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sexta-feira, 12 de março de 2021

Vale Azul

  

 
Na planície verde dos sonhos,
as águas correm
com a placidez dos dias esquecidos.
 
É a única voz que perfuma o pão
desta fome de silêncio.
 
Contorno as margens dos sapais e colho hastes de alegria
no bailado leve das ervas.
Prendo-me ao chão, escutando as súplicas das rãs
no murmúrio da linguagem que salta da pele plana
e quieta dos charcos.
Sigo o vaguear inquieto das libélulas
arrastando consigo o sono dos nenúfares.
 
Quero vingar-me deste lugar abrigado da noite 
que me oculta a dança suave dos reflexos
dos olhos da lua,
sacudir este sal que fulmina os sabores das manhãs
quentes e quietas
e agonizar com a felicidade do declínio das tarde limpas
com lumes no horizonte.
 
Regressarei ao meu vale azul
e pernoitarei com  as asas das estrelas
estendidas atrás dos montes.

 

Manuela Barroso

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

A Ti, Mulher, este meu grito

 



Vou descendo com o sol ansiando a paz do fim do dia.
Uma espécie de embriaguez entorpece o raciocínio na fuga vertiginosa da tarde com os seus olhos  mornos que se vão pintando no crepúsculo.
Tudo se encerra com a vinda da noite: Lar-Colmeia- Paz!
 Não é luz, não é sol nem é a vida que enche o templo de algumas "abelhas" carregando colmeias de mel.
Não!
São colmeias vazias ou cheias de favos de amargo e falso mel...
 
E a minha alma vagueia, inquieta, na leitura destes sorrisos azedos, sufocando os olhos de mel no vazio do pólen que agora se diluiu nos vapores do vento.
E ela sorri, veste a mesa de suor, despe a cama de lágrimas...
Já não é ela...
...É uma coisa de gente, gente que não é coisa, gente que já foi gente...
Hoje é ferida que ninguém vê e em breve uma escara ferrada no corpo que já não dói porque nem sente.
Já não vive...
...É uma anta ambulatória com sorrisos amargos...
O doce sorriso esconde-se na chaga que esconde na culpa dessa maldição que se esconde e aninha na colmeia podre com mel suicida.
 
Mas o sorriso vai rolando pela face, misturando-se com as lágrimas no compasso desta morte lenta.
...E já não é coisa nem é gente.
Já nem sente!
É fantasma de mulher- moribunda na flor desflorida do seu martírio.
...E o sorriso azedo rasgou-lhe as pétalas, sugou-lhe o perfume para verter o ácido neste mel sádico,
na pele macia e quente
de mulher que já não é gente!
 
Nesta raiva com que fico.
Neste amor que te dedico.
A ti, mulher, este meu grito.
 
Manuela Barroso

 



domingo, 21 de fevereiro de 2021

Correm em Fios

 


Correm em fios gotas indulgentes 
no repouso da cama moribunda das folhas.
Não reparas no passeio do vento.
Sentes o borbulhar dos charcos e o balbuciar de ramos inquietos.
Olhas e perguntas por ti na sombra do musgo
colado à casca dos troncos.
 
Aquietas-te.
Fixas as tuas mãos.
Elas abrem-se olhando-te.

E numa resposta tímida mostram-te  o espelho
de outros outonos
que lhe foram chegando devagarinho
depondo folhas amarelas sobre os regatos
que circulam por entre os dedos, sumindo.
 
 
manuela barroso



sábado, 13 de fevereiro de 2021

Longas Penas

 


    

 
Longas penas atravessam o cálice da tua noite.
Os clarões abrem-se em raios luminosos, indiferentes
a tempestades. Vacilas na fragilidade do teu corpo 
na prisão de devaneios, quimeras. 
 
O teu mundo definha numa poeira constante, 
mas a vida é floresta tua, ardendo em cada instante. 
Intriga-te o baloiço das ideias, não te 
conformas com o barulho das marés.
O silêncio percorre-te as veias 
e a paz está no que pensas que és. 
 
Acomodas-te ao vício do vento que te vende 
o valor do vazio no infinito de ti. 
Mas não ao fogo-fátuo, tragando de uma só vez, 
a vida que carbonizas em vertiginosa rapidez. 
 
És a essência da verdade que se esconde no escuro
e o muro do tempo que se perdeu no futuro. 
 
Te direi que
impávida com o tempo, 
serei a árvore plantada, à tua espera, 
aguardando, paciente, a seiva da alegria 
em cada folha de primavera.
 

