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sábado, 18 de março de 2017

O Cais


 Vladimir Kush
Deste mudo cais donde embarco
solto o silêncio das amarras que me prendem aos grilhões
dos porões de navios naufragados.

Só consinto
as tatuagens das margens
no ventre das mãos ausentes de flores orvalhadas.

Desço
ao coração das águas
e mergulho no bálsamo verde do baile dos limos
numa graciosa contradança.
Troco
 os meus olhares
com a quietude dos peixes e vagueio numa ondulação
combinada  com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.

Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos.

  

11 comentários:

Gracita disse...

E na quietude das horas a poesia deixa fluir a emoção nesse voo encantador e mágico desta soberba poesia. Aplausos pra você comadre
Beijos e um feliz domingo

Elvira Carvalho disse...

Mais uma vez nos brinda com um magnífico poema.
Um abraço e uma boa semana

Rui Pires - Olhar d'Ouro disse...

Um verdadeiro hino à forma de poetizar!
Parabéns e uma boa primavera!
Bj

Ana Bailune disse...

Um poema grandioso.
Um grande poema.

Teresa Almeida disse...

Adorei naufragar na profundidade do teu poema. Realmente apanhaste correntes à tua medida e deste largas à imaginação.

Grande abraço, amiga. Parabéns.

As Mulheres 4estacoes disse...

Gosto da quietude, principalmente quando ela me propicia o abandono de algumas memórias e cansaços.
Um abraço,
Sônia

Manuel Veiga disse...

gosto dessa quietude vigilante
a fluir na "linguagem impaciente dos mastros"...

verdadeiramente, Poesia.

abraço

Toninho disse...

Elegância em poesia sempre a nos ofertar com sua magna sensibilidade Manuela.
Bom sempre vir tomar desta agua.
Bom fim de semana
Meu terno abraço
Bjs de paz no coração e feliz Primavera.

Cristina Cebola disse...

Um poema imenso... diria eu, um verdadeiro mar de emoções.
Beijinho Manuela e bom fim de semana...:)

Sofia disse...

Bom mergulhar assim sem leme nas próprias emoções.

Beijinho.

Majo Dutra disse...

Um poema magnífico para quem adora o ambiente aquático...
Foi um belo e emocionante mergulho.
Abraço, Manuela.
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