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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Outono

 imagem da net
Há vários outonos na minha vida.
Todos tinham o sabor da melancolia. Não sei se por a luz filtrada do sol, se pela envolvência que sempre mantive com a natureza.
Essencialmente, o outono cheirava a livros, papéis, lápis de cor e a um trabalho extenuante que se aproximava, que não deixava ver e ler as folhas caídas que dançavam no chão.
...Mas o meu outono é aquele que está escrito no tempo da minha memória com recordações fechadas como que em gavetas deste móvel que guarda sinestesicamente as imagens das folhas outonais, as primeiras chuvas frias e os diospiros coloridos e doces.
Na minha gaveta de hoje, estão guardados os ouriços defensivos com as castanhas luzidias a nascer!
O castanheiro é um "caminho" longo e difícil! Entre as folhas, os ouriços com seus picos desafiam para uma subida que eles sabem ser custosa. Então, o melhor é esperar...
...E lembro aqueles fins de tarde mortiços de outono... descendo os córregos até ao ribeiro e deparar com os cogumelos que tinham o dom de me irritar! Lindos e num desafio vaidoso, olhavam-me numa tentação provocante e desmedida: Nunca sabia o que eles escondiam: se a minha verdade ou a sua mentira...
E carregando esta incógnita, lá os abandonava...olhando para trás, deixando-os num sorriso solenemente sádico...Que raiva!
Mas nos valados e nos campos, por entre a erva fria, escondiam-se as castanhas, ora desprendidas do ventre, ora ainda por nascer e cuja técnica do parto ainda não esqueci...
...E voltava com um friozinho na cara e as castanhas apanhadas de fresco, tenras e brilhantes numa cesta de verguinha com folhos e laçarotes a que se juntavam as doces maçãs de S. Miguel.
...Só os cogumelos lá ficavam, num desafio irritante zombando da minha ignorância...
A palidez do céu tornava-se cada vez mais acentuada...
Tudo estava solenemente calmo...
E o sol rasava as colinas lá ao longe, num horizonte vermelho purpurino, onde os meus olhos pousavam numa quietude suave...doce...

Manuela Barroso

 Reeditado-2010




14 comentários:

Olinda Melo disse...


Meu Deus, Manuela, que prosa poética mais linda!
Senti-me ali, naqueles sítios, à descoberta dessas
sensações, dos frutos do Outono sempre tão apetecidos
...e alguns deles quase proibidos. :)
Gosto muito do Outono, das suas cores e do seu mistério.

Bj

Olinda

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida amiga Manuela!
Um dos mais lindos poemas seus que já li... um encanto de beleza que retrata o outono... o castanheiro exibe a vida em si... um longo caminho a percorrer... subida íngrime para a perfeição e o fruto ideal...
Ma-ra-vi-lho-so!
Seja feliz e abençoada!
Bjm de paz e bem

Manuel Veiga disse...

Evoco Eric Fromm para filmar a opulência das cores
ou então Renoir

para pintar o perfume de todos os Outonos
de infância.

belíssimo texto, Manuela

beijo

Graça Pires disse...

Magnífico texto, Manuela!
Do outono cor de mel nos olhamos, tão perto e tão longe do passado...
Uma boa semana.
Um beijo.

Mar Arável disse...

Excelente como sempre
esta paz
em desordem de cores nos jardins
Que chova
Bj

Toninho disse...

Que imagem mais linda do Outono nestas reminiscencias Manuela.
Pude recriar as imagens e me transportar para um Outono mais rigoroso de minha Minas Gerais.Mas os cogumelos não me irritavam, eles simplesmente não existiam.É lendo uma lindeza assim, que reafirmo a poesia diferenciada de Outono.
Lindo demais amiga.
Bjs de paz.

Suzete Brainer disse...

Manuela,

Estes outonos descritos com a alma, esta alma numa
luminosidade e tão especial, que as folhas do outono
transfiguradas nas páginas da memória, a imprimir
uma humanidade tão sensível e íntima de uma poesia
ímpar neste valor da emoção sublime, a sensação
que guardamos no olhar à viagem da vida, um sopro
divino que nos abraça sempre!...
Totalmente emocionada com a sua prosa
poética, querida Poeta!
Grata pela leitura aqui.
Votos de dias felizes!
Beijinhos.

Emília Pinto disse...

E também eu tenho vários outonos vividos e que permanecem na minha memória, principalmente os da minha infância, apanhando os frutos das árvores, principalmente os caídos no chão, dado que a nossa pequena estatura não nos permitia alcançar os que, de cima, orgulhosos , se riam contentes por ali permanecerem mais tempo. Na vida, na nossa, com seres humanos, também há estações e o outono volta a ser, não uma estação que terminará daqui a um mês, mas que se prolongará por muito mais tempo, penso eu, pois a vida é que decide e, sinceramente, considero esta também uma época nostálgica que me leva a reflectir e, confesso, a recear um pouco.Nunca gostei do Outono por ser um anúncio do inverno, estação que me deixa triste, pois o sol mal aparece e o frio congela a minha alma, mas, ao ver o Inverno na vida de seres que muito amo, não posso deixar de recear o inverno da minha vida, se ela decidir que o tenha de viver. Mas aqui, Manuela, estás a cantar um outono lindo, com as cores douradas atapetando ruas e parques e é neste que temos de pensar e que temos de aproveitar. O outro outono e o outro possivel Inverno serão incertos e por isso não valem qualquer poema. Vivamos e aproveitemos este. Obrigada, querida amiga e que o frio que se está a sentir não seja suficiente para te deixar a alma inquieta e triste. Beijinhos e tudo de bom, principalmente com saúde
Emilia

Teresa Almeida disse...

Passei pelo teu outono e demorei o olhar na profusão de cores e perfumes que a natureza entranha na tua poética. És tão permeável!
Parabéns.
Beijinho, amiga.

Agostinho disse...

Não sei se todos os dias
mas o homem é uma paleta:
faz-se de muitos tons.
Que tudo é o que é e
o seu contrário também.
Quem assim o diz tão bem tem
umbilical cordão na poesia.

Bj.

Teresa Almeida disse...

Suave e doce é a tua aragem. Pressente-se em cada verso.
E é sempre um prazer deambular pela tua escrita. Estes outonos fascinam-me.

Beijinho, amiga.

Maria Rodrigues disse...

Divaguei pelos tons e aromas do outono através das suas tão belas palavras.
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco

Pérola disse...

Há tantas vidas na minha vida...de outonos nem te conto.

Sempre inspiradora!

Beijo

Ana Freire disse...

Maravilhoso este seu Outono, Manuela, tão belo e sereno...
Um daqueles textos para ler e reler... Sublime!
Beijinho
Ana