no regaço do Universo
e tens toda a poesia num só verso.

E enche-te da paz que desce até ao umbral da tua porta
e deixa entrar
ela
e o luar.
Convida-a se quiseres para ficar.

Eis o belo da vida num só olhar:
a companhia das estrelas que sentadas na tua escada
vêm descendo calmamente de luz em luz,
iluminando os teus olhos
para depois tu e elas, contemplar.
E há tanto para amar!

                                             Manuela Barroso

 Grupo de Poetas Livres de Florianópolis
 2º Lugar  no 10º Concurso On-line “Alzemiro Vieira “, 2014

 Em 4 de Dezembro 2014





Para ti, Eloah, um canto de paz na alegria dos montes.
Aqui, a giesta e a urze crescem, mesmo longe da água das fontes...


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ontem



Ontem vi o teu coração nos olhos das pedras.
Pesavam no meu peito.
Ouvi sílabas de silêncios em buracos cravados
no chão, bocas abertas na noite em tentáculos
de estrelas navegando solidão.

Eras a luz escura
em tetos de alvorada
nos braços da lua.
  
Caminhei com o vento
nas ondas do teu corpo,
tão vagarosas e longas,
tão lentas e tão noturnas.

Desci as madrugadas que dormiam
no meu rosto, lençóis de bruma fria
renda orvalhada, reflexos de sol posto
nesta tarde ainda molhada.

Bebi cheiros de espuma que nasciam 
do teu corpo em impertinências famintas .

Veio o vento.

Levou o aroma
já morto.

Manuela Barroso, in Antologia Poetas Lusófonos