 Manuela Barroso, in “Luminescências” , 2019

 

 

 

 

 


sábado, 30 de janeiro de 2021

Com as janelas...

Josef Sudek

 









 




























Com as janelas do teu rosto que atravessa a ponte
dos dias, acordas flores e insectos nas suas metamorfoses.
Jamais entenderás os segredos do sangue que viaja
na pele coberta de tempo. Nem os beijos das abelhas
arrancam murmúrios das pálpebras onde passeiam.
 
O silêncio cobre de contemplação estes olhos coloridos
que se abandonam no céu e as palavras fecham-se no
mutismo contemplativo eternizando a perfeição geométrica
da Criação.
 
Não falam. Gritam no colorido arrepiante das cores.
Ateiam fogo sagrado nos olhos dos insetos sem um
gesto, apenas balouçando-se com a brisa que leva
consigo a chuva de pólen. É este bailado, a comunicação
que se ouve numa imagem inquietante de alegria, uma
 labareda doce na planície da vida.
 
Onde se esconde o mistério que o rosto procura?
Em cada corpo de erva no calor telúrico que arranca a convulsão
de beleza que dorme  nas raízes de cada manhã .
E os olhos fulminam de ansiedade no desalento da ausência
de palavras, presas na retina do pensamento. Soltam-se.
E num voo veloz pelo firmamento, planam este atlântico de
cores escrevendo nas asas este momento.
 

 

      Manuela Barroso, 2014

 



domingo, 17 de janeiro de 2021

Morre-me...


Morre-me cada dia uma flor.
Não sei se a embale nos braços para voltar a adormecer
Ou se a cristalize na alma para não morrer.
Tomo-a na sua delicadeza de vidro
e atravessa-me a fragilidade do corpo que já foi dia.
Só silhuetas apagadas na contraluz.
Tudo anoitece nesta onda aquática
como penumbras à procura de outra  claridade.


Manuela Barroso

 





quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Cai Neve





Cai neve!

não digas que é mau tempo
porque
beijos de água em flocos
que pousam
tão mansamente
numa leveza dormente
traz a paz ao pensamento!
E o branco em arrepio
que enfeita a Natureza
com este ar seco e frio
e lhe empresta esta beleza,
também
é  cor de pureza.
Ah!
Não digas
que é mau tempo!
Deixa florir a neve
assim,
derretendo-se
em meu peito,
criando sulcos
em mim!
E,
deixa que as árvores pinguem
com o branco
que elas têm!
São as cores
com que se tingem!
Que se enfeitem
elas também!

 Manuela Barroso,  "Eu Poético III
"


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Feliz Ano Novo

FELIZ ANO NOVO!

(POR PROBLEMAS NO GOOGLE , NÃO CONSIGO FAZER ALGUNS COMENTÁRIOS. DESAPARECEM ...)

CREIAM-ME AO VOSSO LADO COM A AMIZADE DE SEMPRE.




E é com uma mensagem de esperança que se começa cada dia.
Todos os dias são de festa.
Todos os dias são para ser comemorados
A vida, ela própria, é uma festa ao amor, á dádiva, à partilha, ao perdão...
Não fará sentido viver por viver. Nós vivemos por amor a filhos, a causas, e aos pais que amamos.
Toda a vida é imbuída de amor, porque ele dulcifica, acalma, alegra, purifica.
E a sociedade sem amor atrofia, repele!
Eis a razão desta fobia em ascensão, à solidão e aos campos verdes da nossa infância, agora cobertos de neve...cuja beleza acariciamos com o nosso olhar!
Eis o inconformismo do ser humano, buscando não só o próprio bem, mas o bem partilhado.
Eis o sonho da Humanidade: viver em consonância com o Universo!
Tanto e tão pouco!
Parece!


UM FELIZ ANO PARA TI,
de mim
ACEITA!


Maria Manuela


Brindemos!

 



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

FELIZ NATAL

 



Duas palavras que o meu íntimo reclama partilhar convosco, meus queridos companheiros e amigos de tantos momentos de convívio.

