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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Folhas Secas




Uma tarde quase primaveril.
Pequenos nadas que se tecem no pensamento, que fazem parte da rotina do tempo, das estações que vêm, que vão.
Os raios de sol caíam luminosos nos braços das árvores, agora desenhados na laje do chão, onde se amontoam folhas secas, mortas, quase desfeitas...
...Era um ritual pachorrento, cuidar da folhagem que ia caindo... caindo a cada sopro de vida no vento.
...E a folha caía, caía...
… caiu... caiu e foi apodrecendo num grosso tapete uniforme e quanto mais o tempo corria...o tapete ia reduzindo o seu corpo, entregando-se ao chão, à terra.
E as folhas secas e hirtas do carvalho e do meu sobreiro, mirravam como os dias pequenos do inverno, não sobrevivendo às chuvas, às intempéries...
Olhei o chão... olhei o céu...olhei a folha...
...Olhei os ramos hirtos numa espécie de clemência à vida...
Fez-se silêncio cá dentro...
Algo bateu fundo, forte...numa profunda inquietação na quietação do meu "eu"...e tudo ficou mais denso, mas mais verosímil com as (in) congruências da Vida.
"Tu és como a folha...
És um rebento que cresce, onde pousam as aves, embelezas os jardins e os bosques com o charme da tua cor, com a majestade da tua essência...
E vives e és feliz como os pássaros que abrigas...e és útil com a tua sombra.
Mas, oh impermanência do tempo...um dia cais como a folha seca...mirrarás sem força, sem vida como a folha, outrora verde e viçosa…e o espaço que ocupavas antes, vai crescendo à medida que vais perecendo, até ficares em nada..."
Os olhos ergueram-se numa não-aceitação deste pensamento como se esperasse outro reduto onde me pudesse refugiar...
E senti que numa hipotética semelhança com a folha, enquanto massa apodrecida e inerte na laje  eu era...sou uma  outra folha…
Eu penso que penso...eu não sei se ela pensou...
Eu penso que estive enquanto estou...e pensando que um dia não estarei mais, mas deixarei a minha voz no vento em palavras porque deixarei a minha voz  algures nos símbolos
E se Além houver” folhas” também!?
A folha e eu...
A folha e tu...
...Mas a primavera voltará, com novas folhas, novos sorrisos...
...E eu quero o Agora...o outono do Hoje...a primavera que voltará.
Mas...e a folha que eu sou?


Manuela Barroso
(reeditado)


14 comentários:

chica disse...

Tu nos empolgas e emocionas a cada leitura pela beleza e profundidade que expressas em palavras! Perfeita! beijos, lindo dia! chica

Larissa Santos disse...

Uma prosa poética muito bem escrita. Parabéns à sua Autora :))


Bjos
Votos de uma óptima Terça - Feira.

Graça Pires disse...

Por dentro de um silêncio sem destinatário o bafo da terra molhada devolve-nos enredos de fim de tarde onde o dourado das folhas de outono nos fala das árvores e das sementes e do chão que lhes é agasalho.
Um texto cheio de fulgor, o teu, minha Amiga Manuela.
Um beijo enorme.

Mar Arável disse...

Tudo se move
até as rosas se desfolham
e os cravos
tudo menos os símbolos

Bj

Majo Dutra disse...

Uma prosa poética muito bela. animando os seres da natureza...
Viver o Outono como prenúncio de primavera...
Gostei de ler, Manuela.
Abraço carinhoso.
~~~~

Olinda Melo disse...


Manuela, que texto!

Cheio, pleno de vida, mostrando-nos o
ciclo da própria Vida num renascer constante.
E nada desaparece. Tudo deixa o seu rasto
indelével, numa outra forma e com uma outra
missão. E a grande escritora que é, querida Manuela,
dá provas disso. A sua Voz permanecerá, agora
e sempre.

Beijinhos

Olinda

Emília Pinto disse...

Somos, sim, Manuela, como a folha, nascendo como ela verde e viçosa, mas que depois, também como ele caímos na terra e apodrecendo nos reduzimos a pó. Há muito que não aparecia por aqui, mas, a cada dia me lembrava do querido Anjo Azul que aquieta o meu coração com a bela poesia que me oferece. Como a folha, também cai e...tudo se complicou. Deixo-te um beijinho muito especial e aos poucos ...as coisas vão melhorando. Até. ...
Emilia

Maria Rodrigues disse...

Temos de aproveitar ao máximo o Agora, pois mesmo no outono, a vida tem lindas tonalidades se as soubermos apreciar.
Palavras profundas e lindas, que voaram ao sabor do vento como folhas e hoje tocaram o meu coração.
Beijinhos
Maria

Leninha Brandão disse...

Minha doce e meiga amigairmã Manu,
Por mais que a folha se impregne desta que é a sua sina, reviverá e se transformará em nova folha, cumprindo o ciclo eterno da vida ...nada se perde, tudo se transforma... assim também temos o nosso ciclo e a nossa sina a cumprir. Tu, com tuas palavras permanecerás e terás o teu nome gravado na memória de todos para sempre. São tantos os aspectos de nossa viagem por este plano, mas todos eles mínimos comparados à eternidade. E enquanto houver brilho em nossas folhas, iluminaremos todos os outonos sombrios.
Um beijo carinhoso e um afago

Gracita disse...

Olá Manuela
Por mais que as folhas caiam formam belíssimo tapete a vida se renovará e será primavera outra vez
Maravilhada com este conto mágico e belo. Parabéns comadre
Beijinhos perfumados de poesia

Manuel Luis disse...

A natureza no seu bom desempenho, escrever poeticamente sobre um ciclo de vida.
Bjs

saudade disse...

Assim é a vida deixas as folhas caírem para outras rebentarem... A vida no seu mais belo ciclo.
Beijo

Teresa Almeida disse...

Um prazer viver o teu Outono e este tremer poético que se torna revigorante. É o testemunho de uma poetisa que se entranha e se move como folha com alma de pássaro livre.

Amei.
Meu beijo, querida amiga Manuela.

PS. Ainda não chegou a encomenda.

Ana Freire disse...

A folha que é... ficará para sempre tão bem conservada nas folhas de papel... que o seu extraordinário talento soube desenhar, Manuela!...
O ciclo da vida... visto à luz da sua imensa sensibilidade!...
Lindo este olhar outonal... sobre a natureza e a sua natureza, Manuela!
Pura maravilha, estes universos paralelos a que as suas palavras nos conduzem!...
Beijinho
Ana