Embora esta tragédia actual nos queime tanto tempo , tantas horas de encantos e êxtase perante tantas coisas, tantos quadros  tão belos (   sabem que sou uma  cantora  arrebatada pela Natureza _Deusa _Confidente ) ,o pensamento será sempre mais forte que os sobressaltos já que “ o homem não pode escolher directamente as suas circunstâncias, mas pode escolher os seus pensamentos”

Tentemos deixar espraiar a música na monotonia que nos afecta, como o único eco que nos brinda, cultivemos a beleza na mente, a graça, bondade e alegria nos nossos pensamentos  e o nosso mundo interior terá desta forma  outra construção  porque a perfeição que nos dá forma, está dentro de nós.

Tentemos construir-nos , sejamos persistentes.

DESEJO A TODOS UM FELIZ NATAL

com

AMOR, SAÚDE , PAZ, SERENIDADE.

Se assim for, faremos o nosso PRESÉPIO.

ABRAÇO_VOS a TODOS COM TERNURA


Manuela Barroso

 







domingo, 20 de dezembro de 2020

Interacção Fraterna de Natal 2020

 A convite da Amiga Rosélia Bezerra, a minha Participação nesta Interação Fraterna de Natal


 
Jesus, meu menino, meu irmão
fora o frio corta a fome e o coração
dos que nasceram como tu no abandono
de um  estábulo feito palácio sem dono
 
e o céu afagou-te com uma estrela
passeando a alegria no Universo
coisa estranha no céu mas coisa bela
provocando  os comentário mais diversos
 
cresceste  e pregaste na montanha
que entre a boa vontade dos homens
não poderia mais haver dor tamanha
 
desce e volta de novo a nascer
e como nas bodas de Canã
não o vinho mas o amor faz crescer!  


Manuela Barroso


É esta, seja quais forem os contornos e as condicionantes, uma época de Alegria na dádiva e Alegria de receber afectos.
Na  presença estão os olhos, janelas da Alma.
Na ausência fica o Amor Incondicional porque desmesuradamente belo.
Por este Amor estaremos mais ausentes mas presentes no coração.
É com este Amor que partilho a Alegria de ainda haver Natal .
E desejo a Todos Vós
a Paz
a Paciência
a Resiliência
essenciais para o espírito de Natal.
FELIZ NATAL! 



 


sábado, 12 de dezembro de 2020

Ainda Ouço

 

 foto minha

 
Quando o sonho se torna um pesadelo, quando as poucas  résteas que sobram, ensombram ainda mais os nossos dias, embarco na imaginação e faço o percurso do"faz de conta"no filme  das minhas recordações.

E...

...ainda ouço os rumores vazios das noites quentes de verão.

Queria volatilizar a saudade das vozes frescas das crianças, na poeira da estrada.

Queria poder esquecer o chiar dos carros de bois naqueles estios dolentes, arrecadando urze, tojo e flores silvestres que se deixavam arrastar pelo suor demolidor de corpos cansados.

Queria voltar à sombra da minha tangerineira com persianas de flores escorrendo pólen, suavizando a alma de perfume, enchendo os olhos de perguntas  que eu guardava na concha das mãos.

Sobram as paredes sujas do tempo, as fontes secas de águas desviadas, o jardim solitário de uma multidão de pétalas, a geometria desfeita dos canteiros que contornavam as minhas rosas.

A sombra persegue-me num espelho de recordações que me vão morrendo, abafando os alicerces da infância.

Já não ouço as poupas, as rolas e o cuco, música que me embalava nestas tardes mornas subindo pelos troncos das glicínias.

Não lhes dão tempo de migrarem. Com as  sementeiras de pesticidas, tiram-lhes o voo e a voz. 

Com eles os grilos e as cigarras. 

Mas...

...afinal onde vai o meu devaneio ? No ponto de partida...porque a alma está ferida.

Hoje, abandono-me num canto que me acolha.

E espero, paciente que alguma alegria  me recorde, volte e me recolha.

 

Manuela Barroso


 

 


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Não Me Perturbes

 

Foto Minha



Quero reclinar o meu peito no regaço da terra
descer num casulo de luz pairar como a bruma
na urze calada e perfumada da serra.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
Na criança adormecida em mim
ficam as pegadas na presença dos silêncios,
nos diálogos e gestos escritos na areia polida
das minhas palavras.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
Não perturbes estas folhas que rodeiam o meu corpo
povoando esta alma de música que ninguém ouve.
Não quero miscelâneas no meu poente.
Quero nascer os olhos em bocas de alegria.
Deixa ser-me criança, vestir de novo esta fantasia.
 
E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.
 
E não per_ tur_ bes o meu son_ ho.
Quero adormecer a noite enganar a lua
morrer o passado nesta inquietação
desta
chama
nua.

 

Manuela Barroso

 

https://vimeo.com/84500122

( Video-"Não me perturbes"- Na maravilhosa Voz de Rui Diniz)

   





sábado, 14 de novembro de 2020

Abre a porta

               Duy-Huynh
Abre a porta.                                 
Ouvi -te nas grutas e em buscas dementes.
Ouvi a corrosão da tua insistência que atormenta o silêncio do meu sono e das noites que me pertencem.
Hoje trago-te a minha leveza invisível na poeira que se faz luto.
Trago-te a vingança de desatinos que o Homem volta a esquecer.
Abre a porta.
Agora é o tempo de acordar toda a Terra, cercá-la de sombras e acordar a afronta e a indignidade de usurpadores e déspotas que acorrentam vidas humanas e toda a criação, na ganância dos seus sonhos devoradores e bárbaros. Não são mais que simples sopros que se desvanecem no algodão negro das suas lucubrações efémeras.
Abre a porta.
Hoje trago a vingança dos morcegos no incêndio de noites moribundas. O meu ninho é o espaço esconso de ninguém. É o caminho deserto das sombras onde as moléculas navegam em desconhecidas constelações. Respeita-os
 
Só fecharás a porta, com a libertação da Terra e de tudo quanto nela habita.
Ela é o receptáculo que te embala, a corola que te sorri, acredita.

 
Manuela Barroso

 


domingo, 1 de novembro de 2020

Hoje

                       Da net
Hoje, não cantes a primavera que nasce nos outeiros.
Chovem outonos em mim com folhas secas pelo meio.
As rosas perderam a cor,
os lírios perderam asas
as aves perderam chuvas de penas, na pena do desamor.
O sol emudeceu a luz,
as nuvens já não cavalgam no céu.

 
Quero tréguas neste trepidar da calma
que foge, que me arrasta.
Deixa uma vez, a solidão morar comigo
na casa que construiu
nos marfins das noite sem estrelas.
 
Quero a paz da luz, a alegria da noite no refúgio
da solidão.
Quero ninhos no silêncio das alvoradas,
acordar no linho dos lençóis
despertar com  o sorriso do orvalho
na frescura das  madrugadas.
 

Manuela Barroso

 

 

 

 

 


domingo, 18 de outubro de 2020

Tarde de Outono

 Eileen  Goodall
 Uma tarde quase primaveril.
Pequenos nadas que se tecem no pensamento, que fazem parte da rotina do tempo, das estações que vêm, que vão.
Os raios de sol caíam luminosos nos braços das árvores, agora desenhados na laje do chão, onde se amontoam folhas secas, mortas, quase desfeitas...
...Era um ritual pachorrento, cuidar da folhagem que ia caindo... caindo a cada sopro de vida no vento.
...E a folha caía, caía...
… caiu... caiu e foi apodrecendo num grosso tapete uniforme e quanto mais o tempo corria...o tapete ia reduzindo o seu corpo, entregando-se ao chão, à terra.
E as folhas secas e hirtas do carvalho e do meu sobreiro, mirravam como os dias pequenos do inverno, não sobrevivendo às chuvas, às intempéries...
Olhei o chão... olhei o céu...olhei a folha...
...Olhei os ramos hirtos numa espécie de clemência à vida...
Fez-se silêncio cá dentro...
Algo bateu fundo, forte...numa profunda inquietação na quietação do meu "eu"...e tudo ficou mais denso, mas mais verosímil com as (in) congruências da Vida.
"Tu és como a folha...
És um rebento que cresce, onde pousam as aves, embelezas os jardins e os bosques com o charme da tua cor, com a majestade da tua essência...
E vives e és feliz como os pássaros que abrigas...e és útil com a tua sombra.
Mas, oh impermanência do tempo...um dia cais como a folha seca...mirrarás sem força, sem vida como a folha, outrora verde e viçosa…e o espaço que ocupavas antes, vai crescendo à medida que vais perecendo, até ficares em nada..."
Os olhos ergueram-se numa não-aceitação deste pensamento como se esperasse outro reduto onde me pudesse refugiar...
E senti que numa hipotética semelhança com a folha, enquanto massa apodrecida e inerte na laje  eu era...sou uma  outra folha…
Eu penso que penso...eu não sei se ela pensou...
Eu penso que estive enquanto estou...e pensando que um dia não estarei mais, mas deixarei a minha voz no vento em palavras porque deixarei a minha voz  algures nos símbolos.
E se Além houver” folhas” também!?
A folha e eu...
A folha e tu...
...Mas a primavera voltará, com novas folhas, novos sorrisos...
...E eu quero o Agora...o outono do Hoje...a primavera que voltará.
Mas...e a folha que eu sou?


Manuela Barroso
(reeditado)

sábado, 19 de setembro de 2020

Bem - vindos!


Depois de uma pausa procurando o afastamento  destes grilhões que aferroam corpo e alma, convido-vos hoje, a ouvir um vídeo que tentei fazer, embora com  detalhes do meu reduzido saber informático.  Mas sou  a voz e o afecto que me une a todos/as vós, queridos AMIGOS/AS.
Eis-nos de novo!




                                                                         

                                                                            "O Bosque"

                                                                                         Manuela Barroso






quarta-feira, 8 de julho de 2020

Rasgava





Rasgava a planura do oceano
como quem semeia cartas ao vento.
Escondia o gemido no agasalho frio do nevoeiro
que nunca lhe fora tão límpido.
Sorriam os olhos com a corda púrpura do poente
que nunca lhe fora tão cúmplice.  

Plantou-se na terra
e nunca esta lhe fora tão cruel.


Manuela Barroso






sábado, 20 de junho de 2020

Se me disseres



Se me disseres que te apaixonas pelas flores que
cobrem as ruas das tuas mãos ou pelo austero cântico                
que atravessa as frestas na sombra das pedras,
vibrarei com o âmago da tua  adolescência.      

Nada é tão puro e cristalino e tão levianamente azul.
Nada é tão perecível como a sonolenta caligrafia  de
um sinuoso silêncio submerso no misterioso lodo das
águas. Nada é mais belo que o sibilar das folhas,
o saltitar do chapim na lucidez da manhã.

Submersos na imaginação vadia, sorvemos o bulício
que nos suspende à moldura da vida,  como corpos
abandonados  à procura de um poente.



  Manuela Barroso

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Foi ontem


 Rumazov

Porque ainda hoje o meu estado de alma é o mesmo, um texto reeditado, feito de recordações.



 Foi  ainda ontem que o tempo não morria
na estrada da minha pele!
Os olhos atravessavam as pedras nas micas
incandescentes de agosto, cheiro a mel
E as rosas...
-ah, as minhas rosas!-
choravam as pingas de sulfato das latadas em flor!
E eu corria menina nos canteiros
com margaridas sorrindo pelo meio!
Que bom saltar à corda ,à macaca e às casinhas
não saber ler a lua nem Vénus à noitinha
correr por entre o centeio que arde
no rubro sol da herdade...
Fazer tudo
fazer nada
somente o lanche da tarde
Ah! morangos pequenos silvestres num creme
de açúcar e Porto na delícia de um recheio
da torta saída do forno e chocolate pelo meio..
E as delícias de amoras colhidas entre os picos
amansados com a língua com as pintas de salpicos?
E o sol ardia na pele e quanto mais ele batia
mais em fogo me fazia na praia do meu jardim
E nos vestidos rosa, de alça, eu mostrava a minha cor
e a graça de andar descalça na relva bordada a flores.
Ah, tardes na minha casa, meu descanso, meus jardins
que eu regava à noitinha com o canto  dos chapins.
 
E põe-se o sol lentamente
ontem , hoje e amanhã
já não como antigamente...
Hoje foge a vida  a correr
fugindo de mim também.
Mas antes também fugia
porém, com outra magia.
Agora...
Ai, agora corro tão calmamente
saboreio cada hora
que quando vejo correr
os olhos gritam...
Pára, fica, demora!..
 E dói-me a pressa
da pressa dos outros...
Dói-me ter que parar
na metade do caminho...
 Devagar que tenho pressa!


Manuela Barroso (reeditado )


domingo, 17 de maio de 2020

Era

 Jaime Best
Era de Gales o príncipe que entardecia no teu corpo.
A Primavera semeava-se na mesa com o sorriso
e a tatuagem da adolescência.

Migramos como aves clandestinas no abandono
dos  segredos à procura de um abrigo onde pousar o nosso
afago tão urgente, tão impiedoso como platónicas
são as flores onde nunca tocaste.
No tecto do teu mundo, o sol engoliu o perfume da pátria
que te esqueceu.
Que ofereças agora trevos, na intimidade da noite
e que as galáxias hoje te cubram de sossego
na penumbra da tua inquietação.


Manuela Barroso